quinta-feira, 30 de junho de 2011

Uma história de abundância

Quando pequena amava histórias de escassez e abundância. Alguém em grande dificuldade encontra-se com um ser mágico que traz recursos inimagináveis: cavernas cheias de riquezas, potes que jorram mel infinitamente e por aí vai. Esta é uma história escocesa encontrada num livro muito precioso escrito por Jette Bonaventure, uma analista jungiana, que sabe trabalhar com contos como poucos. A solidariedade, gentileza, bondade e generosidade abrem as portas para que os tais recursos sejam descobertos.




Como a mulher do pescador salvou a criança da rainha dos elfos

Num dia de inverno, a jovem mulher de um pescador se curvou sobre o berço de seu filho. Fora, o vento soprava, o mar roncava, as ondas quebravam-se contra os rochedos, e a jovem chorava lágrimas quentes.
- Meu filhinho, meu solzinho - murmurava - como é que vamos viver, o que vai ser de nós, agora que o mar engoliu teu pai, nosso sustento de família?
No mesmo instante deu um pulo, porque acabara de ouvir na porta um leve toc-toc!
- Quem é? Quem está batendo? - disse assustada.
Abriu um pouco a porta e, à luz da lareira, percebeu uma mulherzinha muito pequenina, branca como uma estátua e que carregava uma criança nos braços. A desconhecida entrou na cabana.
- Ajuda-me, boa mulher - suplicou - estou doente e não me sinto mais capaz de manter sozinha minha criança em vida.
A mulher do pescador nem parou para pensar. Pegou nos próprios braços o neném, magrinho, vestido de seda verde e lhe deu de comer como se fosse seu próprio filho. Depois o colocou no berço ao lado de seu filho, reanimou o fogo, colocou o resto de farinha que lhe sobrava numa panela, juntando um pedaço de peixe, verduras e, num curto espaço de tempo, tinha cozinhado uma sopa de peixe muito apetitosa. Depois preparou uma cama para a dama e, um momento mais tarde, todo o mundo adormeceu na cabana. De manhã, um choro de criança acordou a mulher do pescador. Deu uma olhada para a cama vizinha e teve um momento de espanto. Não havia mais rastro da visitante. Se não tivesse ouvido o choro do bebê, pensaria estar sonhando. Com um suspiro, pegou as duas crianças e lhes deu de comer como se fossem gêmeos. Tendo-os deixado satisfeitos, ela examinou a cabana e nem podia acreditar no que estava vendo: na mesa, havia uma travessa cheia de farinha branca, um pão bem douradinho, manteiga fresca e mel tão bom que nunca a pobre mulher havia saboreado algo parecido. Abaixo da coifa da chaminé estava pendurado um presunto defumado cujo cheiro gostoso enchia toda a casa, dando água na boca da moça. Agora levou o olhar em direção ao banquinho e viu roupas novas em cima, roupas de menino e roupas para uma menina, todas de seda e lã bordadas, leves como papel. "Só pode ter sido a rainha dos elfos", pensou a mulher do pescador. A partir desse momento, não se conhecia mais a miséria na cabana. As crianças bem nutridas, cresciam como plantinhas. A menina tinha a carinha branca e rosa e os seus olhinhos brilhavam como a água de um lago.
Uma noite, o verão estava chegando, a mulher do pescador procurava fazer dormir as crianças cantando uma canção, quando ouviu na porta um leve toc-toc! A jovem mulher se levantou, entreabriu a porta e de novo se encontrou na frente de uma mulherzinha vestida de seda verde. A visitante sorriu para ela e seus olhos verdes brilhavam como as estrelas da noite.
- Vim agradecer-lhe, pois nos salvou, a minha filha e a mim, devolvendo-nos a vida. Agora estou vindo para retomar a minha filha, mas peço-lhe insistentemente que venha comigo, assim como seu filho. Não tenha medo, todos vão estar de volta amanhã.
Esta vez tampouco a mulher do pescador parou para refletir. Vestiu rapidamente uma roupa, envolveu seu filho num pano e seguiu a dama até a montanha. Atravessaram uma floresta escura e acabaram chegando até um arbusto. Dentro dele abriu-se de repente um tipo de passagem. Esta foi se afastando diante delas e uma porta de ferro se abriu. Elas entraram e o arbusto se fechou atrás. A grama pisoteada se reergueu como se ninguém nunca tivesse passado por ali. A rainha dos elfos guiou a mulher do pescador através de um campo cheio de plantas. Havia árvores com frutas doces, que saíam delas gotas de mel. O trigo amadurecia nos campos, as espigas eram maiores do que um homem de estatura normal, e se dobravam como se fossem cabeças cheias de cabelos. Do castelo real ouvia-se uma música às vezes alegre, às vezes melancólica, fazendo os elfos dançarem suas danças imemoráveis. A mulher do pescador não sabia o que mais a deixava maravilhada: os tapetes e as cortinas eram espessos como a espuma do mar, as decorações das salas vinham de todos os cantos do mundo e eram suntuosas... A rainha os levou até à mesa principal, oferecendo-lhes pratos e bebidas como nunca tinham saboreado antes e como, sem dúvida, nem se encontram na mesa de um rei. Enquanto isso, as crianças dormiam num berço de ouro, decorado com pedras preciosas e panos de seda. Sem dúvida ambos tinham lindos sonhos, pois sorriam de bem estar no seu sono. De manhã, a rainha dos elfos agradeceu mais uma vez a mulher do pescador.
- Agora temos de nos separar - disse - mas nunca vou esquecer a sua bondade. Quero que fique com uma lembrança de mim. Acho que o melhor serviço que posso lhe prestar é que você nunca possa ver o fundo de seus pratos, pois sempre estarão cheios de boas coisa. Você e seu filho não devem conhecer nunca o que é a fome. Além do mais, vou lhe dar outro presente. Vou preparar um recipiente, cheio de remédios que as pessoas não conhecem. Tem propriedades tais que curam feridas e osso quebrados. Mas você e seu filho nunca vão precisar deles. Agora vão embora e vivam em paz e com bondade.
Nesse instante o palácio real desapareceu dos olhos da mulher do pescador, e o denso arbusto se fechou de novo. Encontrava-se com seu filho na montanha escura e apressou-se a voltar para casa. A reputação do bem que a mulher do pescador fazia com os remédios, os unguentos e as ervas logo se espalhou pela redondezas. De manhã até a noite e, frequentemente, da noite até de manhã, a jovem curava feridas e doenças. Salvou mais de um paciente da morte e continuava sempre tendo bastante remédio tanto para os ricos como para os pobres que ela, além do mais alimentava na sua mesa. Apesar de tudo o que era utilizado em sua casa, sua mesa e suas prateleiras permaneciam abarrotadas de alimentos.
Assim, a mulher do pescador, seu filho e mais tarde seus netos viveram com boa saúde até a velhice. Em toda a costa não se conhecia melhor médico do que o filho da mulher do pescador, e sem dúvida nunca se conhecerá um melhor.

Bonaventure, Jette - Variações sobre o  tema mulher - São Paulo, Paulus, 2000

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Enfim Dioniso

Existia na distante Tebas, uma princesa, filha de Cadmo, o fundador da cidade e Harmonia, filha de ninguém mais do que Ares e Afrodite. Bela como sua avó, Semele, chamou a atenção de Zeus que a engravidou e, apaixonado, lhe prometeu fazer qualquer coisa que pedisse. Hera, que não estava nem um pouco satisfeita com a história, se fez aparecer como uma velha sábia e lhe aconselhou que pedisse ao deus que se mostrasse em toda a sua glória.  A tola jovem assim o fez, e Zeus sem poder recusar apareceu numa carruagem de raios e trovões. Tal visão transformou a pobre mortal em cinzas, das quais o deus retirou o embrião que ali se formava e acabou de gestá-lo em sua coxa. Assim nasceu Dioniso, que Zeus entregou  a Hermes que o  levou para ser criado como menina por pais mortais. Hera, que nunca se dava por satisfeita, enlouqueceu os pais adotivos de Dioniso que mataram seus filhos legítimos por engano. Mais uma vez Zeus salvou seu filho e o entregou às ninfas para que cuidassem dele.
Durante quase toda a vida foi perseguido pela deusa ciumenta: fez com que enlouquecesse e vagasse perdido pelo mundo, até que chegou à Frígia e lá foi curado pela deusa Cibele. Numa outra versão, filho de Zeus e Perséfone, foi atacado, destroçado e comido pelos Titãs que apenas deixaram seu  coração. Atena teria levado este  coração ao pai que com ele preparara um poção e engravidara Semele.
Opositor ferrenho de Hera, desceu aos infernos para resgatar a mãe, levando-a para o Olimpo e exigindo que o pai a elevasse a categoria de deusa. Protegia e ajudava todos os perseguidos por Hera. 
Sua visitação era bem conhecida por levar às mulheres a um transe que durava dias. As mulheres deixavam qualquer coisa que estivessem fazendo e saíam enlouquecias pelos campos, dançando freneticamente, possuídas pelo deus do vinho e da transformação. Poderoso e amado Dioniso!

terça-feira, 28 de junho de 2011

Nasrudin e a morte

Nesta manhã gelada de inverno paulistano, só Nasrudin para nos trazer um sorriso e aquecer a alma...



 

Como morrer...


Certa vez Nasrudin se viu em grandes apuros. Em uma viagem através de um país extranho foi confundido com um malfeitor foragido da justiça. Foi preso e condenado à morte.
Nasrudin quase não teve tempo de acreditar no que acontecia. Quando enfim percebeu a gravidade da situação, colocou uma forte intuição no sentido de se livrar daquilo. A forma, ele nem imaginava.
Como era comum naquele país, o condenado tinha o direito de satisfazer a sua última vontade.
Quando foi perguntado qual era a sua última vontade, Nasrudin disse:
"Escolher a forma da minha morte!"
O Juiz disse a Nasrudin: "Você foi condenado à morte e a forma como isso se dará não é relevante na questão. De que forma você quer morrer?"
Nasrudin, aliviado, respondeu: "De velho!"

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Cenas de um casamento


Ela o conheceu na balada. Parecia um cara legal. Tratou logo de numa conversa rápida e entrecortada pelo som altíssimo e dançante descobrir mais sobre o moço. Ele se encantou imediatamente com aquela menina tão divertida e descolada. Marcaram um novo encontro para fazer uma trilha no domingo. Ela,  que odiava acordar tão cedo e detestava mato, apareceu radiante e entusiasmada pela aventura. A partir desse dia não mais se largaram. Ela topava absolutamente tudo e corriam desenfreados pelo mundo na possante moto que ele tanto amava. Bebiam, dançavam, faziam amor e se divertiam a valer. Ela, sempre de olhos brilhantes, era toda elogios a ele, que se sentia o dono do mundo.
Até que depois de um tempo decidiram que não queriam mais viver longe um do outro e resolveram se casar. Estranhamente ela fez questão de todos os trâmites: cartório, igreja cheia, limousine, véu e grinalda, buffet carésimo e lua de mel em...New York. Ele começou a achar um tanto esquisito, mas assim que ela olhava com aqueles olhos...cedia.
Começaram a vida nova no apartamento duplex com varanda que o pai dela lhes dera como presente de casamento. Daí como num passe de mágica de alguma bruxa cruel, tudo passou a ser muito diferente. Todos os dias ela lhe fazia discursos de como ele era largado, sem ambição e precisava assumir responsabilidades como adulto. Queria que abandonasse seu trabalho sem futuro e fosse buscar uma colocação nas empresas de seu pai. Nunca mais quis subir naquela moto imprestável e confessou que detestava trilhas, matas e afins.
Ele, perplexo, resistia pacificamente. A nada respondia, apenas continuava a fazer o que sempre fizera. Isto a exasperava ao máximo. 
Resolveu ela que era chegada a hora de terem filhos,pois esperava que ele, com esta responsabilidade, enfim "crescesse" .Ele que sempre quisera ser pai, aquiesceu imaginando que a gravidez poderia fazer com que ela voltasse a ser a mulher adorável que um dia conhecera. Ledo engano. Parecia possuída por um mau espírito e sua exigências descabidas cresciam mês a mês. Sexo, nem pensar. Nascido o bebê, ele passou a se sentir invisível. A nova mãe apenas se dirigia a ele para cobrar cuidados com o pequeno. Isto passou ele a fazer com prazer, apesar dela nunca ficar satisfeita.
E a vida segue assim, ele esperando que ela volte a ser quem conheceu naquela distante balada, ela tentando arduamente transformá-lo num homem digno de compor sua imagem perfeita de família feliz.

sábado, 25 de junho de 2011

Meu filme predileto



Há quase 20 anos assisti um filme que passou a fazer parte de minha estrutura. Lembro-me de me emocionar profundamente,  chorar diante do sublime retratado na tela e amplificado pela trilha. Cinema Paradiso ocupa o primeiro lugar nos meus filmes prediletos. Há algum tempo comprei a versão estendida e guardei para ver no melhor momento. E o momento chegou. Como faz diferença ter hoje 50 anos! Aproximei-me mais do Salvatore adulto que retorna à sua cidade natal, rememora personagens de um tempo esquecido, revisita a paisagem que criou seu ser e reencontra seu primeiro e único amor. Compreendi melhor cada cena de reencontro e de recordação do que se foi. Nostalgica e calmamente se reconstitui uma vida. Sonhos, aspirações e decepções que acabam por construir o que nos tornamos. E o cinema, este imenso portal, como personagem central de uma jornada. Quanta vida naquela pequena sala! Quantas histórias! Maravilhoso Tornatore! Grazie!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Sobre a conquista do amor

Estava conversando com um amigo que me contou ter sido deixado pela namorada. Estava meio perdido, uma vez que ela lhe dizia que ainda o amava, mas precisava de um tempo. Ele, como é costume em tais ocasiões, tentou todas as estratégias possíveis para tê-la de volta: fez-se de romântico, que manda flores e leva para jantares à luz de velas; fez-se de distante e não respondia torpedos, telefonemas e emails; fez-se de vítima abandonada, cachorro sem dono e assim por diante. Utilizou-se daquilo que chamo de "planos de Cebolinha" para dominar o coração de sua amada. Tudo em vão. Ela continuou indefinidamente naquele " Te amo, mas não te quero agora". Quando se encontravam era sempre "mais do mesmo" segundo ele, ou seja, uma enrolação sem fim. 
O certo é que e começou a se dar conta de algo que costumo repetir à exaustão: não se produz amor no outro. Quem ama, ama porque ama e não porque o objeto do amor se fez amar. A ação de amar é sempre do Sujeito e o objeto só faz receber ou não este amor. É difícil de aceitar este fato. Como não faço quem amo me amar?! Tudo o que fazemos para isto é mera ilusão, que se desfaz quando não dá certo. Lembro de uma história de minha adolescência, quando resolvi conquistar um certo rapaz que se fazia de inexpugnável ao amor. Depois de algumas semanas fazendo caras e bocas e traçando estratégias mil, ficou claro que tive sucesso. Ele se apaixonou pro mim. Só depois de muitos anos  veio a me confessar que sempre gostara e que meus movimentos foram totalmente inócuos. Golpe em minha onipotência amorosa. 
Se num primeiro momento nos sentimos impotentes e vulneráveis, logo nos damos conta da liberdade que se descortina. Podemos ser do jeito que somos, sem falsos retoques, sem grandes planos infalíveis, sem consumo de caros artifícios. Seremos amados pelo que somos.Ou não. E viveremos com as dores e delícias de sermos o que somos . Não se pode experimentar amor e liberdade maiores do que isto...

terça-feira, 21 de junho de 2011

A poesia de Rumi


Há alguns anos ganhei um livro precioso de poemas de um queridíssimo amigo sufi. Tratava-se de uma coleção de poemas escritos no séc. XIII pelo poeta persa Jalal ud-Dina Rumi, celebrado como o maior poeta mítico de toda a tradição persa e árabe. "Rumi pertence à seleta galeria daqueles que foram capazes de penetrar simultaneamente as esferas do divino e da criação poética", apresenta Jorge de Carvalho, seu cuidadoso tradutor.Seus poemas tocam o sublime e nos elevam à esfera do Sagrado em nós. Como meu amigo me desejou, deleito meu coração com Rumi desde então.

Encontro de almas

Vem.
Conversemos através da alma.
Revelemos o que é secreto aos olhos e ouvidos.


Sem exibir os dentes,
sorri comigo, como um botão de rosa.
Entendamo-nos pelos pensamentos,
sem língua, sem lábios.


Sem abrir a boca,
contemo-nos todos os segredos do mundo,
como faria o intelecto divino.


Fujamos dos incrédulos
que só são capazes de entender
se escutam palavras e vêem rostos.


Ninguém fala para si mesmo em voz alta.
Já que todos somos um,
falemos desse outro modo.


Como podes dizer à tua mão: "toca",
se todas as mãos são uma?
Vem, conversemos assim.


Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma.
Fechemos pois a boca e conversemos através da alma.
Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.


Vem, se te interessas, posso mostrar-te.

Jalal al-Din Rumi - Poemas místicos/ Rumi: seleção de poemas do Divan de Shams-i Tabriz - São Paulo, Attar, 1996

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Benção Celta



Quando pequena aprendi com minha querida avó o poder que temos ao pronunciar palavras com alguma intenção. Ela, que havia sido parteira e benzedeira em tempos idos, sabia como amaldiçoar e como abençoar. Intuitivamente eu sentia que bençãos são melhores que maldições, apesar de por muitas vezes ter de combater esta tendência tão humana de mais maldizer do que bendizer. Gosto de descobrir palavras de poder que tragam bons ventos e bons tempos. Esta é de uma antiga e poderosa tradição. Que se faça real em nossas vidas!




Benção Celta


Que o caminho venha ao teu encontro.
Que o vento sopre sempre nas tuas costas e a chuva caia suave sobre os teus campos.
E até que nos voltemos a encontrar, Deus te sustente suavemente na palma de sua mão e que possas sempre viver plenamente.
Que vivas todo o tempo que quiseres.
Lembra-te sempre de esquecer as coisas que te entristeceram, porém nunca esqueças de lembrar aquelas que te alegraram.
Lembra-te sempre de esquecer os amigos que se revelaram falsos, porém nunca esqueças de lembrar aqueles que permaneceram fiéis.
Lembra-te sempre de esquecer os problemas que já passaram, porém nunca esqueças de lembrar as bênçãos de cada dia.
Que o dia mais triste de teu futuro não seja pior que o dia mais feliz de teu passado.
Que o tecto nunca caia sobre ti e que os amigos reunidos debaixo dele nunca partam.
Que tenhas sempre palavras cálidas num anoitecer frio, uma lua cheia numa noite escura, e que o caminho se abra sempre à tua porta.
Que vivas cem anos, com um ano extra para te arrependeres.
Que o Senhor te guarde na sua mão, e não aperte muito os seus dedos.
Que os teus vizinhos te respeitem, os problemas te abandonem, os anjos te protejam, e o céu te acolha.
E que a sorte das colinas Celtas te abrace.
Que as bênçãos de São Patrício te contemplem.
Que os teus bolsos estejam pesados e o teu coração leve.
Que a boa sorte te persiga, e a cada dia e a cada noite tenhas muros contra o vento, um tecto para a chuva, bebidas junto ao fogo, risadas que consolem aqueles que amas, e que o teu coração se preencha com tudo o que desejas.
Que Deus esteja contigo e te abençoe, que vejas os filhos dos teus filhos, que o infortúnio te seja breve e te deixe rico de bênçãos. Que não conheças nada além da felicidade, de hoje em diante.
Que Deus te conceda muitos anos de vida, Ele sabe que a terra não tem anjos suficientes...e assim seja a cada ano, para sempre!

domingo, 19 de junho de 2011

A semente de Clarissa Pínkola

" Qual é esse processo do espírito e da semente, cheio de fé, que toca o solo nu e o torna rico de novo? Não tenho a resposta completa. Só sei o seguinte: aquilo a que dedicamos nossos dias pode ser o mínimo do que fazemos, se não compreendermos também que algo espera que a gente abra espaço para ele, algo que paira perto de nós, algo que ama, e o que espera que o terreno certo seja preparado para que ele possa se revelar.
  Estou certa de que, enquanto estivermos aos cuidados dessa força de fé, aquilo que pareceu morto não estará morto, aquilo que pareceu perdido também não estará mais perdido, aquilo que alguns alegaram ser impossível tornou-se nitidamente possível, e a terra que está sem cultivo está apenas descansando - à espera de que a semente venturosa chegue com o vento e com todas as bençãos de Deus.
  E ela chegará". Clarissa Pínkola Estés


Assim que conheci Clarissa Pínkola e seu " Mulheres que correm com lobos" fiquei tocada por sua linguagem tão poética e profunda que chama a Mulher Selvagem dentro de nós. Um tempo depois encontrei este pequeno livro, despretensioso a ponto de passar desapercebido por muitos. Assim que o li percebi que funciona como diria sua autora, como um fortificante poderoso, que cura dores de perdas e desilusões devolvendo a vitalidade natural e o desejo de seguir em frente. Sempre que dou a alguém de presente sinto que a pessoa que o recebe não dimensiona o tamanho da benção escondida ali naquelas poucas páginas. Depois de um tempo me agradecem efusivamente por terem recebido algo que lhes chamou à vida plena. Gracias, Clarissa!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Manawee e seu cachorrinho


Sempre que retomo a leitura de "Mulheres que correm com os lobos" me surpreendo por perceber nuances novas. A linguagem poética  de Clarissa Pínkola toca e instiga a prosseguir na jornada da busca de um conhecimento interno profundo e selvagem. As histórias escolhidas por ela são emblemáticas de cada aspecto. Uma de minhas favoritas é Manawee. Fala do amor de um rapaz por duas irmãs gêmeas e da tarefa de lhes descobrir o nome para que com elas possa se casar. Meu personagem favorito é o cachorrinho que se distrai e esquece o que vai fazer o tempo todo. Assim como nós que quando nos lançamos a uma tarefa da alma não podemos sentir cheiro de "torta de laranja" que já saímos do caminho. Faz parte da aventura esquecer e lembrar...


Manawee

Era uma vez um homem que vinha cortejar duas irmãs gêmeas.
- Você não poderá se casar com elas a não ser que consiga adivinhar seus nomes - dizia, porém, o pai das moças.
Manawee tentava e tentava, mas não conseguia adivinhar os nomes das irmãs. O pai das moças abanava a cabeça e mandava Manawee embora todas as vezes.
Um dia Manawee levou seu cachorrinho junto numa visita de adivinhação, e o cachorro percebeu que uma irmã era mais bonita do que a outra e que a outra era mais delicada do que a primeira. Embora nenhuma das duas irmãs possuísse todas as virtudes, o cachorrinho gostou muito delas porque elas lhe deram petiscos e sorriam olhando fundo nos seus olhos.
Também naquele dia Manawee não conseguiu adivinhar os nomes das jovens e voltou irritado para casa. O cachorrinho, porém, voltou correndo para a choupana das irmãs. Ali ele enfiou a orelha por baixo de uma das paredes laterais e ouviu as moças dando risinhos e falando sobre como Manawee era bonito e másculo. Enquanto falavam, as irmãs se chamavam mutuamente pelo nome, e o cachorrinho, tendo ouvido, voltou correndo com a maior velocidade possível para seu dono para lhe passar a informação.
No caminho, porém, um leão havia deixado um grande osso ainda com carne perto do caminho, e o minúsculo cachorrinho sentiu imediatamente o cheiro, não pensou em mais nada e se desviou mato a dentro arrastando o osso. Ali, ele lambeu e mordiscou o osso com grande prazer até que todo o sabor desapareceu. Ah! O pequeno cãozinho de repente se lembrou da tarefa esquecida, mas infelizmente ele também havia esquecido os nomes das moças.
Por isso, ele correu de volta à choupana das gêmeas e dessa vez já era de noite e as jovens estavam passando óleo nos braços e pernas uma na outra e se arrumando como se fosse para uma festa. mais uma vez o cãozinho as ouviu chamando-se mutuamente pelo nome. Ele deu pulos de alegria e estava correndo pelo caminho afora na direção da choupana de Manawee quando do meio do mato veio o aroma de noz-moscada fresca.
Ora, não havia nada que o cachorrinho adorasse mais do que noz-moscada. Por isso, se desviou um pouco do caminho e correu para o lugar onde uma bela torta de laranjas estava esfriando em cima de uma tora. Bem, logo a torta já não existia mais, e o cachorrinho tinha um adorável hálito de noz-moscada. Enquanto trotava de volta para casa com a pança cheia, tentou pensar nos nomes das moças, mas, mais uma vez, ele os havia esquecido.
Finalmente, o cachorrinho tornou a voltar correndo até a choupana das irmãs, e dessa vez as irmãs estavam se preparando para casar. "Ah, não!" pensou o cachorrinho, "quase não tenho mais tempo." E, quando as irmãs se chamaram pelo nome, ele guardou os nomes na mente e saiu em disparada, com a determinaçãoresoluta e absoluta de que nada iria impedi-lo de transferir os preciosos nomes a Manawee imediatamente.
O cãozinho vislumbrou caça pequena recém morta no caminho, mas a ignorou e saltou por cima dela. Por um instante, pareceu-lhe sentir o aroma de noz-moscada no ar, mas ele o ignorou e preferiu continuar correndo na direção da sua casa e do seu dono. No entando, ele não contava com a possibilidade de um estranho de negro saltar do mato, agarrá-lo pelo pescoço e sacudi-lo ao ponto de seu rabo quase cair. Pois, foi o que aconteceu.
Diga-me aqueles nomes! Diga-me os nomes das moças para que eu as possa conquistar - gritava o estranho o tempo todo.
O cãozinho achou que ia desmaiar com aquele punho lhe apertando o pescoço, mas lutou com bravura. Ele rosnou, arranhou, esperneou e, afinal, mordeu o estranho entre os dedos. Os dentes do animal picavam como vespas. O estranho berrava como um búfalo-da-índia, mas o cãozinho não soltava. O estranho correu pelo mato adentro com o cãozinho pendurado numa das mãos.
- Solte-me, solte-me, cãozinho, e eu o soltarei - implorou o estranho de negro.
- Não volte por aqui - rosnou entre dentes o cãozinho - ou não verá mais a luz do dia. - E assim o estranho fugiu pelo mato, gemendo enquanto corria. O cachorrinho prosseguiu meio mancando, meio correndo, pelo caminho até encontrar Manawee.
Muito embora seu pêlo estivesse sujo de sangue e suas mandíbulas doessem, os nomes das jovens estavam bem nítidos na sua mente, e ele se aproximou de Manawee, claudicante, mas feliz da vida. Manawee correu de volta até a aldeia das moças com o cachorrinho nos ombros, e as orelhas do cachorro dançavam ao vento como rabos de cavalos.
Quando Manawee chegou até o pai com os nomes das filhas, as gêmeas receberam Manawee completamente vestidas para viajar com ele. Elas haviam estado à sua espera o tempo todo. Foi assim que Manaweeconquistou duas das donzelas mais belas da região. E todos os quatro, as irmãs, Manawee e o cãozinho, viveram juntos em paz por muito tempo.
Krik Krak Kroutnow this story is out.
Krik Krak Krunnow this story is done.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Amigo é coisa para se guardar...

Amizade é fundamental. Alimenta nossa existência, amplia nossos horizontes. Há alguns anos esbarrei em alguém muito especial, que vê a vida com olhos meio de criança, acreditando que tudo pode ser melhor. Apresentou-me as trilhas do Matutu, as belezas de Caieiro e o céu estrelado de um sítio escondido na mata. Com ele aprendi a caminhar segura por entre paisagens antes muito temidas. Contou-me histórias de deuses hindus que passaram a compor meu panteão interno. Levou-me a me doar num trabalho que me trouxe de volta um lado meu, mais gentil e carinhoso. Enfim, por ser tão diferente, chamou partes minhas que eu nem supunha que existiam. Eu brigo muito com ele, por suas ideias tão discordantes da maioria. Ele nunca se agita, nunca se irrita, nem se abala. O que é extremamente exasperante. Mas nossa amizade cresce assim e floresce numa compreensão mútua que atravessa as distâncias e os silêncios. Agradeço aos deuses que o trouxeram e a ele que permaneceu.

Soneto do amigo
Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que surge no outro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...

Vinicius de Moraes

terça-feira, 14 de junho de 2011

Para meu personagem russo predileto


Era uma noite muito fria. Há dias eu vinha tendo contrações, ía para a maternidade e nada. O pequeno não queria sair do quentinho de jeito nenhum. Enfim, nesta gélida madrugada ele resolveu que chegara a hora e se chegara a hora deveria ser o mais rápido possível. Uma corrida louca até o Hospital, todos preocupados que nascesse no carro. Eu tentava acalmar minha tia, mas sabia que já estava nas últimas contrações. Na maternidade, uma balbúrdia de médicos agitados, macas e luzes. Foram apenas noventa minutos de trabalho de parto, nem tive como trocar de roupa e lé estava ele, olhinhos azuis brilhantes a me fitar. " Foi assim como ver o mar"...
Geminiano falante e apressadinho, cresceu criando mundos e teorias múltiplas. Certo dia, cansado de só falar línguas mais comuns resolveu que queria aprender algo diferente: russo. Assim fez. Virou praticamente um russo legítimo. Queria tocar bateria, não tinha uma, contruiu com Tuperwares de diferentes tamanhos, os tons e com listas telefônicas, os pedais. Em pouco tempo saía um som interessante. Até que ganhou uma de verdade e acabou com os ouvidos de todos no prédio com sua banda de Metal.
Um dia ainda pequeno, ia pela primeira vez dormir na casa de um amiguinho. Eu, mãe um tanto dramática, lhe disse: " Você vai me deixar aqui?" ao que ele respondeu do alto de seus cinco anos: "Mãe, eu vou mais eu volto e assim será a vida toda. Eu sempre volto porque sou seu filho". E assim ele fez e faz...

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Um genial geminiano...



Amo geminianos. Talvez sejam minha sina. São inteligentes, divertidos e sobretudo imprevisíveis. O primeiro que me enfeitiçou não conheci pessoalmente dadas as circunstâncias, foi também o mais genial: Fernando Pessoa. Nasceu e morreu em Lisboa. Viveu apenas 47 anos, mas alargou em muito nossas possibilidades de contemplar o mundo e a vida. Criou vários heterônimos, os quais desenvolveram estilos próprios e estranhamente diversos.
Quando adolescente apaixonei-me intensamente por Álvaro de Campos e sua inquietação torturada. Vivia de "Tabacaria" e "Lisbon Revisited". Fazia eco à minha crescente descoberta das complexidades do mundo adulto. Álvaro dizia no começo de "Tabacaria":


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Eu me identificava plenamente e me sentia traduzida. A irritação exasperada me compunha à época.

Passaram-se os anos e outro geminiano me apresentou Caieiro num passeio pela natureza. Encantou-me a contemplação muda e silenciosa dos vales, rios, montanhas e girassóis. Sabedoria e simplicidade a andar de mãos dadas. Nova compreensão do Sagrado se descortinou para mim, para além do pensamento. Num poema do Guardador de Rebanhos fala sobre felicidade e infelicidade...



XXI
 
 
     Se eu pudesse trincar a terra toda 
     E sentir-lhe uma paladar,
     Seria mais feliz um momento ... 
     Mas eu nem sempre quero ser feliz. 
     É preciso ser de vez em quando infeliz 
     Para se poder ser natural...
     Nem tudo é dias de sol,
     E a chuva, quando falta muito, pede-se.
     Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
     Naturalmente, como quem não estranha
     Que haja montanhas e planícies
     E que haja rochedos e erva ...

     O que é preciso é ser-se natural e calmo
     Na felicidade ou na infelicidade,
     Sentir como quem olha,
     Pensar como quem anda,
     E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
     E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
     Assim é e assim seja ...


Pessoa se repartiu em vários, dizem que entre pseudônimos, heterônimos,semi-heterônimos, personagens fíctícios e poetas mediúnicos chega-se a 72 nomes. Este sim foi um representante digno de seu signo...

domingo, 12 de junho de 2011

Se você vier pro que der e vier comigo...


Datas comemorativas podem ser dias especiais. Também podem ser apenas motivo para consumir. Entretanto sempre se ouve que todo dia é dia das Mães, dos Namorados, dos Pais... Todo dia deveria ser da gentileza, do carinho e do cuidado com quem amamos. Mas humanos que somos, nos esquecemos e temos de ser lembrados pelas comemorações da cultura. Presentes à parte, o que faz-se necessário é nossa presença constante e atenta nas relações que criamos.
Em nossos amores todos temos trilhas sonoras, canções que nos remetem imediatamente a sentimentos adormecidos, ou muito vivos  dentro de nós. Hoje acordei com uma, de um compositor de rara sensibilidade, que para mim, é um convite à aventura que é amar e se deixar amar. Neste dia dos Namorados faz bem lembrar...



Dia Branco

Composição : Geraldo Azevedo/ Renato Rocha

Se você vier
Pro que der e vier
Comigo...
Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva...
Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar...
Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto
Esse canto de amor
Oh! oh! oh...
Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo
Se você vier
Pro que der e vier
Comigo...
Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva...
Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar...
E nesse dia branco
Se branco ele for
Esse canto
Esse tão grande amor
Grande amor...
Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo
Comigo, comigo.



 

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O mestre pintor

Conta a lenda que histórias podem curar.  Dores do corpo e mágoas da alma. Esta mesma lenda diz que todos temos um contador de histórias interno, sábio e amoroso. Apenas precisamos aquietar, acender o nosso esquecido fogo interno e a história que pode nos curar virá...

Wang-fo

O velho Wang-fo avançava lentamente pelas ruas do reino de Han porque parava com muita frequência para observar o mundo natural. Para ele, nada valia a pena comprar, exceto pinceis, potes de laca, tinta e rolos de seda e papel-arroz. O seu discípulo, Ling, carregava um saco repleto dos esboços de seu mestre, curvado como se estivesse carregando o mundo nos ombros. Para Ling, o saco estava cheio de montanhas cobertas de neve, temporais na primavera, e a face da lua de verão.
Num dia fatídico, Wang-fo foi convocado ao Palácio Imperial onde o imperador sentava-se num trono alto, em seu jardim de meditação. Circundado pelas pinturas de Wang-fo, esse imperador havia sido criado na solidão e nunca havia se sentido livre para se expressar. Aos 16 anos, finalmente tivera permissão de olhar a vida fora do palácio pela primeira vez, mas achou-a menos bela do que as pinturas do mestre. Com uma amargura trágica, o jovem imperador frustrado gritou: "Esse mundo não passa de uma massa de cores confusas, atiradas no vazio por um pintor insano, e manchadas por nossas lágrimas".
O desejo do imperador pela beleza além deste mundo se transformou em desgosto frente à aspereza da realidade. Ele concebeu um castigo para o pintor, cujo talento o havia deixado cheio de admiração. Decretou que os olhos do artista, que haviam visto tamanha beleza, fossem queimados e as mãos que o haviam expressado fossem cortadas. Mas primeiro ele assassinou Ling, o servo fiel do artista. A seguir, a um sinal do dedo mínimo do imperador, dois eunucos, de modo respeitoso, levaram adiante o rolo de pergaminho inacabado no qual Wang-fo havia esboçado a imagem do mar e do céu. Wang-fo selecionou um dos pinceis que um escravo mantinha à disposição dele e começou a espalhar grandes traços azuis no mar inacabado. Um frágil barco a remo emergia das pinceladas do pintor e agora ocupava todo o primeiro plano do pergaminho de seda. O som rítmico dos remos surgiu na distância, rápido e ávido como o bater de asas.
Então pela mágica do talento do velho mestre, Ling ergueu-se e ajudou o mestre a entrar no barco-espírito. Conforme o som dos remos enchia a sala, forte e constante como o bater de um coração, Wang-fo terminou a pintura e o imperador, inclinando-se para a frente, uma mão acima dos olhos, observou o barco de Wang navegar para longe, em meio a névoa dourada, e desaparecer. O pintor e o seu discípulo desapareceram para sempre no mar azul que Wang-fo havia acabado de criar.

Mellon, Nancy - " Corpo em equilíbrio: o poder do mito e das histórias para despertar e curar as  energias físicas e espirituais"  São Paulo, Cultrix, 2010

terça-feira, 7 de junho de 2011

E tinha uma pedra no fim do caminho...

Sísifo era daqueles mortais que  queriam levar vantagem em tudo, quer com seus semelhantes, quer com os próprios deuses. Certa feita avistou uma águia que carregava nas garras uma bela jovem. Não era ninguém mais do que nosso velho conhecido Zeus que raptara a filha de Asopo , um deus-rio. Precisando de uma fonte para suas terras, procurou o pai desesperado e lhe propôs um acordo, revelaria o nome do raptor em troca da fonte. 
Quando soube do acontecido o grande deus ficou transtornado e mandou que Tânatos, o deus da morte, levasse o delator para o mundo dos mortos. O espertalhão, entretanto, conseguiu enganar o deus, elogiando sua beleza e o presenteando com um colar, que na verdade revelou-se uma coleira com a qual Sísifo prendeu a Morte.Logo começaram novos problemas: ninguém mais morria, o que acabou por enfurecer Hades, o deus dos mundos inferiores e Ares, o deus das batalhas. Por fim, Hades libertou Tânatos e ordenou-lhe que trouxesse imediatamente o mortal para seus domínios.Antes de ser levado, o safado instruiu a mulher para que deixasse seu corpo insepulto.Ao chegar ao inferno reclamou com o deus pela falta de respeito da mulher e pediu-lhe um dia para retornar, vingar sua ingratidão e fazer os rituais fúnebres apropriados. Seu pedido foi concedido. Assim que chegou à superfície, fugiu com a mulher. Conseguira enganar a Morte pela segunda vez.
Continuou a enganar e ganhar disputas ilicitamente, tendo morrido afinal de velhice. Desta vez não haveria escapatória: por toda a eternidade teria que empurrar uma pedra de mármore até o cume de uma montanha.A cada vez que estava quase alcançando o topo, a pedra rolava e teria que começar tudo de novo.
Pena que hoje os espertalhões de plantão acabem impunes. Quem sabe uma pedra os espere do outro lado?

O sermão de Nasrudin

O sufismo é uma corrente do islamismo, onde os praticantes buscam uma relação íntima e profunda com o sagrado Acreditam num Deus amoroso com quem se pode ter contato através da união mística. Pode ser visto com uma filosofia de autoconhecimento que busca o sagrado através de diversas práticas, como a dança, a música, as histórias. Como o anseio pelo divino seria uma condição humana, não se prenderia à uma religião específica. Por esta visão são considerados quase heréticos pelos muçulmanos tradicionais. 
As histórias sufis são constante fonte de ensinamento e alimento para a alma.


O sermão de Nasrudin

Certo dia, os moradores do vilarejo quiseram pregar uma peça em Nasrudin. Já que era considerado uma espécie meio indefinível de homem santo, pediram-lhe para fazer um sermão na mesquita. Ele concordou.Chegado o tal dia, Nasrudin subiu ao púlpito e falou:
- Ó fiéis! Sabem o que vou lhes dizer?
- Não, não sabemos
- Enquanto não saibam, não poderei falar nada. Gente muito ignorante, isso é o que vocês são. Assim não dá para começarmos o que quer que seja - disse o Mulla, profundamente indignado por aquele povo ignorante fazê-lo perder seu tempo.
Desceu do púlpito e foi para casa. Um tanto vexados, seguiram em comissão para, mais uma vez, pedir a Nasrudin fazer um sermão na Sexta-feira seguinte, dia de oração. Nasrudin começou a pregação com a mesma pergunta de antes. Desta vez, a congregação respondeu numa única voz:
- Sim, sabemos
- Neste caso não há porque prendê-los aqui por mais tempo. Podem ir embora.
E voltou para casa. Por fim, conseguiram persuadi-lo a realizar o sermão da Sexta-feira seguinte, que começou com a mesma pergunta de antes.
- Sabem ou não sabem?
A congregação estava preparada.
- Alguns sabem, outros não.
- Excelente - disse Nasrudin - então, aqueles que sabem transmitam seus conhecimento para àqueles que não sabem.
E foi para casa.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Ser mulher é...



Há tempos venho trabalhando com a questão do feminino. Começava vários workshops com a pergunta às participantes:  "O que te define como mulher?" Tal pergunta sempre causou uma certa inquietação. "Como assim?" Caras intrigadas me encaravam e surgiam as mais inusitadas respostas. De joias a compras impulsivas, já ouvi muitas coisas. Até que se chega ao corpo feminino suas implicações. Ter vagina, ter seios, ter menstruação, ter ciclos. Ser mulher é sobretudo estar ligada a este mediador da experiência: seu corpo. Com todas as suas consequências.
Nem todas gostam muito disto, ainda mais ultimamente quando a última moda é não mais ser incomodada pelo sangue e assim produzir mais e melhor.  Estranhamente tudo o que antes era natural, hoje ficou muito difícil. Outro dia ouvi uma jovem dizer que parto normal é algo cruel para o bebê... O sangue menstrual, honrado pelas sacerdotisas de todas as deusas, é tratado como mero desperdício. A indústria farmacêutica resolve todos os  problemas. Tanto de ciclos quanto de humores. Afasta cada vez mais a mulher da natureza. Quem sabe, por isso mesmo, daqui a algum tempo o feminino será definido pelo silicone e pelas infinitas compras?

domingo, 5 de junho de 2011

A saudade de Alice Ruiz



Há poetas e poetas. Cada um de nós escolhe os que mais de perto tocam nossa alma. Tenho vários muito amados. Uma destas é Alice Ruiz. Ora fala pouco com seus haikais preciosos. Ora um pouco mais... Traduz o eterno em letras, alcança profundezas com palavras. Como todo poeta de língua portuguesa lembra-nos deste sentimento que nos perpassa o ser:




Saudação da Saudade


minha saudade
saúda tua ida
mesmo sabendo
que uma vinda
só é possível
noutra vida
 
aqui, no reino
do escuro
e do silêncio
minha saudade
absurda e muda
procura às cegas
te trazer à luz
 
ali, onde
nem mesmo você
sabe mais
talvez, enfim
nos espere
o esquecimento
 
aí, ainda assim
minha saudade
te saúda
e se despede
de mim

sábado, 4 de junho de 2011

Sonho que se sonha junto...

Tenho um grande amigo sonhador e idealista. Sonha com um mundo melhor. Encontrou-se com um grupo de pessoas que também desejavam melhorar o mundo. Até aí, quase todo mundo deseja. O certo é que resolveram arregaças as mangas e fazer este mundo melhor acontecer. Por onde começar? Pelo começo: pelas crianças. Onde? Numa comunidade carente em Mogi das Cruzes. Há cinco anos nascia o Centro Educacional Jabuti. Tive a honra de participar da Assembleia de fundação onde a jornada começou no concreto.
Sonhar é fácil. Realizar são outros quinhentos... Muitas águas já rolaram nesta aventura, muitas dificuldades e muitas realizações. Hoje o projeto é dividido em três frentes: a escolinha em Mogi Moderno com  crianças menores, que cumpre a função de creche suprindo uma necessidade antiga no bairro; o Centopeia em Jundiapeba, que funciona num sistema de jornada ampliada, ou seja, é frequentado por crianças nos horários em que não estão na escola propriamente dita e o PETI- Prema, que faz parte do programa de erradicação do trabalho infantil. São oferecidas atividades lúdicas e pedagógicas, bem como alimentação em todos os projetos.
Há algumas semanas resolvi me juntar ao trabalho e passei a dedicar minhas sextas a isto. Trabalho na escolinha com as  professoras e cuidadoras , oferecendo-lhe um espaço para que também sejam cuidadas. E com as crianças realizei um sonho antigo: conto histórias das mais diversas mitologias. Mostrando a elas novas possibilidades de compreender e criar seus mundos, tanto dentro, quanto fora. Estar ali, contemplando aquelas carinhas de olhos brilhantes que tem toda uma vida pela frente, sempre me comove. Abraçam carinhosamente, pedem colo, são disponíveis para o afeto. Renovam a esperança de que o sonho se realize e que este grande mundo tão perdido possa se descortinar novo a partir deste olhinhos que até já viram  coisas dificeis, mas que ainda acreditam... 


www.cejajabuti,org

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O alfaiate desatento

As quintas-feiras são dias especiais. Dia em que histórias são contadas e ensinamentos transmitidos. Tâmaras acompanham as reuniões para lembrar que é o dia de Muskil Gushá, o dissipador de todas as dificuldades.  Dia de ajudar quem precisa. De sossegar a mente e o coração e beber das palavras de sabedoria.  A história de hoje nos lembra do quão distraídos somos e de quantas idas e vindas precisaremos até acordar de verdade. Assim nos conta Regina Machado em seu livro " A  formiga Aurélia e outros jeitos de olhar o mundo".



O Alfaiate desatento

"Era uma vez, a menos de mil quilômetros daqui, um alfaiate viúvo que vivia com a filha pequena... Apesar de ser um ótimo artesão, era uma pessoa que não prestava atenção em algumas coisas.
Assim, costumava sair à rua com a mesma roupa velha, todas esfarrapadas, que usava o dia in­teiro dentro de casa.
Os comentários se espalhavam, e ninguém mais encomendava roupas para o alfaiate, que foi ficando pobre. Um dia, sua filha disse: "Pai, não temos quase nada para comer. O senhor precisa fazer alguma coisa, senão vamos morrer de fome".
O alfaiate foi até' o sótão da casa, onde fazia muito tempo guardava coisas que considerava sem utilidade. Ao remexer nas pilhas empoeiradas, descobriu que entre elas havia objetos de valor. Ele nem se lembrava mais quando os tinha posto ali, nem por quê. Juntou uma porção desses objetos num carrinho e foi vendê-los no mercado da cidade. Com o dinheiro que recebeu, comprou comidas deliciosas para ele e para sua filha.
No caminho de volta para casa ele viu, pendurado na porta de uma tenda, um tecido magnífico, como nunca ti­nha visto. Era inteiro bordado com fios de todas as cores do arco-íris, formando várias figuras distintas. Nele também havia padrões ornamentais com fios de ouro e prata entrelaçados que brilhavam à luz do sol. O alfaiate, maravilhado, resolveu comprar aquele tecido com o dinheiro que havia sobrado.
Assim que chegou em casa, esticou o tecido sobre a mesa, pensou um pouco, e depois cortou e costurou um belíssimo manto que quase arrastava no chão.
Quando saiu à rua com aquele manto, as pessoas o rodearam e perguntaram:
- Onde foi que você comprou este manto? No Orien­te, na ilha de Java?
- Não - respondeu o alfaiate. - Eu mesmo o fiz.
- Então, nós também queremos um manto lindo como este.
E foram levar tecidos para ele, formando uma fila à porta de sua casa. Eram tantas pessoas, e tantos mantos eles fez, que acabou ficando rico.Mas ele era uma pessoa que não prestava atenção em algumas coisas. Ele não tirava seu manto: costurava com ele, fazia comida, cuidava do jardim. Passou-se muito, muito tempo. O manto ficou velho e estragado. As pessoas, vendo-o tão mal vestido na rua, começaram a achar que ele não devia ser um bom profis­sional. E deixaram de fazer encomendas. E ele ficou pobre outra vez.
Certo dia, não tendo nada para fazer, o alfaiate ficou observando o manto e descobriu que ainda havia um pedaço do tecido que não estava estragado. Pôs o manto sobre a mesa, cortou as partes rasgadas, desmanchou as cos­turas, pensou um pouco e fez um lindo casaco, com uma gola enorme.
Quando saiu com o casaco, as pessoas queriam saber: 
- Onde foi que você comprou este casaco? Na Aus­trália, no pólo norte?
- Não, eu mesmo o fiz.
E foram tantas encomendas de casacos, que o alfaiate ficou rico outra vez.Mas continuava sendo aquele homem que não prestava atenção em algumas coisas. A qualquer tipo de comemo­ração - casamento, batizado, enterro, festa de aniversário -lá ia ele com o casaco. Passou-se muito, muito tempo. E o casaco ficou todo esburacado, cheio de manchas. Ninguém mais fazia en­comendas. Ele ficou pobre
Ele ficou pobre. Percebendo que o casaco ainda tinha um pedaço bom de tecido, o alfaiate o desmanchou e fez um colete tão lindo que todos na rua lhe perguntavam:
- Onde foi que você comprou este colete? No Afe­ganistão? Na Terra do Fogo?
- Não, eu mesmo o fiz.
E com tantas encomendas de coletes, o alfaiate ficou rico. Mas, não sei se já lhes contei, ele era uma pessoa que não prestava atenção em algumas coisas. Não tirava o colete para nada, nem mesmo para tomar banho.
Passou-se muito, muito tempo. E o colete ficou em petição de miséria. Pobre mais uma vez, o alfaiate aproveitou o pequeno pedaço de tecido do colete que ainda estava per­feito e sabem o que ele fez? Uma gravata-borboleta. Mas não era uma gravata qualquer. Era tão linda e brilhava tanto, que todos queriam gravatas como aquela.
Depois de muito trabalhar, ele acabou ficando rico. E não deixava de ser aquela pessoa que Não P... A... em A ... Coisas. Nem para dormir ele tirava a gravata.
Passou-se muito, muito tempo. E a gravata ficou torta, ensebada, irreconhecível. O alfaiate ficou pobre mais uma vez, já que ninguém mais lhe fez encomendas.
(Não se preocupem, o conto já está chegando ao fim.)
O alfaiate ainda descobriu na gravata um pedacinho de tecido que podia servir para alguma coisa. E então fez um superutrabelíssimo botão, bem redondo, que costurou na sua roupa velha, no meio do peito. Ninguém notava os farrapos que ele vestia; o botão era tão brilhante e magnífico que todos queriam botões como aquele. E tantos ele fez, que ficou rico.
Mas continuava sendo aquela pessoa que N  Prestava A em  A  C. Por muito, muito tempo. E ele foi pobre.
Desmanchou o botão e ainda sobrou um pedacinho de tecido bem pequenininho, que conservava intactos alguns padrões de fios dourados e prateados, entremeados com to­das as cores do arco-íris, que brilhavam intensamente.
O que o alfaiate fez com aquele pedaço minúsculo que sobrou do magnífico tecido?"

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