sexta-feira, 13 de julho de 2012

Desilusão

Escorregou lentamente pelo rosto uma última lágrima,
Olhar perdido na eternidade azul.
Despedia-se de sua mais querida saudade,
De sua mais cuidada história,
Sem ressentimentos,
Sem mágoas,
Apenas um vazio prenhe de possibilidades.
Partiu...

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Naufrágio

Há tempos ela vinha ficando quieta, silenciosa, muda. Espreitava atenta os ruídos do pirata que habitava seu coração. Não saberia dizer quando lá ele se instalara, mas o certo é que causava trepidações em seu corpo e mudanças bruscas de temperatura. Depois de muito refletir resolveu que esperaria alguma comunicação, algum pedido de resgate. Nada. Aconteciam festins após festins; tesouros e despojos sendo tomados todos os dias. E o rum corria solto. Descontrolada e totalmente entregue não viu alternativa senão afundar o navio. Abriu vários buracos no casco enquanto o pirata dormia. Sentiu a água avançar barco acima.
Acordou falante e completamente curada da paixão insana. Nunca mais ouviu o mar...

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Cecilia fala...

Nesta nossa língua tão rica e cheia de possibilidades, poetas encontram caminhos tão simples de nos trazer beleza e novos horizontes internos. Cecília Meireles é mestre nisto. Fala de céus, mares, borboletas e jardins. Fala de sonho e desilusão. Fala Cecília...





Canção
Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

La Loba

Tem dias em que só uma boa história para te curar uma tristeza ou te tirar da apatia. Esta contada por Clarissa Pínkola é um dos bálsamos mais eficazes que conheço. Traz de volta à vida a fé que se perdeu... Bem vinda seja La Loba!!!





La Loba

Existe uma velha que vive num lugar oculto de que todos sabem, mas que poucos já viram. Como nos contos de fada da Europa oriental, ela parece esperar que cheguem até ali pessoas que se perderam, que estão vagueando ou à procura de algo.
Ela é circunspecta, quase sempre cabeluda e invariavelmente gorda, e demonstra especialmente querer evitar a maioria das pessoas. Ela sabe crocitar e cacarejar, apresentando geralmente mais sons animais do que humanos.
Dizem que ela vive entre os declives de granito decomposto no território dos índios tarahumara. Dizem que está enterrada na periferia de Phoenix perto de um poço.Dizem que foi vista viajando para o sul, para o monte Alban num carro incendiado com a janela traseira arrancada. Dizem que fica parada na estrada perto de El Paso, que pega carona aleatoriamente com caminhoneiros até Morelia, México, ou que foi vista indo para a feira acima de Oaxaca, com galhos de lenha de estranhos formatos nas costas. Ela é conhecida por muitos nomes: La Huesera, a Mulher dos Ossos; La Trapera, a Trapeira; e La Loba, a Mulher-Lobo.
O único trabalho de La Loba é o de recolher ossos. Sabe-se que ela recolhe e conserva especialmente o que corre o risco de se perder para o mundo. Sua caverna é cheia de ossos de todos os tipos de criaturas do deserto: o veado, a cascavel, o corvo. Dizem, porém, que sua especialidade reside nos lobos.
Ela se arrasta sorrateira e esquadrinha as montañas e os arroyos, leitos secos de rios, à procura de ossos de lobos e quando consegue reunir um esqueleto inteiro, quando o último osso está no lugar e a bela escultura branca está disposta à sua frente, ela senta junto ao fogo e pensa na canção que irá cantar.
Quando se decide, ela se levanta e aproxima-se da criatura, ergue seus braços sobre o esqueleto e começa a cantar. É aí que os ossos das costelas e das pernas do lobo começam a se forrar de carne, e que a criatura começa a se cobrir de pelos. La Loba canta um pouco mais, e uma proporção maior da criatura ganha vida. Seu rabo forma uma curva para cima, forte e desgrenhado.
La Loba canta mais, e a criatura-lobo começa a respirar.
E La Loba ainda canta, com tanta intensidade que o chão do deserto estremece, e enquanto canta, o lobo abre os olhos, dá um salto e sai correndo pelo desfiladeiro.
Em algum ponto da corrida, quer pela velocidade, por atravessar um rio respingando água, quer pela incidência de um raio de sol ou de luar sobre seu flanco, o lobo de repente é transformado numa mulher que ri e corre livre na direção do horizonte.
Por isso, diz-se que, se você estiver perambulando pelo deserto, por volta do pôr do sol, e quem sabe esteja um pouco perdido, cansado, sem dúvida você tem sorte, porque La Loba pode simpatizar com você e lhe ensinar algo- algo da alma.

Estés, Clarissa Pínkola - Mulheres que correm com os lobos: Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem- Rio de Janeiro, Rocco, 1994

Falando sério...


Na última sexta fui, como sempre, para Mogi das Cruzes de trem. Por motivos festivos saí de lá um tanto mais tarde do que o normal e portanto, cheguei na baldeação de Guaianazes numa hora de pico. As portas se abriram e um bando de pessoas querendo entrar no trem de qualquer maneira impediam a saída e quase me derrubaram com sua força de turba. Foi quando uma boa alma me avisou de que eu deveria sair pela primeira porta do vagão onde ficam guardas para organizar as coisas. Poderia eu dizer que são todos uns mal educados que não sabem se comportar com civilidade. Mas, olhando de perto, quem submetido diariamente a este tratamento de gado, num vagão tão apinhado de gente, em que se suspende todos os pudores de proximidade e espaço pessoal, consegue preservar sua integridade e humanidade? E quem realmente se preocupa com o bem estar destes trabalhadores? Com seu conforto então nem se fala. São pobres, não têm carro, não merecem regalias. Triste é saber que nada lhes é oferecido e depois se cobra que tenham consciência. Consciência que lhes é tirada cotidianamente para que aguentem e que se tivessem  não sobraria pedra sobre pedra...

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Álvaro e o dia de seus anos

Dizem que geminianos assobiam e chupam cana ao mesmo tempo. Dizem que gostam de escarafunchar tudo e descobrir tudo. Dizem que têm a capacidade de se multiplicar em mil. Dizem... Fernando Pessoa confirma isto com maestria e vai além. Visita todas as paisagens e todos os cantos da alma com olhares tão diversos que chega a espantar. Grande geminiano que nos transpassa e eleva. Aqui Álvaro canta a saudade de seus aniversários de infância. Soberbo.
      ANIVERSÁRIO
    No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu era feliz e ninguém estava morto. Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, De ser inteligente para entre a família, E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida. Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, O que fui de coração e parentesco. O que fui de serões de meia-província, O que fui de amarem-me e eu ser menino, O que fui --- ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui... A que distância!... (Nem o acho...) O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa, Pondo grelado nas paredes... O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), O que eu sou hoje é terem vendido a casa, É terem morrido todos, É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio... No tempo em que festejavam o dia dos meus anos... Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, Por uma viagem metafísica e carnal, Com uma dualidade de eu para mim... Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes! Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui... A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado---, As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos... Pára, meu coração! Não penses! Deixa o pensar na cabeça! Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus! Hoje já não faço anos. Duro. Somam-se-me dias. Serei velho quando o for. Mais nada. Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!... O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
    Álvaro de Campos, 15-10-1929

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Passarinhos, Manoel e Bach

Há tempos conhecia Manoel de Barros. Agora me encantei tão plenamente que todo dia descubro algo novo, belo e de tão singelo, comovente.Quando se junta a Bach então...














DE PASSARINHOS

Para compor um tratado sobre passarinhos
É preciso por primeiro que haja um rio com árvores
e palmeiras nas margens.
E dentro dos quintais das casas que haja pelo menos
goiabeiras.
E que haja por perto brejos e iguarias de brejos.
É preciso que haja insetos para os passarinhos.
Insetos de pau sobretudo que são os mais palatáveis.
A presença de libélulas seria uma boa.
O azul é muito importante na vida dos passarinhos
Porque os passarinhos precisam antes de belos ser
eternos.
Eternos que nem uma fuga de Bach.





sexta-feira, 11 de maio de 2012

O olhar de Caeiro

    Tem dias em que só a poesia ilumina. Só a poesia nos traduz. Só a poesia nos conforta... Caeiro em seu Guardador de Rebanhos surge sempre como um bálsamo.
      O meu olhar é nítido como um girassol.
      Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se, ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo...Creio no mundo como num malmequer, Porque o vejo. Mas não penso nele Porque pensar é não compreender... O Mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos) Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo... Eu não tenho filosofia; tenho sentidos... Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, Mas porque a amo, e amo-a por isso Porque quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe por que ama, nem o que é amar... Amar é a eterna inocência, E a única inocência não pensar...

    quarta-feira, 9 de maio de 2012

    " Se contarmos..."


    Como a poesia, tal qual veneno e cura  depois de uma semana intensamente exposta, ainda circula em minhas veia chegamos a este poema que desvela caminhos inesperados dos encontros e desencontros amorosos. Deu certo trabalho à bela que o escolheu...

    De Martha Medeiros

    Se contarmos todas as palavras que trocamos
    Daria para escrever um bom romance
    Eu nem te conhecia e contei meus absurdos
    Tu nem me conhecia e contou teus muitos planos

    Se contarmos todos os olhares que trocamos
    Daria para encher um lago inteiro
    Eu nem te conhecia e contei o meu passado
    Tu nem me conhecia e contou teu desespero

    Se contarmos todos os silêncios que trocamos
    Daria para povoar um edifício
    Eu nem te conhecia e contei meus vinte anos
    Tu nem me conhecia e contou teus sacrifícios

    Se contarmos todas as fantasias que trocamos
    Daria pra dizer que amantes fomos
    Mas o amor exige beijos e abraços
    E não reconheceu o nosso encanto

    terça-feira, 8 de maio de 2012

    Adélia e sua Serenata

    A cada vez que encontramos com a poesia ela nos toma, nos traduz. Adélia Prado faz isto com uma maestria inigualável. Já presenciei algumas companheiras de Oficina falando esta preciosidade que traz à luz uma expectativa e uma dor muito conhecidas. O resultado é sempre belo...




    A Serenata

    Uma noite de lua pálida e gerânios
    ele virá com a boca e mão incríveis 
    tocar flauta no jardim.
    Estou no começo do meu desespero
    e só vejo dois caminhos: 
    ou viro doida ou santa.
    Eu que rejeito e exprobo
    o que não for natural como sangue e veias
    descubro que estou chorando todo dia,
    os cabelos entristecidos,
    a pele assaltada de indecisão.
    Quando ele vier, porque é certo que vem,
    de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
    A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
    - só a mulher entre as coisas envelhece.
    De que modo vou abrir a janela,se não for doida?
    Como a fecharei, se não for santa?

    segunda-feira, 7 de maio de 2012

    "As violetas me imensam"

    Semana de poesia. Semana cheia de idas e vindas, dores e emoções desencontradas. Palavras saltando dos recônditos mais esquecidos. Escolheram-me dois poemas para me possuir. Adélia veio tranquila e sábia, como sempre. Fluía doce. Mas Manoel de Barros é outra coisa. Apaixonei-me mas parecia que não ia dar em nada. A principio um encontro meio desajeitado em que as palavras não pareciam querer passear por mim. Quase deixei pra lá e fui procurar um Quintana, um Caeiro. Mas não. Tinha que ser ele. E depois de um longo domingo de conflitos e discussões aconteceu:  Manoel, enfim , foi meu e eu, toda dele...




    De Manoel de Barros


    Não é por me gavar
    mas eu não tenho esplendor.
    Sou referente pra ferrugem
    mais do que referente pra fulgor.
    Trabalho arduamente para fazer o que é desnecessário.
    O que presta não tem confirmação,
    o que não presta, tem.
    Não serei mais um pobre diabo que sofre de nobrezas.
    Só as coisas rasteiras me celestam.
    Eu tenho cacoete pra vadio.
    As violetas me imensam


    sexta-feira, 4 de maio de 2012

    Poesia falada

    Esta semana estou me banhando de poesia. Delicioso ouvir poemas novos e outros velhos conhecidos. Cada um colore com seu tom as palavras e o mundo se descortina belo. Uma poeta que se fez presente é Viviane Mosé. Surpreendentemente tocante...




    A Palavra

    é uma roupa que a gente veste
    uns gostam de palavras curtas
    outros usam roupa em excesso
    existem os que jogam palavra fora
    pior são os que usam em desalinho
    cores brigando, substantivos em luta
    alguns usam palavras raras
    poucos ostentam palavras caras
    tem quem nunca troca
    tem quem usa a dos outros
    a maioria não sabe o que veste
    alguns sabem e fingem que não
    uns nunca usam a roupa certa para ocasião
    tem os que se ajeitam bem com poucas peças
    outros se enrolam no vocabulário de muitas
    eu adoro usar palavra limpa
    tem gente que estraga tudo o que usa
    com quais palavras você se despe?


    Poema do livro TODA PALAVRA, Sete Letras, 1997.

    terça-feira, 1 de maio de 2012

    Oficina de dizer Poesia

    Esta semana terei mais uma vez o privilégio de aprender poesia com Elisa Lucinda e Geovana Pires. Mergulhar nas palavras de nossos amados poetas, me perder na beleza ou crueza das imagens desveladas nos versos. Esta oficina também traz novos amigos, personagens que ,como eu, amam aventurar-se por este universo que é o poema. Lembro-me de um querido que escolheu este Pessoa e trabalhou incessantemente para conseguir dizer o poema com leveza e desenvoltura. Árdua missão de decorar e falar com sensibilidade.Comovente resultado... Dá-lhe sublime Pessoa:




    Há doenças piores que as doenças,
    Há dores que não doem, nem na alma
    Mas que são dolorosas mais que as outras.
    Há angústias sonhadas mais reais
    Que as que a vida nos traz, há sensações
    Sentidas só com imaginá-las
    Que são mais nossas do que a própria vida.

    Há tanta cousa que, sem existir,
    Existe, existe demoradamente,
    E demoradamente é nossa e nós...
    Por sobre o verde turvo do amplo rio
    Os circunflexos brancos das gaivotas...
    Por sobre a alma o adejar inútil
    Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

    Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

    Fernando Pessoa

    segunda-feira, 23 de abril de 2012

    Rubem Alves e seu curso de escutatória

    Desde muito cedo sou encantada com pessoas. Certo é que algumas me fascinam tão intensamente que pareço sentir uma certa devoção. Isto acontece com poetas, escritores , músicos e pintores. Em suma, quem me abre portais através de sua arte. Quando me deparo com alguém assim fico sem palavras. Foi o que aconteceu quando conheci este Mestre, grande em sabedoria e hábil com palavras, que é Rubem Alves. Consegui apenas falar sobre a possibilidade de curar pela beleza, ao que ele concordou.  Se é do silêncio é que ela se manifesta...











    Escutatória

    Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.
    Escutar é complicado e sutil Diz o Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma". Filosofia é um monte de ideias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas - coitadinhas delas - entram e caem num mar de ideias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em  nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para ver é preciso que a cabeça esteja vazia.
    Faz muito tempo, nunca me esqueci. Eu ia de ônibus. Atrás, duas mulheres conversavam. Uma delas contava para a amiga os seus sofrimentos. (Contou-me uma amiga, nordestina, que o jogo que as mulheres do Nordeste gostam de fazer quando conversam umas com as outras é comparar sofrimentos. Quanto maior o sofrimento, mais bonitas são a mulher e a sua vida. Conversar é a arte de produzir-se literariamente como mulher de sofrimentos. Acho que foi lá que a ópera foi inventada. A alma é uma literatura. É nisso que se baseia a psicanálise...) Voltando ao ônibus. Falavam de sofrimentos. Uma delas contava do marido hospitalizado, dos médicos, dos exames complicados, da injeções na veia - a enfermeira nunca acertava -, dos vômitos e das urinas. Era um relato comovente de dor. Até que o relato chegou ao fim, esperando, evidentemente, o aplauso, a admiração, uma palavra de acolhimento  na alma da outra que, supostamente, ouvia. Mas o que a sofredora ouviu foi o seguinte: "Mas isso não é nada..." A segunda iniciou, então, uma história de sofrimentos incomparavelmente mais terríveis e dignos de uma ópera que os sofrimentos da primeira.
    Parafraseio o Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma." Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente quer dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg - citado por Murilo Mendes: "Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas." Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...
    Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante(não "evangélico"), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. ( Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as ideias estranhas.Também para tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado" Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou." Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou." E assim vai a reunião.
    Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntas, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu um enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã. ao meio-dia e ás 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em "U" definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada, Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o déu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Ninguém que se levantasse para dizer: "Meus irmãos, vamos cantar o hino..." Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. É música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chora. A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem. No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós - como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Me veio agora a ideia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa - quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio.Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto...


    Alves, Rubem - O Amor que acende a Lua - Campinas, Papirus, 1999

    quinta-feira, 19 de abril de 2012

    O Jogo


    O Jogo

    Há milhares de anos existia um reino chamado Jardim dos Sonhos. Neste lugar a família real vivia em paz e harmonia com todos os seus súditos, pois o rei era considerado um homem sábio e justo e por isso respeitado e amado por todos. Um dia, apareceu na porta do palácio uma bela senhora com a face serena como a de um anjo, que tinha o dom de encantar as pessoas com a sua conversa mansa e divertida e com jogos e brincadeiras que ela propunha para entreter seus ouvintes deixando a todos encantados com seu jeito doce e sedutor.
    Como nada passava despercebido aos olhos do rei e vendo que tal senhora tinha o dom de distrair os seus súditos, ele a mandou chamar para lhe propor que ficasse no reino ocupando o cargo de senhora dos jogos e das festas, ou seja, ela seria a pessoa responsável por promover e organizar todos os jogos e também as festas no reino.
    Logo ela se tornou o centro das atenções do reino com seus jogos, brincadeiras e festas que organizava para todos os súditos do reino. Os jogos pareciam trazer felicidades e satisfações sem fim a todos e mesmo que, de vez em quando, alguém se machucasse, ninguém se importava pois todos se espelhavam nos aparentes vencedores e sempre queriam participar novamente.
    Todos se deleitavam com os jogos e  festas daquela senhora, divertindo-se a valer e, desta forma os anos foram passando, até que um dia chegou um viajante de um reino distante. Este viajante era conhecido em seu reino como um homem de grande sabedoria e logo viu, que todos ali estavam empenhados em se distrair com os jogos, festas e brincadeiras daquela senhora, completamente envolvidos por ela, a ponto de se esquecerem do real propósito de suas vidas. Percebendo isto, o viajante pediu para falar com o rei, dizendo que tinha algo de muito importante  a respeito do próprio reinado para contar a ele.
    O sábio ao ser recebido pelo rei no salão do palácio lhe relatou:
    - Oh, estimado rei! Vejo que seu reino é muito vasto e rico e sei que governas com justiça e sabedoria, porém, há nele uma senhora de face como a de um anjo, que com seu jeito envolvente, domina os seus súditos e faz com que todos, de uma forma ou de outra se iludam com os seus jogos e, assim, se esqueçam do real propósito da vida.
    O rei então lhe contou que fora ele mesmo que a convidara par viver naquele reino, exercendo tal função e que tudo aquilo estaria sujeito a acontecer. Mas sabia também que um dia seus súditos se cansariam dos jogos e das festas, que lhes prometiam a princípio, muitas felicidades e prazeres, mas que no fundo nunca as satisfariam plenamente, pois tais divertimentos erma apenas superficiais e fugazes. Quando isto acontecesse, eles estariam preparados para se conscientizarem, com toda clareza e lucidez, da verdadeira essência da vida.
    Ouvindo isto, o sábio sentiu que estava diante de um homem de sabedoria e onisciência e reverenciou o rei, que sentiu que a chegada do sábio ao reino, seria o momento oportuno e auspicioso para que alguns de seus súditos começassem a despertar para o rela propósito da vida. Pediu, então, ao sábio homem que o ajudasse na missão de despertar seus súditos para uma consciência mais ampla, através de um processo de auto-análise, busca do conhecimento e disciplina espiritual.
    O sábio aceitou tal missão. E todos os viajantes que passavam pelo reino diziam que aquele homem continuou com sua missão por muitos e muitos anos e que apesar de no princípio não ter sido compreendido pela maioria, cada um a seu tempo e a seu modo foi despertando do reino do Jardim dos Sonhos.


    Conto de Marcelo Satuf Amaral

    terça-feira, 17 de abril de 2012

    Mais de Elisa Lucinda

    Que poesia traz beleza traz graça e beleza à caminhada creio que muitos sabem. Que os poetas abrem portais para o sublime e para o sagrado também não é segredo algum. Mas a sensação de mergulhar na palavra e navegar nas estrofes é sempre surpreendente. Minha mestra querida, Elisa Lucinda, volta a São Paulo para dar mais uma oficina. E mais uma vez terei o prazer e a honra de experimentar esta maravilha. Só para degustação, um poema de seu livo " A Fúria da Beleza". Precisa mais?

    Convite

    Vamos meu amor
    nos encontrar às escondidas dos nossos inimigos?
    Vamos, vamos, meu amigo,
    nenhum deles saberá!
    Vamos, de um jeito sagaz, armar,
    de modo que o rancor não encontre coleguinha, 
    ressonância, par?
    Vamos nos articular, pianinho,
    de modo que o orgulho, esse "ervo daninho",
    se sinta sozinho e sem lugar?
    Vamos combinar de nos encontrar tão gostoso, 
    de modo que o garboso, bobo, inútil orgulho,
    aquele que sempre superior se sente,
    se veja ali, sem ambiente?
    Vamos, meu amor,
    o amor arapucar,
    de modo que a mesquinharia sinta logo que errou de ponto,
    que falhou de lugar?
    Vamos meu amor, meu cúmplice,
    nos organizar,
    pois que a gosma do ressentimento perceba logo
    que se enganou de bar?
    Vamos logo, amor, para um bom lugar, onde a razão conceda ao perdão 
    o poder do sol,
    que é o de iluminar?
    Sem aqueles demais, só com nós dois
    e em paz,
    vamos rir,
    rir de amor, 
    de puro amor, 
    vamos rir de chorar?
    Vamo amor?  

                                              Sampa, outono de 2005


    Lucinda, Elisa - A Fúria da Beleza - Rio de Janeiro: Record,2008

    segunda-feira, 16 de abril de 2012

    Ao Senhor da Floresta




    Era um dia comum. Ela se levantou como sempre fazia. Desavisada caminhou pelas tarefas costumeiras. Desconhecia a aproximação da morte que lhe visitaria duplamente, seguia feliz pela quarta-feira luminosa. Até que a notícia chegou e teve de correr para socorrer a irmã que perdera o amado. Triste via crucis de quem vai enterrar alguém tão querido. Mas a vida continuava e muito havia a resolver. Não podia sequer imaginar que no dia seguinte perderia também seu único irmão, aquele que tanto a amara e tanto a odiara. Caiu a noite deste dia tão funesto e em meio às sombras ele surgiu com seus olhos brilhantes. Trouxe consigo o aroma dos eucaliptos e das matas. Trouxe vida e trouxe dor. Fez-se noite e madrugada do resto de seus dias... Ela, nem se lembra do que um dia foi.

    quinta-feira, 5 de abril de 2012

    Tudo acontece para o melhor

    Histórias de diversas tradições trazem diferentes formas de pensar e viver as coisas boas e difíceis de nossa caminhada. A que se segue faz parte de uma coleção de contos hindus e nos sugere uma postura um tantinho complicada de se aplicar, mas que pode trazer grande sabedoria.










    Tudo acontece para o melhor

    Um certo príncipe, depois da morte do pai, herdou o reino e uma grande fortuna em ouro. Isso ele gostou - gostou bastante. O que ele não via com bons olhos era o fato de ter herdado também um velho ministro de seu pai.
    Não que o ministro atrapalhasse a vida de festas e prazeres do jovem rei, mas é que ele estava sempre tão sério quanto um velho gato; sua presença era o suficiente para dissipar completamente o alegre espírito do rei e de seus companheiros.
    Além disso, o velho ministro tinha o hábito de murmurar constantemente: "Tudo o que acontece, acontece para o melhor, se soubermos como aceitá-lo".
    Isso irritava profundamente o rei: "Como é possível que um forte resfriado ou uma queda de cavalo possa ser bom, sem falar em ' o melhor' ?", perguntava ele a seus confidentes e dizia:
    " A lógica do ministro. através do longo uso, tornou-se tão embotada como sua cabeça velha e calva e, assim, é inclinado a aceitar tudo o que vem, sem protestar, afirmando para si mesmo que tudo acontece para o melhor!"
    Mas o rei não podia permitir que ele permanecesse tão simplório. Assim concluiu que algum evento excitante, tal como um passeio estimulante na floresta, seria bom para arejar a cabeça do velho companheiro de seu pai.
    Assim, um dia pediu ao ministro que se juntasse a ele na caravana que iria caçar.
    "Muito bem", disse o ministro como sempre.
    Parecia que não seria um dia muito auspicioso. Nuvens pesadas e escuras surgiram no horizonte quando o grupo iniciou a jornada. O príncipe pensou que elas seriam varridas pelo vento. Mas justamente quando estavam na floresta, um forte vendaval partiu o galho de uma grande árvore que veio caindo, caindo, até desabar sobre o próprio rei. Felizmente, ele escapou com apenas um pequeno corte na testa.
    Não obstante, gritou de horror. E, ainda por cima, os guardas e os cortesões fizeram tal alarido que centenas de chacais, perto de um arbusto, juntaram-se à confusão.

    O ministro, no entanto, sorriu e consolou o rei dizendo:
    " Não fique perturbado, meu jovem senhor! O que acontece, acontece para o melhor!" e acrescentou: "Tudo o que tem que fazer é aceitar todas as coisas no espírito certo".


    Nunca antes estas palavras enfadonhas, tinham soado tão sinistras como então. O rei tremeu de raiva e ordenou a seus homens para amarrar o ministro e jogá-lo dentro de um buraco e gritou ironicamente alegre:
    " O que acontece, acontece para o melhor, não é? Agora prove a sua própria teoria. Adeus!"

    O rei e seus homens não tinham andado muito quando um temporal desabou, seguido de um pesado aguaceiro. Ouvia-se terríveis estrondos de trovões e algumas árvores, abatidas por raios, caíam diante do grupo. Em pânico, os homens correram na confusão, deixando o rei sozinho.
    De repente, o rei foi cercado por uma gangue de bandidos. Nas profundezas da selva, a gangue tinha a sua própria crença e seus costumes. E dentre estes costumes, eles tinham o estranho hábito de sacrificar um ser humano no altar da divindade deles, num certo dia do ano. E  este dia tinha chegado!
    O rei tentou escapar, mas ele não tinha forças para enfrentar sozinho os marginais. Foi capturado e levado para o santuário deles. Estava para perder a vida, quando os bandidos observaram a ferida em sua testa. Desapontados, mandaram-no embora, pois os rituais exigiam que o homem a ser sacrificado não tivesse uma única ferida recente em seu corpo.
    Logo a chuva parou, O rei descobriu que estava no coração da floresta e tentou se orientar para achar o caminho. Quando seus homens finalmente o encontrar, estava atordoado e muito faminto. Grande foi a alegria de todos.
    O rei, exausto, sentou-se numa rocha e mandou alguns de seus homens libertar o ministro.
    Logo o velho surgiu, calmo como sempre. O rei o abraçou e prorrompendo-se em lágrimas, disse:

    "Ó meu sábio ministro, agora compreendo a verdade de suas palavras. Teria sido morto se não fosse  a ferida na minha testa. Pode perdoar-me pelo desrespeito que tive por você?"
    "Esteja certo, meu nobre senhor, que o que quer que aconteça, acontece sempre para o melhor. Eu vi os bandidos, mas eles não podiam me ver porque estava no buraco. Se tivessem me visto, certamente teriam me levado e agora minha cabeça e tronco não estariam mais juntos"...

    domingo, 1 de abril de 2012

    Celebrando Rachmaninoff

    Há alguns anos fui apresentada a um compositor russo, sentimental ao extremo, que se tornou um de meus mais queridos. Seu concerto número 2 foi presente em momentos cruciais desta minha caminhada. Certa vez sonhei que estava num campo de concentração e a peça era a trilha de fundo. Eu começava a me desesperar no sonho, quando disse a mim mesma: " Você escolhe, ou fica deprimida ou percebe que mesmo nas piores situações, a música ainda toca." Neste primeiro de abril, data de seu nascimento, celebremos Rachmaninoff... Com Nelson Freire, beleza em forma de sons....


    sexta-feira, 30 de março de 2012

    Abençoar é preciso...

    Abençoar e ser abençoado é sempre muito bom. Há tempos aprendi a colecionar bençãos e resistir à minha tendência natural de lançar maldições e imprecações pelo mundo. Desta forma a beleza passa a ser uma companheira constante da caminhada, bem como a alegria e a paz. Esta é mais uma vinda da sabedoria celta.







    Que jamais, em tempo algum, o teu coração acalente ódio.
    Que o canto da maturidade jamais asfixie a tua criança interior.
    Que o teu sorriso seja sempre verdadeiro.
    Que as perdas do teu caminho sejam sempre encaradas como lições de vida.
    Que a musica seja tua companheira de momentos secretos contigo mesmo.
    Que os teus momentos de amor contenham a magia de tua alma eterna em cada beijo.
    Que os teus olhos sejam dois sóis olhando a luz da vida em cada amanhecer.
    Que cada dia seja um novo recomeço, onde tua alma dance na luz.
    Que em cada passo teu fiquem marcas luminosas de tua passagem em cada coração.
    Que em cada amigo o teu coração faça festa, que celebre o canto da amizade profunda que liga as almas afins.
    Que em teus momentos de solidão e cansaço, esteja sempre presente em teu coração a lembrança de que tudo passa e se transforma, quando a alma é grande e generosa.
    Que o teu coração voe contente nas asas da espiritualidade consciente, para que tu percebas a ternura invisível, tocando o centro do teu ser eterno.
    Que um suave acalanto te acompanhe, na terra ou no espaço, e por onde quer que o imanente invisível leve o teu viver.
    Que o teu coração sinta a presença secreta do inefável!
    Que os teus pensamentos e os teus amores, o teu viver e a tua passagem pela vida, sejam sempre abençoados por aquele amor que ama sem nome.
    Aquele amor que não se explica só se sente.
    Que esse amor seja o teu acalento secreto, viajando eternamente no centro do teu ser.
    Que a estrada se abra à sua frente.
    Que o vento sopre levemente às suas costas.
    Que o sol brilhe morno e suave em sua face.
    Que respondas ao chamado do teu Dom e encontre a coragem para seguir-lhe o caminho.
    Que a chama da raiva te liberte da falsidade.
    Que o ardor do coração mantenha a tua presença flamejante e que a ansiedade jamais te ronde.
    Que a tua dignidade exterior reflita uma dignidade interior da alma.
    Que tenhas vagar para celebrar os milagres silenciosos que não buscam atenção.
    Que sejas consolado na simetria secreta da tua alma.
    Que sintas cada dia como uma dádiva sagrada tecida em torno do cerne do assombro.
    Que a chuva caía de mansinho em seus campos...
    E, até que nos encontremos de novo.
    Que os Deuses lhe guardem na palma de Suas mãos.
    Que despertes para o mistério de estar aqui e compreendas a silenciosa imensidão da tua presença.
    Que tenhas alegria e paz no templo dos teus sentidos.
    Que recebas grande encorajamento quando novas fronteiras acenam.
    Que este amor transforme os teus dramas em luz, a tua tristeza em celebração, e os teus passos cansados em alegres passos de dança renovadora.
    Que jamais, em tempo algum, tu esqueças da Presença que está em ti e em todos os seres.
    Que o teu viver seja pleno de Paz e Luz! 

    quarta-feira, 28 de março de 2012

    Sobre a responsabilidade do amor

    Há tempos venho pensando na tão famosa afirmação retirada do não menos conhecido " O Pequeno Príncipe":
    "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas." Interessante esta ideia de amor como conquista e cativeiro. Boa coisa não poderá dar... Cativar é escravizar o que implica exercer poder. Esta é a maior confusão que se pode fazer. Eu me interesso por alguém, decido conquistá-lo e uma vez alcançando esta meta, prendo o pobre numa dependência sem desejos ou vontades a não ser de me servir fielmente.Sou responsável pelos sentimentos de outra pessoa que não eu mesma. E chamo tudo isto de amor?!! Fantasia de onipotência desenfreada.
    Amor não se conquista, não é território. Amor se ama e se, amado também,  se transborda e se cuida. Sujeitos deste amor podemos,apenas, nos responsabilizar pelo que sentimos nós. O outro e o que ele sente é de responsabilidade dele. Não provoco amor no ser amado, ele sente por vontade própria. Posso perder a fantasia de conquistar, dominar e cativar. Perco também a ilusória segurança do cativeiro em que prendi o amante. Ganho, em contrapartida, a possibilidade de um amor que vive da liberdade e dela se alimenta...Sem garantias, nem travas de segurança, mas eterno enquanto dure.

    segunda-feira, 19 de março de 2012

    Reencontro


    Há muito, muito tempo esbarrei num personagem mitológico. Excêntrico, como poucos; banido  de muitos espaços e proscrito de todos os cultos. Tomou-me pela mão e me conduziu gentilmente para dentro de minhas paisagens. Caminhamos por luminosas pradarias e trevosas cavernas. Conheci mundos insuspeitados e dores indesejadas. Cresci e me multipliquei. Chamou a existência preciosidades escondidas. Levou-me a partilhar o caminho com outros estranhos que, como nós, se encantavam com as aventuras de dentro. 

    Como chegou  se foi deixando um vazio e uma tristeza saudosa de tudo o que experimentamos.

    Mas...os outros loucos, banidos e proscritos um dia resolveram se reencontrar e num magnífico Pow-Wow trocar experiências, histórias e celebrar as colheitas destes anos. Juntos relembramos os dias em que felizes descobríamos quem realmente éramos. Dançamos, rimos, choramos e sonhamos. Fomos visitados por flores e borboletas. As águas de novo se moveram e o fogo com suas poderosas salamandras crepitou noite afora. Resgatamos nossa irmandade e assim seguiremos seguros com a missão de construir uma nova e bela cidade...

    quarta-feira, 14 de março de 2012

    Cassandra de Troia

    Troiana e princesa, Cassandra quando pequena adormeceu no Templo de Apolo. Serpentes a rodearam e passearam por seu corpo tocando também sua língua e ouvidos. Não seria mais apenas uma menina como as outras. Enxergava mais, ouvia e sabia muito. Cresceu e se tornou a segunda mulher mais bela do mundo, superada apenas por Helena, a que traria a desgraça à Troia. Devota de Apolo recebeu do deus o dom da profecia, mas também seu amor e desejo. Fez o impensável e recusou o assédio de Apolo que furioso  a condenou a nunca ser ouvida e que ninguém acreditasse em suas profecias. Profetizou a guerra e a queda de sua amada e inexpugnável cidade. Avisou a todos sobre o perigo daquele cavalo que surgiu como presente nos portões de Troia. Por ninguém foi ouvida. Passou a ser considerada desequilibrada e louca.  Perdida a guerra foi levada por Agamenon como concubina. Alguns dizem que fugiu e fundou uma grande cidade tendo muitos descendentes.
    Certo é que como tantas mulheres sabia aquilo que havia de acontecer e buscava fazer-se considerada.  Como muitas não foi ouvida e a catástrofe não foi evitada. Quantas de nós, Cassandras, experimentamos esta sensação em nossos dias?

    domingo, 11 de março de 2012

    Se eu pudesse trincar a terra toda...

    Há alguns dias encontrei uma amiga querida e ficamos nos deliciando em lembrar poemas. Alguns que tínhamos encontrado quando adolescentes e outros nos quais esbarramos pela intensa vida que vivemos. Piscianas apaixonadas pela Palavra e pelo Amor. Revisitamos Pessoa, Neruda... Hoje amanheci com um gosto de poesia e terra na boca. Relembrei Caieiro...




    Se eu pudesse trincar a terra toda (7-3-1914)

    XXI

    Se eu pudesse trincar a terra toda
    E sentir-lhe um paladar,
    E se a terra fosse uma coisa para trincar
    Seria mais feliz um momento...
    Mas eu nem sempre quero ser feliz.
    É preciso ser de vez em quando infeliz
    Para se poder ser natural...

    Nem tudo é dias de sol,
    E a chuva, quando falta muito, pede-se.
    Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
    Naturalmente, como quem não estranha
    Que haja montanhas e planícies
    E que haja rochedos e erva...

    O que é preciso é ser-se natural e calmo
    Na felicidade ou na infelicidade,
    Sentir como quem olha,
    Pensar como quem anda,
    E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
    E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
    Assim é e assim seja...

    quinta-feira, 8 de março de 2012

    A Donzela que era mais sábia que o Czar

    Desde pequena os contos de princesa me intrigavam: seriam elas tão tolas e desvalidas que sempre precisariam de um príncipe para salvá-las? Comeriam maças envenenadas distraidamente, dormiriam a espera de um beijo que as despertassem? Até que apurei os ouvidos , procurei e encontrei histórias onde, inequivocamente a princesa é a heroína, cumpre tarefas, enfrenta desafios e chega ao fim da jornada transformada pelo desenrolar de um caminho pessoal.  As exigências feitas às princesas não são de força física mas de uma capacidade interna de solucionar problemas e encontrar saídas criativas onde nada existe.  A jornada da princesa tem, portanto, particularidades bem femininas e  suas conquistas também. Príncipes, quando aparecem, são coadjuvantes. A protagonista da própria história é sempre a princesa. Podemos aprender muito com a suavidade, persistência, astúcia e perspicácia destas meninas.







    A Donzela que era mais sábia que o Czar


            Era uma vez um homem pobre que tinha uma única filha.
    Essa jovem era surpreendentemente sábia; parecia possuir uma compreensão muito acima do que seria de se esperar na sua idade e frequentemente dizia coisas que espantavam a seu próprio pai.
    Um dia, quando estava sem um centavo, esse homem foi visitar o czar, para pedir sua ajuda.
    O czar ficou atônito ao ver a forma refinada com que o homem falava, e perguntou-lhe onde havia aprendido aquelas frases.
    — Com minha filha – respondeu o homem.
    — Sim, mas onde sua filha aprendeu? – perguntou o czar.
    — Deus e nossa pobreza a tornaram sábia – foi a resposta.
    — Aqui está algum dinheiro para as suas necessidades imediatas – disse o czar, — e trinta ovos, para que você peça à sua filha, em meu nome, para que os ponha a chocar para mim. Se ela o fizer com êxito darei a vocês ricos presentes. Caso ela não o consiga, você será torturado.
    O homem voltou para casa e deu os ovos para sua filha, que os examinou, pesando um ou dois em suas mãos, e assim ela se deu conta de que eram ovos cozidos. Disse ao seu pai:
    — Pai, espere até amanhã. Talvez eu descubra o que se pode fazer.
    No dia seguinte ela acordou bem cedo e, tendo pensado uma solução, ferveu algumas sementes. Colocou-as dentro de uma pequena bolsa e deu-a a seu pai, dizendo:
    — Vá com o arado e os bois, pai, e comece a arar ao lado do caminho por onde o czar passa quando está indo à igreja. No momento em que o czar puser sua cabeça para fora da janela da carruagem você deve gritar: "Vamos, bravos bois, arem a terra para que essas sementes cozidas cresçam bastante!"
    O pai fez o que sua filha havia dito, e conforme a previsão dela, o czar olhou o homem trabalhando pela janela da carruagem. Quando escutou o que ele gritava, disse:
    — Homem estúpido, como você pode esperar que sementes cozidas produzam algo?
    O homem, prevenido pela sua filha, gritou:
    — Da mesma forma que ovos cozidos produzem pintos!
    O czar então seguiu seu caminho, sabendo que a jovem havia sido mais esperta do que ele.
    Porém as coisas não terminariam assim...
    No dia seguinte o czar enviou fio de linho enrolado e embaraçado à casa do homem. O mensageiro disse:
    — Este linho deve ser usado para fazer velas para o barco do meu senhor, e isto deve ser feito até amanhã. Caso contrário você será executado.
    Chorando, o homem entrou em casa, mas sua filha lhe disse:
    — Não tenha medo, pensarei em uma solução.
    Na manhã seguinte ela se dirigiu a seu pai e entregou-lhe um pedaço de madeira, dizendo:
    — Diga ao czar que se ele puder fazer todos os instrumentos necessários para fiar e tecer deste pedaço de madeira, eu farei o tecido para as velas com este linho.
    O homem fez conforme a sua filha havia indicado, e o czar ficou ainda mais impressionado com a resposta da jovem. No entanto ele pôs uma pequena taça na mão do homem e disse:
    — Vá, e leve esta taça para sua filha e peça-lhe para esvaziar o mar com ela, porque assim poderei aumentar meus domínios com novas pastagens.
    O homem voltou para casa e deu a taça à filha, dizendo-lhe que o governante havia pedido novamente algo impossível de ser feito.
    — Vá se deitar – disse ela. – Pensarei em algo, concentrando minha mente nisso toda a noite.
    Ao amanhecer chamou o pai e disse:
    — Diga ao czar que se ele puder represar todos os rios do mundo com este pedaço de estopa, então esvaziarei o mar para ele.
    O pai voltou ao palácio e contou ao czar o que sua filha dissera. O czar reconhecendo que ela era mais sábia do que ele, pediu que ela fosse enviada à corte imediatamente. Quando ela se apresentou, ele lhe perguntou:
    — O que é que pode ser ouvido a uma grande distância?
    Sem vacilar, ela respondeu imediatamente:
    — Somente o trovão e a mentira podem ser ouvidos desde os pontos mais distantes, ó czar.
    Atônito, o czar segurou sua própria barba, e virando-se para os cortesãos lhes perguntou:
    — Quanto acham que vale a minha barba?
    Todos começaram a calcular o que pensavam que a barba valia, dando-lhe preços cada vez mais altos para adular sua Majestade. Então o czar perguntou à donzela:
    — E você, minha criança, quanto você acha que vale a minha barba?
    Os cortesãos aguardavam atentos a resposta.
    — A barba de Vossa Majestade vale três chuvas de verão.
    O czar muito surpreendido, disse:
    Você respondeu corretamente. Eu me casarei com você e farei de você minha esposa hoje mesmo.
    E assim a jovem se tornou a czarina. Mas assim que as bodas terminaram ela disse ao czar:
    — Tenho um pedido a fazer. Conceda-me a graça, escrita com letra de sua própria mão, de que se você ou qualquer um da sua corte desgostar-se comigo, e eu tiver que partir, me será permitido levar comigo aquilo de que eu mais gostar.
    Encantado com a bela donzela, o czar pediu uma pena e um pergaminho e imediatamente escreveu, selando o documento com o seu anel de rubi, tal como ela havia solicitado.
    Os anos se passaram com muita felicidade para ambos. Um dia, porém, o czar teve uma acalorada discussão com a czarina e, irritado, ordenou:
    — Vá embora! Desejo que deixe este palácio para nunca mais voltar.
    — Então irei embora amanhã – disse a jovem czarina, obedientemente. – Permita-me somente passar a noite aqui para preparar meu regresso a casa.
    O czar concordou e, antes de deitar-se, tomou a bebida de ervas que ela sempre preparava para ele. Assim que a bebeu o czar caiu adormecido. A czarina levou-o para a carruagem real, e partiram para a cabana de seu pai.
    Quando amanheceu o czar, que havia dormido tranquilamente a noite inteira, despertou olhando desconcertado ao seu redor.
    — Traição! – gritou. – Onde estou e de quem sou prisioneiro?
    — Meu, Vossa Majestade – respondeu a czarina docemente. – O documento escrito por sua própria mão está aqui.
    E lhe mostrou o pergaminho onde ele havia escrito que se ela tivesse que sair do palácio poderia levar aquilo de que mais gostasse.
    Quando o leu, o czar riu de coração, e declarou que seu afeto por ela ainda era o mesmo.
    Ao que ela respondeu:
    — Meu grande amor por você, ó czar, me fez assim tão audaciosa. Mas, se arrisquei a minha vida, isso demonstra o quanto amo você.
    E foi assim como eles se uniram novamente e viveram felizes para o resto de suas vidas.

    História reproduzida do livro Histórias da Tradição Sufi

    sábado, 3 de março de 2012

    Chico canta...







    Era ainda dezembro e uma amiga me ligou perguntando se eu queria ir no show do Chico. Imediatamente respondi que queria e muito. Ingressos esgotados no site, busca de alternativas e ela, persistente, conseguiu enfim comprar um camarote para 4 pessoas, sem bem saber quem poderia ir conosco. Perguntou a uma amiga querida que estava em viagem e ela também concordou. Por fim surgiu a quarta apaixonada e o grupo estava completo. Espera dos ingressos, tensão, expectativa. Tudo correu bem e chegou o grande dia. Sexta-feira à noite em São Paulo. Duas horas no trânsito e chegamos ao " Far Far Away" Hall. Delícia de conversa, delícia de companhia, delícia de vinho.
    E sobe ao palco, tímido como sempre o soube, esta entidade: Chico Buarque. Toca seu violão e canta... Canções de hoje, de ontem. Pulam recordações de tantas eras e ele, quase um deus, desfia sua poesia pela noite. Eu me sinto num templo contemplando aquela aparição. Era quem ,além de tudo, um dia escreveu "Budapeste", para mim uma obra como poucas. Alimento minha alma de " O meu amor", "Anos dourados" e outras...Como é bom estar viva e poder apreciar as coisas belas que a vida nos oferece!  Sinto uma gratidão infinita por poder naquele momento estar exatamente naquele lugar com aquelas pessoas. E se sexta é dia de Afrodite, ontem ela se revelou intensamente através da presença e da voz de seu filho Chico...








    sexta-feira, 2 de março de 2012

    Afrodite se revela...







    Até aquele dia ela tinha certeza de que era uma mulher como as outras, comum e mediana. Caminhava anônima pelas ruas sem que ninguém a notasse. Nem particularmente bela, nem assumidamente feia. Vaidades não costumava cultivar. Econômica em gestos, palavras e olhares beirava à invisibilidade confortável dos semelhantes. Talvez se ela não tivesse se atrasado uns minutos sua vida seguiria assim indefinidamente. Mas naquela sexta-feira, como tantas outras, chegou à plataforma do trem para o trabalho alguns segundos antes das portas se fecharem. Hesitou entre arriscar e esperar. De repente percebeu aqueles olhos, intensos e perscrutadores, que a fitavam como se estivessem vendo uma aparição da Deusa.  Estacou e sentiu vibrar cada célula do seu corpo como se tomada por um raio. Sentiu-se bela, poderosamente bela. Magnética. Não saberia precisar a eternidade daquele instante. A porta se fechou, o trem se foi e ela, possuída por sua própria divindade, nunca mais foi a mesma...

    quinta-feira, 1 de março de 2012

    De como a Verdade entrou num palácio...

    Este é um conto que Regina Machado, uma da melhores contadoras de história que conheço, encontrou num livro de Malba Tahan, o fantástico escritor de " O Homem que Calculava". Quando pequena era fascinada por este livro. A tradição árabe é rica em contos maravilhosos e este professor brasileiro se encantou com eles , passou parte de sua vida a estudar e disseminar histórias. Seu nome  verdadeiro era Júlio César de Mello e Souza. Ele próprio trasvestiu-se de fábula e criou mundos...





    Uma Fábula sobre a Fábula


    Allah Hu Akbar! Allah Hu Akbar!

    Deus criou a mulher e junto com ela criou a fantasia. Foi assim que uma vez a Verdade desejou conhecer um palácio por dentro e escolheu o mais suntuoso de todos, onde vivia o grande sultão Haroun Al-Raschid. Vestiu seu corpo apenas com um véu transparente e pouco depois chegou à porta do magnífico palácio. Assim que o guarda apareceu e viu aquela mulher sem nenhuma roupa, ficou desconcertado e perguntou quem ela era. E a Verdade respondeu com firmeza:
    - Eu sou a Verdade e desejo encontrar-me com seu senhor, o sultão Haroun Al-Raschid.
    O guarda entrou e foi falar com o grão-vizir. Inclinando-se diante dele, disse:
    - Senhor, lá fora está uma mulher pedindo para falar como nosso sultão, mas ela só traz um véu completamente transparente cobrindo seu corpo. 
    - Quem é essa mulher? - perguntou o grão-vizir com viva curiosidade.
    - Ela disse que se chama Verdade, senhor - respondeu o guarda.
    O grão-vizir arregalou os olhos e quase gaguejou:
    - O quê? A Verdade em nosso palácio? De jeito nenhum, isso eu não posso permitir. Imagine o que ia ser de mim e de todos aqui se a Verdade aparecesse diante de nós? Estaríamos todos perdidos, sem exceção. Pode mandar essa mulher embora, imediatamente.
    O guarda voltou e transmitiu à Verdade a resposta do seu superior. A Verdade teve que ir embora, muito triste.

    Acontece que...

    Deus criou a mulher e junto com ela criou a teimosia. A Verdade não se deu por vencida e foi procurar roupas para vestir. Cobriu-se dos pés à cabeça com peles grosseiras, deixando apenas o rosto de fora e foi direto, é claro, para o palácio do sultão Haroun Al-Raschid.
    Quando o chefe da guarda abriu a porta e encontrou aquela mulher tão horrivelmente vestida, perguntou seu nome e o que ela queria.
    Com voz severa ela respondeu:
    - Sou a Acusação e exijo uma audiência com o grande senhor desse palácio.
    Lá se foi o guarda falar com o grão-vizir e, ajoelhando-se diante dele, disse:
    - Senhor, uma estranha mulher envolvida em vestes malcheirosas deseja falar com nosso sultão.
    - Como ela se chama? - perguntou o grão-vizir.
    - O nome dela é Acusação, Excelência.
    O grão-vizir começou a tremer, morto de medo:
    - Nem pensar. Já imaginou o que seria de mim, de todos aqui, se a Acusação entrasse nesse palácio? Estaríamos todos perdidos, sem exceção. Mande essa mulher embora imediatamente.
    Outra vez a Verdade virou as costas e se foi tristemente pelo caminho. Ainda dessa vez ela não se deu por vencida.

    E isso porque...

    Deus criou a mulher e junto com ela criou o capricho.
    A Verdade buscou pelo mundo as vestes mais lindas que pôde encontrar: veludos e brocados, bordados com fios de todas as cores do arco-íris. Enfeitou-se com magníficos colares de pedras preciosas, aneis, brincos e pulseiras do mais fino ouro e perfumou-se com essência de rosas. Cobriu o rosto com um véu bordado de fios de seda dourados e prateados e voltou, é claro, ao palácio do sultão Haroun Al-Raschid.
    Quando o chefe da guarda viu aquela mulher deslumbrante como a Lua, perguntou quem ela era.
     E ela respondeu, com voz doce e melodiosa:
    - Eu sou a Fábula e gostaria muito de encontrar-me, se possível, com o sultão deste palácio.
    O chefe da guarda foi correndo falar com o grão-vizir, até esqueceu-se de ajoelhar-se diante dele e foi logo dizendo:
    - Senhor, está lá fora uma mulher tão linda, mas tão linda, que mais parece uma rainha. Ela deseja falar com nosso sultão.
    Os olhos do grão-vizir brilharam:
    - Como é que ela se chama?
    - Se entendi bem, senhor, o nome dela é Fábula.
    - O quê? - disse o grão-vizir completamente encantado - A Fábula quer entrar em nosso palácio? Mas que grande notícia! Para que ela seja recebida como merece, ordeno que cem escravas a esperem com presentes magníficos, flores perfumadas, danças e músicas festivas.
    As portas do grande palácio de Bagdá se abriram graciosamente e por elas finalmente a bela andarilha foi convidada a passar.
    Foi desse modo que a Verdade, vestida de Fábula, conseguiu conhecer um grande palácio e encontrar com Haroun Al-Raschid, o mais fabuloso sultão de todos os tempos.

    Machado, Regina - O violino cigano e outros contos de mulheres sábias - São Paulo: Companhia da Letras, 2004.

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