quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O louro esperto...

As histórias sufis nos trazem ensinamentos que poderíamos levar anos de estudo para  obter. Basta abrir-se e ouvir...






O Mercador e o Louro

Era uma vez um mercador que mantinha um papagaio preso em uma gaiola. Quando estava para ir à Índia, em uma viagem de negócios, ele disse ao pássaro:
- Eu estou indo à sua terra natal. Você tem alguma mensagem pata os seus parentes selvagens?
- Simplesmente diga a eles - disse o papagaio - que estou vivendo aqui em uma gaiola.
Quando o mercador retornou, falou ao papagaio:
- Eu sinto dizer que tão logo encontrei os seus parentes selvagens lá na floresta e os informei de que você estava engaiolado o choque foi muito forte para um deles. Assim que ouviu a notícia,caiu do galho onde estava e não tenho dúvidas de que morreu de tristeza.
Imediatamente, assim que o mercador terminou de falar, o papagaio teve um colapso e caiu inerte no chão de sua gaiola.
Penalizado, o mercador tirou o papagaio da gaiola, colocando-o do lado de fora, no jardim. Então o papagaio, tendo captado a mensagem, levantou-se e voou para fora do alcance do mercador.


Histórias da Tradição Sufi- Rio de Janeiro: Edições Dervish- Instituto Tarika, 1993

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Mais de Afrodite

Há algum tempo eu e a Cris Balieiro iniciamos um diálogo entre as Deusas da Mitologia e as Princesas dos contos de fada. Falávamos das dimensões psicológicas com as princesas e tocávamos respeitosamente o sagrado com os arquétipos das Deusas.Os diálogos começavam entre elas, continuavam conosco e seguiam com os grupos de mulheres. Os encontros eram os mais inusitados e partíamos do princípio que todos os personagens do conto bem como as possibilidades das deusas estavam dentro de nós. Não trabalhávamos com tipologias e sim com "visitações" ou constelações como diria Jung: num determinado momento um aspecto até adormecido pode acordar e tomar a primazia.
Um dos encontros mais produtivos foi o de Afrodite, a deusa dos encontros , conversando com Chitrangada,
 uma princesa do Mahabharata, masculinizada e desengonçada, que se apaixonava pelo heroi e humildemente
suplicava por um milagre à deusa do amor. Como uma mulher tão sem atrativos poderia tocar o coração daquele belo jovem. A Deusa atende e a transforma numa belíssima mulher por apenas um ano. E depois?
O que buscamos no encontro amoroso? O que nos move e comove quando estamos tomados pela Deusa?
Qual a beleza que toca e cria mundos?
Afrodite se mostra muito mais poderosa nas transformações que mobiliza através dos encontros do que quando invocada para achar príncipes encantados. Com Psiquê( e esta é uma outra longa história) é implacável mas faz de uma menina adorada uma mulher digna de um relacionamento profundo com o próprio Amor. Invocá-la exige coragem porque quando ela resolve te transformar não tem para onde correr. Mas vale sempre a pena...

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Normas Gerais para a vida dos Lobos por Clarissa Pínkola

Fui criada por minha amada avó que tinha 71 anos, quando assumiu a responsabilidade de cuidar de um bebê de seis meses. Árdua tarefa...Para prevenir complicações construíram um cercado e lá me colocaram. Cercado é jeito de dizer porque era bem fechado e não tinha visão do exterior. Parecia mais um caixão e assim o chamaram. Não, eu não virei vampira ...Lá dentro tinha alguns brinquedos e muitas, muitas revistas: Seleções e Claudia. Dizem que eu adorava olhar as imagens e brincar de ler com as tais publicações. Certo é que saí de lá lendo e fiquei com sequelas. Adoro listas do que e como fazer, bem ao estilo das antigas Seleções. Quando encontrei esta no final do livro de Clarissa Pínkola fiquei encantada e passei a usá-la para me lembrar do que realmente importa...



NORMAS GERAIS PARA A VIDA DOS LOBOS

 1. Coma
 2. Descanse
 3. Perambule nos intervalos
 4. Seja leal
 5. Ame os filhos
 6. Queixe-se ao luar
 7. Apure os ouvidos
 8. Cuide dos ossos
 9. Faça amor
10. Uive sempre


Estés, Clarissa Pínkola - Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem  - Rio de Janeiro, Rocco, 1994

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A Filha do Trapezista

Há algum tempo, minha amiga Lizandra, uma jornalista como poucas, apareceu com uma proposta de juntarmos as forças e criarmos uma Oficina Literária. Adoro desafios e lá fomos nós. Eu a contar histórias, ela usando todos os recursos( e são muitos!!!) de que dispõe para favorecer a escrita criativa. Juntamos algumas queridas e passamos a nos aventurar pelas possibilidades de cada uma. Surpreendente como os encontros favorecem o surgimento de textos tão inesperados, desconhecidos de nós mesmas. Alguns escritos já postei aqui. Alguns ainda estão por vir. Percebo que o espaço do encontro é sempre portal para mim. Brotam palavras, imagens e sensações tão vivas e coloridas. Bom é saber que muitos novos encontros virão...



A Filha Do Trapezista

Fazia sempre questão de andar com as próprias pernas. 
Preferia  caminhar a qualquer outro meio de transporte.
Sentir o chão bem firme debaixo de seus pés. 
Apresentava um medo sólido de alturas.
Temia o voo. 
Seria eternamente lagarta...

sábado, 3 de dezembro de 2011

Unhas vermelhas

 



Naquele vagão há séculos, ele quase beirava o desespero. Ela surgiu abrindo caminho por entre as gentes. Dela bastou ver aqueles dedos compridos, aquelas unhas cor de sangue. Poderia ficar ali pela eternidade...

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Homem e mulher...

Ela vinha de muito longe. Ela vinha de muito perto. Incorpórea visão. Volátil perfume. Misto de sonhos, ilusões, anseios. Pairava sobre si mesma. Nos olhos trazia a impossibilidade de ser, a dor na ferida aberta em seu peito. Escondia-se nas meigas falas e nos velozes pensamentos. Comprazia-se em se fazer rejeitar. Desejava, desejava e desejava. Recebia, porém, alimento para devaneios. Era venerada, admirada, musa de cavaleiros temporãos. Sentia-se menor, limitada, aquém de seu verdadeiro ser.
Ele já estava lá. Conhecia-o há tempos. Belo, desejável. Ela já o havia transformado em matéria de sonhos. Diluía seus olhares. Explicava seus abraços mais apertados:era carinhoso assim mesmo... Fazia sua habitual cara de paisagem.
Chegou, enfim, um dia. O dia em que ele a quis por sobre a névoa. Seu desejo e determinação foram tamanhos que ignorou por completo as tentativas de fuga, as desculpas, os desvios. O momento era chegado: agora ou nunca! Ele a queria e era pra já. Ela ainda tentou se esconder atrás da velha e boa histórias que a consumia, que exauria suas forças e sua alegria. História para boi dormir. Tentou fugir mais uma vez da vida, do ser, de seu corpo que pedia... Ele, bendito seja, não deixou. Seus olhos, suas mãos, não se afastaram dela. Seu respirar, seu transparente e inequívoco desejo.
Encontraram-se por fim, corpo e alma; ação e desejo. Bocas, peles, sexos. Ela, como que em sonho flutuava por sobre a cena, sem acreditar. Era real, enfim acontecera. Ele, nu, magnífico a tocava, cheirava, mordia, lambia, penetrava seus espaços. Era bom! Ah! Era muito bom mesmo! Amaram-se com urgência. Conversaram também. Ele, gentil, lhe contou carinhosamente a história que só se conta às quintas-feiras. Ela sorria feliz contemplando o reflexo de seus corpos. Não havia vergonha, não havia orgulho.
Amaram-se mais uma vez, com calma, com delicadezas. Foi bom! Muito, muito bom! Era momento de ir, de se deixarem partir. Ela, inteira mulher. Ele, todo homem. Guardados um nas reentrâncias do outro, misturados na fantasia que se fez carne. Apaixonados por si mesmos através do encontro. Um. Uma. Viventes. Visitados por Afrodite e Dioniso.

Imagem: Vigeland , Man and Woman

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O Criado do Príncipe de Bokhara

Contar histórias, para mim, é uma necessidade. Sempre digo que elas se comportam como entidades, só se manifestam quando querem. Não adianta querer contar esta ou aquela para fazer bonito. A história tem que se mostrar em toda a sua grandeza e beleza indo além da performance do contador. Assim ela toca e faz alma. Esta apareceu hoje por aqui...


O CRIADO DO PRÍNCIPE DE BOKHARA

O Príncipe de Bokhara tinha um criado que, com medo de ser castigado por uma falta que cometera, afastou-se e permaneceu escondido no  Kuhistão, no deserto, durante dez anos. Findo este período, incapaz de suportar por mais tempo a falta de seu senhor e de seu lar, decidiu voltar para Bokhara, ajoelhar-se aos pés do Príncipe de Bokhara e submeter-se a qualquer castigo que este quisesse infligir-lhe. Seus amigos fizeram o possível para dissuadi-lo, afirmando-lhe que a cólera do príncipe ainda não abrandara, e que se aparecesse em Bokhara seria condenado à morte ou atirado na prisão pelo resto da vida.
- Ó conselheiros, calem-se - disse ele - A força do amor que me conduz a Bokhara é mais forte do que seus conselhos de prudência. Quando o amor nos impele para algum lugar toda a sabedoria do m undo é impotente para vencê-lo. Se agradar ao meu senhor matar-me, entregarei minha vida a ele sem pena, já que a separação daquele a quem irei procurar agora é o mesmo que a morte, e a libertação que dela virá será minha eterna felicidade. Voltarei a Bokhara, lançar-me-ei aos pés do meu senhor e direi: " Faze comigo o que quiseres. Não posso mais aguentar tua ausência, e para mim a vida ou a morte em tuas mãos são a mesma coisa".
Coerente com seu pensamento, iniciou a viagem de volta a Bokhara, considerando doces e deliciosos a fadiga e os desconfortos da viagem, porque eram passos que dava em direção ao lar.
Quando chegou a Bokhara, amigos e familiares preveniram-no para que não se deixasse ver, pois o príncipe ainda não esquecera sua ofensa e o castigaria. Porém ele lhes respondeu da mesma forma que respondera a seus conselheiros anteriores: que agora sua vida lhe era completamente indiferente, e que resolvera submeter-se à vontade de seu senhor. Dirigiu-se à corte e arrojou-se aos pés do príncipe, desmaiando.
Vendo o amor que seu criado arrependido sentia por ele, o príncipe sentiu amor igual. Desceu do trono e, com clemência, fê-lo levantar-se do chão e perdoou sua falta. Desse momento em diante ambos viveram em harmonia para sempre.

Histórias da Tradição Sufi- Rio de Janeiro: Edições Dervish- Instituto Tarika, 1993
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