quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Hainá e o Ogro

A princesa, para se tornar digna de ser princesa, passa por inúmeros desafios e invariavelmente tem que encarar o lado sombrio e destrutivo , aprender a lidar com ele e a ultrapassá-lo. Neste conto marroquino, nossa protagonista o faz belamente.






HAINÁ E O OGRO

Num vilarejo do Marrocos, bem perto de uma grande e escura floresta, morava Hainá e sua família.
Hainá era bonita e feliz. Feliz porque dali a pouco iria se casar com seu primo Adil.
Um dia, as moças da cidade se juntaram para catar lenha na floresta. Naturalmente Hainá foi junto. Fazia um dia lindo e ninguém num dia assim tinha medo da floresta.
Perto das quatro os feixes de lenha tinham sido amarrados e todas as moças estavam prestes a tomar o caminho de volta para a aldeia. Mas o céu cobriu-se rapidamente de nuvens negras - o trovão trovejava - uma tempestade ia estourar. E a densa floresta logo ficou escura. Foi esse momento que o ogro escolheu, um ogro horroroso, para pular de uma árvore para o meio das moças. Elas escaparam gritando muito alto:
- Hainá, corra rápido!
Mas o ogro precipitou-se por cima dela e a carregou até sua toca. Ninguém tinha coragem de avisar Adil, o noivo de Hainá, de que sua noiva tinha desaparecido. Todos sabiam que ela deveria já ter sido comida pelo ogro. Todos sabiam que Adil, o corajoso, iria vingar Hainá. Mas todos enfim também sabiam que os ogros são mais fortes do que todos os jovens da face da terra. Então, porque deixar inutilmente Adil se deixar matar?
Uma amiga de Hainá, um dia, porém, contou toda a verdade a Adil. Mas ele não ouviu nenhum conselho. Pegou uma espada, pão, tâmaras e leite e se foi logo em busca de sua noiva. No caminho passou perto de uma colina toda coberta de flores vermelhas, só de flores vermelhas. Adil achou isso estranho e perguntou a razão disso à colina. A colina logo respondeu:
- Estou coberta de flores vermelhas porque Hainá passou por este caminho.
Um pouco mais longe Adil contemplou outra colina coberta de flores azuis, unicamente de flores azuis.
Quando perguntou a razão de a colina estar coberta de flores azuis, ela respondeu:
- Adil, estou coberta de flores azuis porque Hainá passou por esta caminho.
A terceira colina, recoberta de flores brancas, intrigou Adil. Este perguntou o porquê disso.
- Sou branca, até muito branca, Adil, porque Hainá mora aqui.
Aos pés desta magnífica colina branca havia uma aldeia que se esquentava tranquilamente ao sol. Algumas mocinhas puxavam água do rio e Adil perguntou-lhes se conheciam Hainá. Elas pareciam sem graça ao responder. Mas uma delas confessou:
- Hainá mora naquela grande casa ali. Mas cuidado, a casa é habitada pelo...
- Eh! venha logo, venha logo, Rabicha, é hora de voltar para casa! - diziam as amigas.
Adil desconfiava que a casa fosse habitada pelo ogro. Tinha ,portanto, de ser muito prudente e utilizar a sua Esperteza. Pediu a uma galinha que penetrasse na casa, amarrasse a seus pés um fio tecido por Hainá e voltasse, saindo de lá correndo. A galinha logo aceitou. Um pouco mais tarde, Adil percebeu  a galinha com o fio de seda nos pés, escapando, correndo da casa, e para sua maior felicidade, vinha atrás a perseguindo a bela Hainá procurando evitar que a ave fugisse.
Hainá estava toda feliz de reencontrar Adil e logo lhe pediu:
- Adil, Adil, vá embora, por favor, esconda-se. O ogro vai voltar para casa e sentir seu cheiro, encontrá-lo e comê-lo. Espere à noite na beira da floresta, vou tentar fugir. À meia-noite, entre devagar pela porta que vou deixar entreaberta e venha me ajudar a escapar. Sobretudo, Adil, não esqueça sua faca bem afiada.
Adil prometeu, olhou mais uma vez para Hainá, e dirigiu-se em direção a uma pequena cabana abandonada, onde pretendia se esconder até meia-noite.
Quando o ogro voltou, no comecinho da noite, ficou farejando por todos os lados.
- Que coisa, que coisa, que coisa, está cheirando a carne fresca!
Hainá, o que é isso?
- Não é nada, mestre ogro. É o cheiro da moça que foi puxar água no rio da cidade.
- Água? Água? Está bom, está bom! Vou dormir. Amanhã tenho muitas crianças para devorar. Venha cá, Hainá!
E o ogro enrolou na sua mão os cabelos longos de Hainá, como fazia todas as noites, para impedi-la de fugir.
Depois caiu no sono acima de um monte de peles com Hainá aprisionada ao seu lado.
À meia-noite, Adil entrou devagarinho pela porta entreaberta. Logo percebeu o ogro e Hainá com os seus longos cabelos enrolados na mão peluda do ogro. De uma facada só Adil cortou os cabelos de Hainá , que a mantinham presa. Hainá se levantou, mas, no mesmo instante, primeiro baixinho, logo cada vez com mais força, os pratos e as xícaras da sala começaram a circular com barulho e a gritar:
- Hainá vai fugir com seu primo! Ei! você que está dormindo, acorde!
Um xícara logo continuou:
- Ei! você que está dormindo, acorde! Hainá vai fugir com seu primo!
Logo Hainá entendeu que a louça estava alertando o ogro. Abriu um saco de sal e o espalhou em tudo, até em cima dos utensílios. Subitamente todos se calaram. Enquanto isso, o ogro não parou um instante de roncar. Hainá e Adil fugiram correndo. No fundo da cozinha um dos utensílios não recebeu salo, era o pilão. Ele logo tomou conta de avisar o ogro:
- Ei! você que está dormindo, acorde! Hainá caba de fugir com seu namorado, Adil!
- Hum! Hum! Hainá, onde você está?
- Ela foi embora. Ela foi embora!.
Com uma raiva negra, o ogro se levantou, montou em seu cavalo e galopou atrás dos fugitivos.
Quando Hainá ouviu de longe o ogro chegando, puxou Adil para trás de uma árvore plantada ao longo do caminho e, com muita coragem, no momento em que o ogro passou diante da árvore galopando, lhe jogou um punhado grande de sal na cara. Com um grito espantoso, ogro e cavalo desapareceram num instante.
Na calma da floresta apaziguada, Hainá e Adil seguiram tranquilamente  seu caminho. Foram reencontrar sua aldeia, seus parentes e amigos. Sabemos também que não irão demorar para se casar. Deixemo-los lá e voltemos para cá.

Bonaventure, Jette - Variações sobre o tema mulher - São Paulo: Paulus, 2000- (Amor e psique)



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