terça-feira, 29 de novembro de 2011

Oxum fica pobre por amor a Xangô

Há alguns anos fiz um curso com Ronilda Yakemi Ribeiro sobre Mitologia Iorubá. Fiquei encantada com a riqueza das histórias e com uma cosmogonia muito bem elaborada. Claramente fiquei fascinada pela iabás, as orixás femininas. Outro dia alguém me perguntou porque tinha uma flagrante predileção pelo pequeno conto a seguir e eu respondi que para mim, aprender a amar profundamente inclui despir-se dos artifícios da conquista e dos jogos de poder. Assim aprendeu Oxum...










Oxum fica pobre por amor a Xangô

Oxum era conhecida como a amante ardorosa.
Tinha um corpo belo, de formas finas. 
Sua cintura deixava-se abraçar por um único braço.
Por muitas noites Oxum teve em seu leito amantes
aos quais propiciava momentos de raro prazer.
Oxum teve muitos amores,
de quem ganhou presentes preciosíssimos.
Oxum era rica. Tinha joias, ouro, prata,
vestidos maravilhosos, batas que causavam inveja,
e mais, pentes de marfim, espelhos de madrepérola
e tantos berloques e panos-da-costa.


Um dia chegou à aldeia um jovem tocador de tambor.
Era Xangô, um belo homem,
que desde logo atraiu o desejo de Oxum.
Inescrupulosamente, ofereceu-se a ele.
mas foi prontamente rejeitada.
Usando de todos os artifícios,
Oxum foi se aproximando de Xangô,
até que um dia ele a tomou numa calorosa relação sexual.
Mesmo assim Xangô não deixou de humilhar
e desdenhar a linda jovem.


Tempos depois,
a fama e a fortuna de Xangô lhe fugiram das mãos
e ele se viu empobrecido e esquecido
ainda que continuasse a ser excelente alabê.
Envergonhado, ele fugiu dali.
Foi viver longe do lugar e longe do som dos atabaques.
Mas continuava o glutão de sempre,
a viver com conforto e prazeres.
Oxum seguiu sendo sua amante e o consolou,
sacrificando por ele tudo o que tinha.
De tudo de seu dispôs Oxum, para o conforto de Xangô.
Primeiro as joias,depois os vestidos, as batas,
depois os pentes, os espelhos, de tudo foi se desfazendo Oxum.
Restou-lhe nada mais que seu vestido branco.
De tudo de seu desfez-se Oxum pelo amor de Xangô.
Restou a Oxum apenas um vestido branco
Que era tudo o que tinha para vestir.
Mas todo dia no rio lavava Oxum a veste branca.
De tanto lavar a única peça que lhe restara, 
a roupa branca tornou-se amarela.
Desde esse dia, Xangô amou Oxum.

Prandi, Reginaldo- Mitologia do Orixás- São Paulo, Companhia da Letras, 2001.

Imagem: Sá Cortes

Nasrudin e seu varal

Mais uma história engraçada de nosso querido Nasrudin....


O VARAL

Um vizinho bateu à porta do Nasrudin e pediu:

- Nasrudin, você me empresta seu varal? O de lá de casa quebrou.

- Um momento, disse Nasrudin - vou perguntar à minha mulher.

Momentos depois Nasrudin voltou e disse para o vizinho:

- Desculpe vizinho, mas não vou poder emprestar o varal. Minha mulher está secando farinha nele.

O vizinho, surpreso, exclamou:

- Mas Nasrudin, secando farinha no varal??!!

E Nasrudin respondeu:

É... quando não se quer emprestar o varal, até farinha se seca nele...

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A janela de Adélia

Poesia sempre me comove, me transpassa, me faz ir mais longe e bem perto... Poesia em tudo até na tramela de uma janela. Adélia faz assim: trevinhos, passarinhos, peixes para limpar, excrementos... Pretextos para saltar para este mundo transfigurado da poesia.


Janela

Janela, palavra linda.
Janela é o bater das asas da borboleta amarela.
Abre pra fora as duas folhas de madeira-à-toa pintada,
janela jeca, de azul.
Eu pulo você pra dentro e pre fora, monto a cavalo em você,
meu pé esbarra no chão.
Janela sobre o mundo aberta, por onde vi
o casamento de Anita esperando neném, a mãe
do Pedro Cisterna urinando na chuva, por onde vi
meu bem chegar de bicicleta e dizer a meu pai:
minha intenções com sua filha são as melhores possíveis.
Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão,
claraboia na minha alma,
olho no meu coração.

Prado, Adélia - Poesia Reunida - São Paulo, Siciliano, 1991

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A joia preciosa

Ontem eu e minha querida amiga, Bia del Picchia, fomos a um Encontro aberto com o Sheik Sufi Ismail Çimen, onde ele falou a respeito do sufismo, executou músicas místicas sufis e conduziu um dhiker, repetição dos nomes de Deus. Experiência interessante e tocante para mim, que há anos conto histórias desta tradição. Histórias que trazem ensinamentos de um caminho sagrado de busca do encontro com o Sublime. Ouvir este homem tão doce falar de assuntos profundos com tanta simplicidade me fez lembrar desta história em especial, cuja mensagem traz à memória outro mestre que sempre diz: " Prabhu Ap Jago!" Acordem!

A Joia preciosa

Num longínquo reino de perfeição, um rei poderoso e justo tinha uma esposa e duas crianças maravilhosas, um filho e uma filha.
E todos viviam em grande felicidade.
Um dia o pai chamou os filhos para junto de si e lhes disse:
- Chegou para vocês, como chega para todos, o momento em que deverão partir em direção a um outro mundo, a uma distância infinita. Lá vocês irão procurar uma joia preciosa, e assim que a encontrarem voltarão, trazendo-a com vocês.
 Cercados de grande segredo, os viajantes foram levados a uma nova e estranha terra onde quase todos os habitantes viviam na obscuridade e na noite de seu sono.
 O choque foi tão grande que o irmão e a irmã se separaram, perderam progressivamente o contato entre eles,e logo esqueceram tudo sobre sua origem.
Como os demais habitantes daquele país, eles iam de um lado para o outro, dormindo profundamente.
De tempos em tempos, sonolentos, viam sombras, miragens distantes do país de onde tinham vindo, ou então sonhavam com uma joia.
Mas na condição em que se encontravam eram incapazes de lembra-se da realidade, e pouco a pouco foram tomando os sonhos por ilusões.
Quando o rei tomou conhecimento disso, considerou a difícil situação em que seus filhos se encontravam e decidiu mandar um servidor de confiança para ajudá-los.
Este era um sábio e levou-lhes uma mensagem:
"Lembrem-se da missão de vocês; acordem do sono em que submergiram e  fiquem unidos."
Logo que ouviram a mensagem as duas crianças acordaram.
Graças à ajuda do guia enviado para libertá-las, elas puderam vencer os grandes perigos que ainda as separavam da joia preciosa.
Quando a encontraram as crianças voltaram para o reino da luz.
E lá foram mais felizes do que antes, e para sempre.


Histórias da Tradição Sufi- Rio de Janeiro: Edições Dervish- Instituto Tarika, 1993

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

E se...

E se naquela noite de festa fria de festa junina, ela tivesse perdido o pudor e o medo e  confessado que o amava...
E se no dia em que resvalou para a morte, ele pedisse a Deus que gostaria de revê-la e dizer tudo o que sentira por tanto tempo ...
E se Deus resolvesse atender este pedido e inesperadamente se esbarrassem distraídos a contemplar o verde turvo do amplo rio...
E se, como ele num arrombo de desejo propôs, fugissem para Londres e se amassem até suas forças se esgotarem, mitigando anos de fome de carne...
E se hoje neste portal entreaberto resolvessem que é absolutamente imprescindível dar espaço à loucura...
E se...
Responderia ele: Se minha avó usasse rodas seria ela um triciclo!

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Gota d'água

Estavam ali, mais uma vez, sentados. Comiam quase em silêncio. Silêncio que lentamente se instalara entre eles. De quando em quando ele passava a discorrer sobre os assuntos de sempre, assuntos dele. Inesperadamente ela ergueu os olhos cansados do prato, olhou fixamente para ele e disparou comovida:  "Existe coisa mais triste do que um grande amor agonizando?" Ele, sem pressa alguma, olhou para as mesas vazias ao redor como que se procurasse o motivo da pergunta. 
Fitando, enfim, o infinito começou a tecer suas velhas teorias sobre relacionamentos: sobre como as coisas pioraram desde que as mulheres abandonaram sua essência, sobre a inequívoca necessidade masculina de uma poligamia consentida... Falou, falou e falou. Ela, apenas ouvia, soltando suspiros aqui e ali, exaurida até os ossos com aquela lenga lenga. Uma coisa, porém, era certa: ele sempre se mostrara assim, desde aquele longínquo e luminoso dia de outono em que se conheceram. Era, sobretudo, um teórico, cheio de teorias em que acreditava,mas nem se dava conta que não vivia em absoluto.
Ela de nada se arrependia:  muito havia aprendido com este amor que sentira.  Aquela longa explanação dele, entretanto, acabou por desligar os aparelhos de seu amor moribundo. Percebeu que não mais haveria sobressaltos, expectativas, nem desilusões. Apenas uma infinita e tediosa linha de mesmices. Chorou uma lágrima solitária pelo fim, levantou-se e partiu sem nenhuma necessidade de olhar pra trás.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O rabino sábio

A busca espiritual não é uma empreitada das mais tranquilas. Conhecimentos adquiridos, em qualquer tradição, apenas intelectualmente podem transformar-se em mero instrumento de poder. Segue uma pequenina história que ilustra bem este equívoco.



Um jovem acabara de completar seu treinamento espiritual e estava ansioso para tornar-se mestre. Mudou-se para uma nova cidade, onde tentou ensinar. Mas ninguém aparecia para ouvi-lo. O único movimento espiritual da cidade parecia ser os muitos seguidores de um rabino de um rabino sábio e bem conhecido. Frustrado, o jovem concebeu um plano para desmoralizar o velho mestre e obter alunos para si.  Capturou um pequeno pássaro e foi até onde o mestre ensinava, rodeado de seus discípulos. Segurando o pequeno pássaro na mão, dirigiu-se diretamente ao mestre.
- Se  és tão sábio, diz-me agora: este pássaro em minhas mão está vivo ou morto?
Seu plano era o seguinte: se o mestre dissesse que o pássaro estava morto, ele abriria as mãos, o pássaro sairia voando, o erro do mestre ficaria patente e os alunos deixariam de procurá-lo; se o mestre dissesse que o pássaro estava vivo, ele rapidamente o esmagaria nas mãos e, abrindo-as, diria: " Veja, o pássaro está morto". Novamente o mestre se revelaria equivocado e o jovem obteria seus alunos.
O jovem, confiante em si, sentou-se diante do mestre exigindo uma resposta.
- Se és tão sábio, diz-me agora: este pássaro em minhas mão está vivo ou morto?
O mestre olhou para ele com grande compaixão e disse apenas:
- Realmente, meu amigo, isto depende de você.


Histórias da alma; Histórias do coração: parábolas e narrativas do caminho espiritual e na contemporaneidade. São Paulo, Pioneira, 1994.
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