sábado, 26 de março de 2011

Elsa e Fred


Ela, uma senhora não tão responsável, que como quase todas as mulheres mente a idade. Ele, um viúvo circunspecto e meio hipocondríaco, que venera a foto de sua esposa morta. Encontram-se em circunstâncias antagônicas. Ela havia batido no carro de sua filha e ameaçado o pequeno neto de morte se contasse o ocorrido. Com muito bom humor.
Assim começa um dos filmes mais tocantes que já vi. "Elsa e Fred - Um amor de Paixão". Numa idade em que esperamos que o amor não tenha lugar, em meio à doenças reais e imaginárias, nossa Elsa, intensa e atrevida, assedia o seu vizinho viúvo até que aos poucos ele se contagia pela vivacidade dela. Alfredo, um senhor tão correto, passa a ter atitudes estranhas aos olhos da filha e até aos seus próprios. A paixão vai chegando sorrateira e o ápice do filme é a viagem à Roma para reviverem as cenas da Fontana de Trevi entre Anita Ekberg, com que Elsa dizia parecer em sua juventude, e Marcello Mastroianni. Até um gato ele tem que conseguir para compor o cenário.
Belo e repassado de poesia, este filme sempre me lembra que deixar-se tocar pela vida e ser apaixonado por ela não necessariamente é coisa exclusiva para jovens...

sexta-feira, 25 de março de 2011

Passeio no parque


Caminhavam juntos de mãos dadas pelo parque. Dia comum entre tantos outros. Ele, do nada, lhe perguntou sobre algo do passado. Os olhos dela encheram-se de lágrimas e confessou nunca ter esquecido seu primeiro amor. Atônito, diante da verdade que pressentia por entre os suspiros, ele descontrolou-se. Nunca havia esperado isto da mulher que há tanto amava. E, afinal, quem era o tal sujeito perdido no tempo.Ela confundia-se toda ao explicar. Era um que havia avistado numa festa na adolescência... Namoraram? Não! Beijaram-se? Não! Apenas dançaram coladinhos uma daquelas baladas antigas. Mas ela tinha se enamorado dele perdidamente. Como? Não sabia dizer...
Ele, um tanto aliviado, continuou seu caminho com ela, certo de que tinha como rival o sonho.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Uma história para se pensar...






Quinta-feira, como sabemos é dia de história. Para que servem elas? Em todas as tradições as histórias são contadas para reflexão e transformação de quem conta e de quem as ouve. Nas psicoterapias podem ser um poderoso aliado, uma vez que todo o processo é tecido através das histórias contadas e recontadas pelo paciente. O psicoterapeuta pode trazer aqui e ali ampliações e clarificações através de símbolos, mitos e contos. Encontrei há tempos um livro de Nossrat Peseschkian que fala exatamente das possibilidades das histórias como ferramentas no trabalho terapêutico. São contos orientais milenares que contém ensinamentos sábios e profundos.
Aqui vai a minha predileta:

O misticismo persa conta a respeito de um andarilho que caminhava penosamente ao longo de uma estrada que parecia interminavelmente longa. Ele estava oprimido por fardos de todo tipo. Um pesado saco de areia pendurado nas costas; uma grossa mangueira cheia de água enrolada em seu corpo. Em sua mão direita, levava uma pedra de formato irregular, na esquerda, um matacão. Em volta do pescoço, uma antiga pedra de moinho balançava amarrada por uma corda gasta. Correntes enferrujadas com as quais arrastava grandes pesos pela areia empoeirada estavam enroladas em seus tornozelos. Sobre a cabeça, o homem equilibrava uma abóbora meio podre. A cada passo que dava as correntes retiniam.Com queixumes e gemidos ele avançava passo a passo, maldizendo sua má sorte e a fadiga que o atormentavam. Um fazendeiro encontrou-se com ele no caminho, sob o escaldante calor do meio dia> perguntou o fazendeiro: " Ó. exausto andarilho, porque carregas contigo este matacão?". " Que terrível pateta," respondeu o andarilho, "mas eu não havia reparado nele antes!" Dito isso, jogou fora a pedra e sentiu-se muito mais leve.
Novamente, depois de ter percorrido um longo trecho da estrada, outro fazendeiro encontrou-se com ele e perguntou: "Dize-me, cansado viajante, por que te atormentas com uma abóbora quase podre na cabeça e por que arrastas atrás de ti aquelas pesadas bolas de ferro presas por guilhões?".
O andarilho contestou: " Estou muito grato por tu me teres feito perceber. Eu não me havia dado conta do que estava fazendo a mim mesmo." Assim, retirou as correntes e arrebentou a abóbora na valeta que margeava a estrada.Outra vez , sentiu-se aliviado. Porém, quanto mais caminhava, mais voltava a sofrer.
Outro fazendeiro, saindo do campo, observou-o com espanto e disse: "Ó, meu bom homem! Tu carregas areia no saco, mas o que teus olhos podem ver até o horizonte é mais areia do que tu poderias jamais carregar. E essa tua enorme mangueira cheia d'água - parece que desejas atravessar o deserto de Kanvir! A todo momento encontrarás correndo ao teu lado uma vertente límpida que te acompanhará por um longo percurso". Ao escutar isso, o viajante rompeu a mangueira e derramou sua água salobra sobre o caminho. Depois, cobriu um buraco com a areia de sua mochila. então permaneceu ali, pensativo, Enquanto observava o sol poente. Os últimos raios emitiam sobre ele sua luz. Ele então lançou os olhos sobre si próprio e, reparando na pesada pedra de moinho pendurada em seu pescoço, subitamente percebeu ser ela que o fazia andar assim tão curvado. Desvencilhou-se da pedra e a jogou tão longe quanto pôde dentro do rio. Liberto de suas cargas, perambulou adiante, no fresco entardecer, em busca de alojamento.

Peseschkian, Nossrat - " O mercador e o papagaio: Histórias orientais como ferramenta em psicoterapia" Campinas, SP; Papirus, 1992

quarta-feira, 23 de março de 2011

Bast, a protetora dos gatos


Sempre que manifesto meu grande amor pelos felinos, em especial pelos gatos por uma simples questão de tamanho, ouço uma série de comentários dizendo como estes bichos são arredios e não muito carinhosos. Muitas vezes me contam a velha piada de que se você alimentar um cão ele lhe verá como um deus e o seguirá, ao passo que ao alimentar um gato, ele terá a confirmação de que ele sim é um deus. Quanto à falta de carinho dos gatos pelos donos posso dizer que é intriga da oposição. Já sobre a divindade...
Há alguns milênios quando a civilização egípcia floresceu eles já tinham o conhecimento de que ratos poderiam destruir as reservas de alimento e transmitir doenças. Para protegê-los eles tinham uma divindade, a filha do deus Rá, o Sol. Seu nome era Bast, uma bela mulher com cabeça de gato. Tornou-se uma das deusas mais cultuada no Egito, sendo suplantada apenas por Ísis.
Conhecida como poderosa e selvagem protegia os animais que a representavam, bem como aqueles que os amavam. Sua ira porém deveria ser evitada pois era vista como a vingança de seu pai.
Era a deusa do Sol nascente, da iluminação e da verdade. Também vista como a protetora dos lares e doadora da fertilidade e abundância. Uma das formas de venerá-la era reverenciar seus animais totêmicos e portanto os gatos eram literalmente tratados como deuses. Talvez seja esta a memória que carreguem como espécie.Pena que Bast por vezes não castigue como antigamente aqueles que lhes causam mal...






terça-feira, 22 de março de 2011

Canção de Morgana


Há que se buscar a canção
Que ilumine os recantos mais escondidos
Que abra caminhos nas brumas
Que desperte as vísceras e
Acorde as serpentes

segunda-feira, 21 de março de 2011

Quando Perséfone visita a Bela Adormecida


DIÁLOGOS FEMININOS
" a grande e interminável conversa de mulheres sustenta o mundo em sua órbita...se não se falassem as mulheres umas às outras, os homens já teriam perdido o sentido da casa e do planeta"
José Saramago
Retomando nossa jornada nos Diálogos Femininos decidimos revisitar algumas das deusas e princesas que trazem à luz o cerne daquilo que acreditamos necessário para mudar o mundo. O nosso mundo.
Através da troca de histórias e experiências buscamos traçar juntas um mapa para que ampliemos nossas possibilidades de compreensão e consciência de uma vida mais plena. O primeiro dos encontros será:

Quando Perséfone visita a Bela Adormecida

Uma deusa sombria encontra uma jovem princesa. Parecem conversar no mundo dos sonhos. Mítico e simbólico. Em que medida esta conversa pode afetar nossas vidas e transformá-las? O que Perséfone e as duas Belas Adormecidas (são duas!!!) tem a nos dizer hoje, mulheres desse século XXI?
Esse Encontro se dará no dia 16 de abril das 9:30 às 13:30.
Local: Rua Delfina, 74 - Vila Madalena
Custo: R$ 120,00
Maiores informações - 3082 6394/8382 6222 ou pelo email
É NECESSÁRIO CONFIRMAR PRESENÇA ATÉ O DIA 13 DE ABRIL

COORDENADORAS
Cassia Simone: psicoterapeuta de orientação junguiana, contadora de hisstórias, coordenadora de círculo de mulheres e estudiosa de mitologia e questões do feminino
Cris Balieiro: psicoterapeuta de orientação junguiana, coordenadora de círculo de mulheres e estudiosa de mitologia e questões do feminino e autora do livro O FEMININO E O SAGRADO - Mulheres na Jornada do Herói (Edit. Ágora, 2010)

E apareceu um sapo...


Existe um personagem sorrateiro que do nada salta para dentro das histórias: o sapo. Criatura um tanto repelente e gosmenta que provoca sustos e comoções. Creio que é difícil ficar indiferente. Para a mãe da Bela Adormecida surge da banheira para anunciar o nascimento da filha tão esperada. Pode ser um príncipe enfeitiçado que precisa de beijo para retornar a forma...Pode aparecer escondidinho e só a observar com seus grandes olhos..
A simbologia deste animal é extensa e as interpretações múltiplas. Dizem que é o animal da Lua, dizem que é sinal de fertilidade, dizem que representam a morte e a ressurreição. Eu, particularmente gosto de ressaltar o aspecto "melequento" da coisa. O lado não antisséptico da vida e das relações. Sempre que nos deparamos com um sapo na vida temos um certo "nojinho".
A cada vez que entramos em alguma relação temos grandes expectativas a respeito dela. Queremos que tudo seja apenas bom e satisfaça nossas necessidades. Não conseguimos lidar com as imperfeições do outro, qualquer que seja este outro, e também não toleramos nossa falhas e dificuldades. A vida não é antisséptica, não é politicamente correta. É o que é. Cheia de pequenas e grandes sujeiras.
Se refletirmos nas eternas reclamações femininas a respeito dos príncipes que viraram sapos é só lembrar o que esperamos minimamente de um príncipe. Que ele seja totalmente dedicado a nós como nem nossa mães foram quando éramos bebês...Isto só pode acabar mal. As frustrações e decepções chegarão logo. Beijar um sapo é aceitar todas as imperfeições que as relações nos trazem e não, o que tentamos vida afora, transformar as pessoas com quem nos relacionamos para que encaixem nos nossos modelos de perfeição.
Tarefa difícil conviver com os sapos sem entretanto partir para o outro oposto e passar a engolir todos como se tivéssemos que aceitar tudo. Eterna busca de retirar as projeções e desejos infantis e a partir daí começar a compreender e acessar os anseios profundos da alma.
Não há como fugir, neste exato momento um sapo pode estar a te espreitar...


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...