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sábado, 30 de dezembro de 2017
Fim
Estranho amor é aquele que acaba
A música ainda toca mas não nos toca mais
Os olhos perdem o inusitado
A chegada perde a alegria
A partida, o suspiro
Ele se esvai nos silêncios, nos descuidos, nas demoras...
Quando passa nada resta nos territórios da alma
Continentes e Oceanos vazios de desejos
Não mais dores, não mais esperas
Apenas a indiferença e a paz dos desiludidos.
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
Quatro elementos
Ela ,ainda quase menina , apaixonara-se pelo marinheiro, descendente dos
reis do mar. Em seus olhos verdes mergulhava feliz. Ele, como bom
marinheiro que era, a deixou a ver navios.
Desiludida, caminhou pelos mundos até que encontrou o Senhor das Florestas e das profundezas da terra. Perdida de amor ficou. Mas a terra, esta ciumenta, um dia o tomou para si.
Inconsolável, buscou abrigo nos braços de um sacerdote do Deus dos Ventos. Parecia tranquila e feliz, até que por ali passou o Grande Circo. Não conseguiu resistir aos saltos destemidos do trapezista. Com ele fugiu.
Dizem que hoje cospe fogo como ninguém. Tornou-se, enfim, mulher-dragão.
Desiludida, caminhou pelos mundos até que encontrou o Senhor das Florestas e das profundezas da terra. Perdida de amor ficou. Mas a terra, esta ciumenta, um dia o tomou para si.
Inconsolável, buscou abrigo nos braços de um sacerdote do Deus dos Ventos. Parecia tranquila e feliz, até que por ali passou o Grande Circo. Não conseguiu resistir aos saltos destemidos do trapezista. Com ele fugiu.
Dizem que hoje cospe fogo como ninguém. Tornou-se, enfim, mulher-dragão.
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| Foto por Miriam Cardoso de Souza |
sexta-feira, 13 de julho de 2012
Desilusão
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Naufrágio
Há tempos ela vinha ficando quieta, silenciosa, muda. Espreitava atenta os ruídos do pirata que habitava seu coração. Não saberia dizer quando lá ele se instalara, mas o certo é que causava trepidações em seu corpo e mudanças bruscas de temperatura. Depois de muito refletir resolveu que esperaria alguma comunicação, algum pedido de resgate. Nada. Aconteciam festins após festins; tesouros e despojos sendo tomados todos os dias. E o rum corria solto. Descontrolada e totalmente entregue não viu alternativa senão afundar o navio. Abriu vários buracos no casco enquanto o pirata dormia. Sentiu a água avançar barco acima.
Acordou falante e completamente curada da paixão insana. Nunca mais ouviu o mar...
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Já vi este filme II - Pigmalião 2012
Quando ele a conheceu encantou-se com seu sorriso fácil e com seu decote generoso. Ela, de imediato,percebeu que causava uma comoção especial naquele deus. Ele a cortejou com todas as gentilezas e elogios necessários. Ela seduziu e se deixou seduzir. Começaram um relacionamento meio sem rótulos e sutilmente ele passou a sugerir que ela não fosse tão exuberante assim. Não ficava bem. Apesar de um certo mal estar, ela consentiu. Logo ele pediu que não usasse mais aquelas blusas despudoradas, nem aqueles pequenos pedaços de pano que ela insistia em chamar de saia. Ficaria bem de tênis, camiseta e jeans. Assim ela se fez. Depois resolveu fazer uma limpa nos amigos e amigas. Deveria ser mais seletiva e por favor, aprender a se comportar como uma dama. Nada de cervejinhas e afins. Passou a lhe indicar os clássicos para que ela se instruísse. Deveria também apurar um pouco o gosto musical e gastronômico. Ela, que jamais esperara ser companheira de alguém tão magnificamente poderoso e sábio, a tudo atendia e lentamente foi se transformando no ideal que ele lhe propunha. Mudou de amigos, de gostos. Deixou de lado a família, entrou num curso de enologia, parou de comer pasteis de feira e começou o Pilates. Ele nunca chegou a ficar plenamente satisfeito. Sempre que ela cumpria uma exigência, ele sacava outra . Certo dia ela se deparou um tanto apagada, apropriadamente sem luz ou cor. Estranhamente nesse dia ele lhe disse que ela nunca teria jeito e foi se encontrar com outra Galatéia.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Apenas bons amigos
Eram apenas bons amigos. Conheciam-se há tempos, trocavam confidências, falavam sobre tudo e nada. Cada um com seu caminho. Cada um com seu amor. Nenhum dos dois sabe explicar o que aconteceu naquela tarde chuvosa, apenas um esbarrão, um toque quase banal e fez-se o inesperado anseio. Urgente como só um desejo subcutâneo pode ser. Amaram-se ávidos e surpresos. Um universo se desvelando nas reentrâncias dos corpos. Levantaram-se transfigurados e voltaram para suas vidas de sempre. Sobre tal acontecimento ninguém mais falou . Assim seguem. Apenas bons amigos.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Sereia seria...
Ela, uma sereia meio encantada, que tinha sido tirada do mar muito cedo. Sabia que não pertencia a este mundo sólido. Ansiava por voltar às profundezas.
Ele, marinheiro de linhagem de marinheiros, navegava desde o ventre da mãe. Corria-lhe o mar salgado nas veias.
Encontraram-se por um acaso do destino numa praça da cidade. Estranharam-se pressentindo uma ligação de outros tempos.
Ela nem precisou cantar e ele já caíra de amores. Precisava dela como das verdes águas.
Ela relutou, ele iria certamente prendê-la num cativeiro cativante...
Amaram-se sem esperanças ou previsões.
Ele, enfim, conseguiu um navio todo seu, casou-se com a princesa, seguiu sonhos de glória.
Ela sofreu um tanto até chegar ao oceano ansiado onde mergulhou e maravilhada se lembrou.
Ele, marinheiro de linhagem de marinheiros, navegava desde o ventre da mãe. Corria-lhe o mar salgado nas veias.
Encontraram-se por um acaso do destino numa praça da cidade. Estranharam-se pressentindo uma ligação de outros tempos.
Ela nem precisou cantar e ele já caíra de amores. Precisava dela como das verdes águas.
Ela relutou, ele iria certamente prendê-la num cativeiro cativante...
Amaram-se sem esperanças ou previsões.
Ele, enfim, conseguiu um navio todo seu, casou-se com a princesa, seguiu sonhos de glória.
Ela sofreu um tanto até chegar ao oceano ansiado onde mergulhou e maravilhada se lembrou.
sábado, 3 de dezembro de 2011
Unhas vermelhas
Naquele vagão há séculos, ele quase beirava o desespero. Ela surgiu abrindo caminho por entre as gentes. Dela bastou ver aqueles dedos compridos, aquelas unhas cor de sangue. Poderia ficar ali pela eternidade...
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
Homem e mulher...
Ela vinha de muito longe. Ela vinha de muito perto. Incorpórea visão. Volátil perfume. Misto de sonhos, ilusões, anseios. Pairava sobre si mesma. Nos olhos trazia a impossibilidade de ser, a dor na ferida aberta em seu peito. Escondia-se nas meigas falas e nos velozes pensamentos. Comprazia-se em se fazer rejeitar. Desejava, desejava e desejava. Recebia, porém, alimento para devaneios. Era venerada, admirada, musa de cavaleiros temporãos. Sentia-se menor, limitada, aquém de seu verdadeiro ser.
Ele já estava lá. Conhecia-o há tempos. Belo, desejável. Ela já o havia transformado em matéria de sonhos. Diluía seus olhares. Explicava seus abraços mais apertados:era carinhoso assim mesmo... Fazia sua habitual cara de paisagem.
Chegou, enfim, um dia. O dia em que ele a quis por sobre a névoa. Seu desejo e determinação foram tamanhos que ignorou por completo as tentativas de fuga, as desculpas, os desvios. O momento era chegado: agora ou nunca! Ele a queria e era pra já. Ela ainda tentou se esconder atrás da velha e boa histórias que a consumia, que exauria suas forças e sua alegria. História para boi dormir. Tentou fugir mais uma vez da vida, do ser, de seu corpo que pedia... Ele, bendito seja, não deixou. Seus olhos, suas mãos, não se afastaram dela. Seu respirar, seu transparente e inequívoco desejo.
Encontraram-se por fim, corpo e alma; ação e desejo. Bocas, peles, sexos. Ela, como que em sonho flutuava por sobre a cena, sem acreditar. Era real, enfim acontecera. Ele, nu, magnífico a tocava, cheirava, mordia, lambia, penetrava seus espaços. Era bom! Ah! Era muito bom mesmo! Amaram-se com urgência. Conversaram também. Ele, gentil, lhe contou carinhosamente a história que só se conta às quintas-feiras. Ela sorria feliz contemplando o reflexo de seus corpos. Não havia vergonha, não havia orgulho.
Amaram-se mais uma vez, com calma, com delicadezas. Foi bom! Muito, muito bom! Era momento de ir, de se deixarem partir. Ela, inteira mulher. Ele, todo homem. Guardados um nas reentrâncias do outro, misturados na fantasia que se fez carne. Apaixonados por si mesmos através do encontro. Um. Uma. Viventes. Visitados por Afrodite e Dioniso.
Imagem: Vigeland , Man and Woman
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
E se...
E se naquela noite de festa fria de festa junina, ela tivesse perdido o pudor e o medo e confessado que o amava...
E se no dia em que resvalou para a morte, ele pedisse a Deus que gostaria de revê-la e dizer tudo o que sentira por tanto tempo ...
E se Deus resolvesse atender este pedido e inesperadamente se esbarrassem distraídos a contemplar o verde turvo do amplo rio...
E se, como ele num arrombo de desejo propôs, fugissem para Londres e se amassem até suas forças se esgotarem, mitigando anos de fome de carne...
E se hoje neste portal entreaberto resolvessem que é absolutamente imprescindível dar espaço à loucura...
E se...
Responderia ele: Se minha avó usasse rodas seria ela um triciclo!
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Gota d'água
Estavam ali, mais uma vez, sentados. Comiam quase em silêncio. Silêncio que lentamente se instalara entre eles. De quando em quando ele passava a discorrer sobre os assuntos de sempre, assuntos dele. Inesperadamente ela ergueu os olhos cansados do prato, olhou fixamente para ele e disparou comovida: "Existe coisa mais triste do que um grande amor agonizando?" Ele, sem pressa alguma, olhou para as mesas vazias ao redor como que se procurasse o motivo da pergunta.
Fitando, enfim, o infinito começou a tecer suas velhas teorias sobre relacionamentos: sobre como as coisas pioraram desde que as mulheres abandonaram sua essência, sobre a inequívoca necessidade masculina de uma poligamia consentida... Falou, falou e falou. Ela, apenas ouvia, soltando suspiros aqui e ali, exaurida até os ossos com aquela lenga lenga. Uma coisa, porém, era certa: ele sempre se mostrara assim, desde aquele longínquo e luminoso dia de outono em que se conheceram. Era, sobretudo, um teórico, cheio de teorias em que acreditava,mas nem se dava conta que não vivia em absoluto.
Ela de nada se arrependia: muito havia aprendido com este amor que sentira. Aquela longa explanação dele, entretanto, acabou por desligar os aparelhos de seu amor moribundo. Percebeu que não mais haveria sobressaltos, expectativas, nem desilusões. Apenas uma infinita e tediosa linha de mesmices. Chorou uma lágrima solitária pelo fim, levantou-se e partiu sem nenhuma necessidade de olhar pra trás.
domingo, 12 de junho de 2011
Se você vier pro que der e vier comigo...
Datas comemorativas podem ser dias especiais. Também podem ser apenas motivo para consumir. Entretanto sempre se ouve que todo dia é dia das Mães, dos Namorados, dos Pais... Todo dia deveria ser da gentileza, do carinho e do cuidado com quem amamos. Mas humanos que somos, nos esquecemos e temos de ser lembrados pelas comemorações da cultura. Presentes à parte, o que faz-se necessário é nossa presença constante e atenta nas relações que criamos.
Em nossos amores todos temos trilhas sonoras, canções que nos remetem imediatamente a sentimentos adormecidos, ou muito vivos dentro de nós. Hoje acordei com uma, de um compositor de rara sensibilidade, que para mim, é um convite à aventura que é amar e se deixar amar. Neste dia dos Namorados faz bem lembrar...
Dia Branco
Composição : Geraldo Azevedo/ Renato Rocha
Se você vier
Pro que der e vier
Comigo...
Pro que der e vier
Comigo...
Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva...
Se hoje o sol sair
Ou a chuva...
Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar...
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar...
Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto
Esse canto de amor
Oh! oh! oh...
Se branco ele for
Esse tanto
Esse canto de amor
Oh! oh! oh...
Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo
Pro que der e vier
Comigo
Se você vier
Pro que der e vier
Comigo...
Pro que der e vier
Comigo...
Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva...
Se a chuva cair
Se hoje o sol sair
Ou a chuva...
Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar...
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar...
E nesse dia branco
Se branco ele for
Esse canto
Esse tão grande amor
Grande amor...
Se branco ele for
Esse canto
Esse tão grande amor
Grande amor...
Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo
Pro que der e vier
Comigo
Comigo, comigo.
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Já vi este filme....
Ela o conheceu ainda quase menina. Era belo, forte, cheio de um charme irresistível e....Casado. Ele logo percebeu aquela nova possibilidade no pedaço e investiu com tudo. Ela, inexperiente, conheceu a maravilha de ser mulher e amada. Mas...ele era casado. Como todos os casados, sua mulher não o compreendia e nem gostava de sexo, Certo é que milagosamente ela acompanhou de longe os nascimentos dos seus três filhos. " Foi meio sem querer!"
A vida ia passando, assim como os domingos e feriados solitários. Natal nem pensar. De tempo em tempos se cansava, punha um ponto final nisto tudo... Arranjou vários namorados que eram imediatamente deixados assim que o telefone tocava. Chegou a se casar, mas não durou. Não conseguia resistir ao chamado de seu "homem".
Pressionou, chorou, fez ameaças, mas ele nunca poderia deixar a mulher: tinha filhos e que homem de caráter abandona os filhos? Depois que cresceram não conseguia se separar de quem tinha sido companheira por tanto tempo.
Surpreendentemente, um dia depois de trinta anos, chegou a sua casa de mala e cuia. Tinha se decidido enfim. Num primeiro momento, ela nem acreditou. Seu sonho tornara-se realidade. E pesadelo. Vivera tantos anos só de instantes que não conseguia suportar as manias, as idiossincrasias e os roncos. Queria também ser reconhecida em praça pública como a mulher oficial. Brigaram tanto, se desentenderam tanto que ela o convenceu que o melhor mesmo era ele reatar com a ex e assim viveriam amantes para sempre.
A vida ia passando, assim como os domingos e feriados solitários. Natal nem pensar. De tempo em tempos se cansava, punha um ponto final nisto tudo... Arranjou vários namorados que eram imediatamente deixados assim que o telefone tocava. Chegou a se casar, mas não durou. Não conseguia resistir ao chamado de seu "homem".
Pressionou, chorou, fez ameaças, mas ele nunca poderia deixar a mulher: tinha filhos e que homem de caráter abandona os filhos? Depois que cresceram não conseguia se separar de quem tinha sido companheira por tanto tempo.
Surpreendentemente, um dia depois de trinta anos, chegou a sua casa de mala e cuia. Tinha se decidido enfim. Num primeiro momento, ela nem acreditou. Seu sonho tornara-se realidade. E pesadelo. Vivera tantos anos só de instantes que não conseguia suportar as manias, as idiossincrasias e os roncos. Queria também ser reconhecida em praça pública como a mulher oficial. Brigaram tanto, se desentenderam tanto que ela o convenceu que o melhor mesmo era ele reatar com a ex e assim viveriam amantes para sempre.
terça-feira, 3 de maio de 2011
Encontro
Conhecer-te é me aventurar
Por entre estes teus doidos pensamentos,
Nos teus sorrisos me perder,
No teu olhar me aconchegar,
Abraçar tuas falas tão meigas,
Sofrer doces amarguras ao te deixar,
Para de novo te reencontrar lá diante
E recomeçar...
sexta-feira, 29 de abril de 2011
Confissão
Pouco antes de morrer, aos 99 anos, minha avó me contou que sonhara com seu primeiro e, segundo ela, verdadeiro amor. Chamava-se Sebastião, como aquele rei português que desapareceu numa batalha e cuja volta messiânica foi esperada por séculos. Pois minha avó, cuja alma também era portuguesa, me confessou ter amado em silêncio aquele jovem por mais de 80 anos. Digo jovem porque assim ela o descrevia, rememorando cada momento que passaram juntos escondidos de meu bisavô. Fazendeiro rude, não queria ter filhas que pensassem em estudar e muito menos que escolhessem com quem casariam. Assim foi e Ana se casou com Antônio, com ele teve seus filhos, com ele trabalhou arduamente para sustentá-los, sempre o respeitando mas jamais amando. Quando ele morreu numa epidemia de tifo ela já tinha mais de 50 anos e não quis mais casar-se , apesar de por vezes sentir-se solitária. Agora próxima da última travessia sonhava com aquele amor perdido no tempo. Perguntei-lhe se alguma vez tivera alguma notícia dele, ela disse que nunca e que preferia mantê-lo assim, como havia sido, jovem, belo e apaixonado. Sabia que já deveria ter ido embora há muito. Não importava, dentro dela seguia o mesmo, amado até a sua morte.
terça-feira, 19 de abril de 2011
Origem
Houve um dia em que fui sonhada.
Minha mãe, mulher de tantos véus,
Perdida por entre as brumas da morte
Sonhou-me.
Tal sonho penetrou cada espaço de sua vida.
Era triste? Não o sei
Era amada? Dizem
Amava? Intensamente
Esta sua imensa possibilidade de amar,
Este anseio me foi transmitido nas
Gotas de seus fluidos.
Esvaziou-se da vida para parir seu sonho.
Eu, a sonhada.
Eu, o sonho.
Não a compreendi, em absoluto.
Senti o vazio,
Frio abandono em sua partida prematura.
Perscrutava desde cedo seus olhos nas poucas fotos.
Nada via...
Nada percebia...
Teceu-me ela para a vida,
Plena de dores, surpresas e descobertas.
Teceu-me, sobretudo, para o amor
Pelo qual tanto ansiou
Eu, sonho sonhado sonhei
Assim que meus olhinhos se abriram
Olhos velhos de quem espera
Espera o sonho
Por tantos cenários oníricos vivi
Sonâmbula
Incorpórea
Cresci esperando e desesperando
Certo dia, encontrei o sonho,
Não o reconheci de imediato,
Minha alma o sabia,
Tão distante
Tão palpável
Temi.
Por entre a torturante densidade
Do Destino fugi.
Adormeci.
Longo exílio
Anos e mais anos de aridez e desencanto,
Ilusões me prendiam,
Histórias vãs me comoviam.
Eu, perdida do sonho, vaguei
Como uma folha levada pelos ventos.
Mas minha mãe Maya sonhou.
Com a força de seu sonho
Entoou a canção através dos tempos.
Eu, enfim, acordei.
Acordei dentro do sonho,
O sonho para o qual fôra sonhada.
Tão real que todo o meu corpo vibrou
Transpassado pela vida
Estava lá
Sempre e sempre
Maio do que jamais pudera imaginar
Fascinante e belo
Aquele que me fôra reservado no
Pulsante peito da sonhadora:
O Amor!
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Revelação
" Você é perfeita. Mas eu não te amo!", disparou ele à queima roupa no meio de um daqueles almoços de todos os dias. Falou como quem pensa alto e que não necessita de resposta do interlocutor. Ela, acometida por uma dor inesperada, ficou muda. Seu mundo parecia ter sido despedaçado por um ataque atômico. Como??? Passara sua vida inteira buscando ser a melhor possível: a mais amável, a mais inteligente, a mais gentil, a mais desejável, a mais...
Sempre acreditara que seria possível, com certos artifícios conquistar o mundo, inclusive o homem a quem amasse. Para tanto se dispusera a aprender tantas coisas , a procurar ser tantas coisas. Quando tal não acontecia tinha plena certeza de faltava algo nela, e que precisava ainda buscar ser mais e mais. Poderia ser que o próximo vestido, o próximo livro ou o próximo workshop lhe tornasse digna de amor. E ela se esforçava, ninguém poderia negar...
Ele, com a cruel frase de pesadelo, a libertou da terrível ilusão de que para ser amada teria que se superar e alcançar quase a divindade. Segue limitada e imperfeita, aprendendo que amar implica aceitar sua vulnerabilidade tão humana, com uma leveza de quem nada mais precisa, além de ser.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
"Meus olhos se viram no seu olhar"
Ela tinha belos olhos que brilhavam intensamente quando por alguma felicidade repentina.Foi precisamente estes olhos encantados que ao conhecê-la tocaram o coração dele. Se eram brilhantes, para ele surgiram com a força de um novo Sol. Até aquele momento do Encontro sentira-se um tanto insignificante, mas ao ver-se refletido naqueles espelhos límpidos vislumbrou-se Rei e deles se enamorou perdidamente. Ela, por sua vez, sentiu que chegara o momento que tanto esperara para enfim, amar alguém de corpo e alma.
Viveram felizes por uns tempos...
Ele aos poucos se acostumou a ser visto como mais do que se sentia e começou a se imaginar tão grandioso quanto os olhos dela lhe mostravam. Resolveu sair pelo mundo para testar seus novos poderes. Foi tanto trabalho a fazer, tanto atraso, tanto esquecimento, tanta desculpa, tanta desatenção...Voltava sempre para os bons olhos que a tudo pareciam perdoar.
Ela a nada compreendia, esperava dias que não voltavam e chorava, lamentava em silêncio sua solidão cinzenta. Seus olhos ficaram baços, mas sempre ansiavam por aquele que acreditava lhe trariam a antiga luz. Um restinho de brilho era reservado para ele que acabava por voltar necessitado de sua imagem cintilante para continuar suas aventuras.
Certo dia ela percebeu-se com uma vontade imensa de visitar outras terras, de deixá-lo para trás, de não mais esperar por dias que não mais voltariam. Assim fez e seus belos olhos voltaram ávidos a contemplar novos e velhos mundos. Alimentaram-se de belezas e amplidões... Sem se dar por isso retomaram seu esquecido esplendor.
Quando se reencontraram, ele pressentiu que algo havia mudado, não saberia precisar o quê. Um vazio foi se instalando sorrateiro. Era o fim. Ela não mais o olhava com aquele fascínio que o alimentara por tantas aventuras. Partiu só e opaco como sempre havia sido.
Ela, sentada às margens do Sena, toma preguiçosamente seu café e sorri...
sexta-feira, 25 de março de 2011
Passeio no parque

Caminhavam juntos de mãos dadas pelo parque. Dia comum entre tantos outros. Ele, do nada, lhe perguntou sobre algo do passado. Os olhos dela encheram-se de lágrimas e confessou nunca ter esquecido seu primeiro amor. Atônito, diante da verdade que pressentia por entre os suspiros, ele descontrolou-se. Nunca havia esperado isto da mulher que há tanto amava. E, afinal, quem era o tal sujeito perdido no tempo.Ela confundia-se toda ao explicar. Era um que havia avistado numa festa na adolescência... Namoraram? Não! Beijaram-se? Não! Apenas dançaram coladinhos uma daquelas baladas antigas. Mas ela tinha se enamorado dele perdidamente. Como? Não sabia dizer...
Ele, um tanto aliviado, continuou seu caminho com ela, certo de que tinha como rival o sonho.
terça-feira, 15 de março de 2011
Parafraseando...
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