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quarta-feira, 20 de junho de 2012

La Loba

Tem dias em que só uma boa história para te curar uma tristeza ou te tirar da apatia. Esta contada por Clarissa Pínkola é um dos bálsamos mais eficazes que conheço. Traz de volta à vida a fé que se perdeu... Bem vinda seja La Loba!!!





La Loba

Existe uma velha que vive num lugar oculto de que todos sabem, mas que poucos já viram. Como nos contos de fada da Europa oriental, ela parece esperar que cheguem até ali pessoas que se perderam, que estão vagueando ou à procura de algo.
Ela é circunspecta, quase sempre cabeluda e invariavelmente gorda, e demonstra especialmente querer evitar a maioria das pessoas. Ela sabe crocitar e cacarejar, apresentando geralmente mais sons animais do que humanos.
Dizem que ela vive entre os declives de granito decomposto no território dos índios tarahumara. Dizem que está enterrada na periferia de Phoenix perto de um poço.Dizem que foi vista viajando para o sul, para o monte Alban num carro incendiado com a janela traseira arrancada. Dizem que fica parada na estrada perto de El Paso, que pega carona aleatoriamente com caminhoneiros até Morelia, México, ou que foi vista indo para a feira acima de Oaxaca, com galhos de lenha de estranhos formatos nas costas. Ela é conhecida por muitos nomes: La Huesera, a Mulher dos Ossos; La Trapera, a Trapeira; e La Loba, a Mulher-Lobo.
O único trabalho de La Loba é o de recolher ossos. Sabe-se que ela recolhe e conserva especialmente o que corre o risco de se perder para o mundo. Sua caverna é cheia de ossos de todos os tipos de criaturas do deserto: o veado, a cascavel, o corvo. Dizem, porém, que sua especialidade reside nos lobos.
Ela se arrasta sorrateira e esquadrinha as montañas e os arroyos, leitos secos de rios, à procura de ossos de lobos e quando consegue reunir um esqueleto inteiro, quando o último osso está no lugar e a bela escultura branca está disposta à sua frente, ela senta junto ao fogo e pensa na canção que irá cantar.
Quando se decide, ela se levanta e aproxima-se da criatura, ergue seus braços sobre o esqueleto e começa a cantar. É aí que os ossos das costelas e das pernas do lobo começam a se forrar de carne, e que a criatura começa a se cobrir de pelos. La Loba canta um pouco mais, e uma proporção maior da criatura ganha vida. Seu rabo forma uma curva para cima, forte e desgrenhado.
La Loba canta mais, e a criatura-lobo começa a respirar.
E La Loba ainda canta, com tanta intensidade que o chão do deserto estremece, e enquanto canta, o lobo abre os olhos, dá um salto e sai correndo pelo desfiladeiro.
Em algum ponto da corrida, quer pela velocidade, por atravessar um rio respingando água, quer pela incidência de um raio de sol ou de luar sobre seu flanco, o lobo de repente é transformado numa mulher que ri e corre livre na direção do horizonte.
Por isso, diz-se que, se você estiver perambulando pelo deserto, por volta do pôr do sol, e quem sabe esteja um pouco perdido, cansado, sem dúvida você tem sorte, porque La Loba pode simpatizar com você e lhe ensinar algo- algo da alma.

Estés, Clarissa Pínkola - Mulheres que correm com os lobos: Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem- Rio de Janeiro, Rocco, 1994

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Sobre bençãos....

Quando muito pequena, antes de dormir, minha avó ou minha tia me contavam histórias e cantavam canções de ninar. As histórias me comoviam e tocavam tanto, principalmente se alguém morria como a pobre cigarra deixada no frio. Logo perceberam que ou não contavam tais partes ou mudavam os finais se quisessem que eu sossegasse.  Cresci num mundo simbólico onde tudo era possível. Mas além deste carinho todo, o que mais me reconfortava eram as bençãos que me diziam antes de adormecer. Aprendi desde cedo que tais palavras têm, em si, um poder de criar mundos e nos proteger dentro deles. Não que seja um escudo contra qualquer coisa, mas como mobiliza nossa psique a trabalhar - isto descobri mais tarde - pode  chamar à luz partes nossas das quais sequer desconfiamos possuir. Clarissa Pínkola fala desta necessidade e destas possibilidades...


Receber a "benção" para viver de verdade...Às vezes passamos toda a nossa vida à espera da "benção", daquela que abra totalmente os portões: "Ande, sim, seja a força que você está destinada a ser...Ande, sim, viva como um ser pleno o tempo todo, até os seus limites mais distantes."
Uma benção não faz com que você ganhe alguma coisa, mas, na verdade, faz com que você use alguma coisa- algo que você já possui -, o dom que nasceu junto com você no dia em que você chegou à Terra. Uma benção é para que você se lembre totalmente de quem é, e faça bom uso da magnitude que nasceu embutida no seu eu precioso e indomável...

E termina com uma máxima que dá o que pensar:

"Quando uma pessoa vive de verdade, todos os outros também vivem."


Que sempre abençoemos e sejamos abençoados!!!!

Estés, Clarissa Pínkola - A ciranda das mulheres sábias: ser jovem enquanto velha, velha enquanto jovem - Rio de Janeiro: Rocco, 2007

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Clarissa fala de como escolher um companheiro de jornada

Nesta releitura de Clarissa Pínkola tenho me deparado com preciosidades um tanto esquecidas e indicações de caminho muito úteis. Ainda no capítulo da história da Vasalisa que fala sobre intuição, Clarissa mostra como podemos fazer escolhas melhores, especialmente quando estamos procurando alguém para partilhar nossas paisagens mais profundas.

Clarissa fala:

"A forma de manter o nosso vínculo com o lado selvagem consiste em nos perguntarmos exatamente o que desejamos. Essa pergunta é o que separa a semente do estrume. Uma das discriminações mais importantes que podemos fazer nesse sentido é a da diferença entre o que acena para nós de fora e o que chama de dentro da nossa alma.
Funciona da seguinte maneira. Imaginemos um bufê com creme chantilly, salmão, rosquinhas, rosbife, salada de frutas, panquecas com molhos, arroz, curry, iogurte e muitos, muitos outros quitutes colocados em mesa após mesa. Imaginemos que examinamos tudo e vemos algumas coisas que nos agradam. Podemos comentar com nossos botões, ' Ah! Eu realmente gostaria de comer um pouco daquilo, e disso aqui, e um pouco mais daquele outro prato'.
Alguns homens e mulheres tomam todas as decisões da vida dessa forma. Existe ao nosso redor um universo que acena constantemente, que se insinua nas nossas vidas, despertando e criando o apetite onde antes havia pouco ou nenhum. Nesse tipo de escolha, optamos por algo só porque aconteceu de ele estar debaixo do nosso nariz naquele exato momento. Não é necessariamente o que queremos, mas  é interessante; e, quanto mais examinamos, mais irresistível ele nos parece.
Quando estamos ligados ao self instintivo, à alma do feminino que é natural e selvagem, em vez de examinar o que por acaso esteja em exibição, dizemos a nós mesmas: ' Estou com fome de quê?' Sem olhar para nada no mundo externo, nós nos voltamos para dentro e perguntamos: ' Do que sinto falta? O que desejo agora?' Perguntas alternativas seriam: ' Anseio por ter o quê? Estou morrendo de fome do quê?' E a resposta costuma vir rápido. ' Ah, acho que quero...na verdade o que seria muito gostoso, um pouco disso e daquilo...ah, é, é isso o que eu quero.'
Isto está no bufê? Talvez sim, talvez não. Na maioria dos casos, provavelmente não. teremos de ir à sua procura por algum tempo, às vezes por muito tempo. No final, porém, iremos encontrar o que procuramos e ficaremos felizes por termos feito sondagens acerca dos nossos anseios mais profundos.
Essa discriminação que Vasalisa aprende ao separar sementes de papoula do estrume e milho mofado do milho são é uma das lições mais difíceis de aprender, já que ela exige ânimo, determinação e dedicação, e muitas vezes implica esperar pelo que se quer. Em nenhuma outra atividade isso fica mais nítido do que na escolha de parceiros e companheiros. Um companheiro não pode ser escolhido como num bufê. O companheiro deve ser escolhido pelo profundo anseio da alma. Escolher só porque algo apetitoso está à sua frente não irá satisfazer nunca a fome do Self da alma. É para isso que serve a intuição. Ela é mensageira da alma."
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Estés, Clarissa Pínkola-Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem- Rio de Janeiro: Rocco, 1996, pags 143 e 144

domingo, 20 de março de 2011

Clarissa Pínkola e seu fiel jardineiro


Outro dia conversando sobre as coisas que mais me trazem prazer à existência mencionei a leitura. Alguns me olharam com certa desconfiança. Minha velha avó tinha 71 anos quando nasci e portanto nenhuma capacidade de correr atrás de um bebê cheio de vitalidade e ansioso para explorar cada canto de seu mundo. Resolveu o problema me colocando num "caixão". Deixem-me explicar: acolchoaram uma grande caixa de madeira e lá me colocaram. Para me distrair, além dos brinquedinhos comuns a todas as crianças me deram revistas da época e muitos livrinhos. Saí de lá lendo e nunca mais parei.Lembro-me de que reclamavam, e ainda o fazem, de que ao ler me transporto para dentro do livro e de nada mais preciso. Favorece intensamente meu autismo brando de quem ama passear pelas paisagens internas trazidas pelos escritores e poetas. Trato os livros como pessoas queridas que me acompanham na caminhada. Alguns li várias vezes, outros me encantam tanto que vou saboreando bem devagar para que não acabem nunca...Há alguns anos encontrei um, pequenininho e despretensioso da Clarissa Pínkola. " O jardineiro que tinha fé". Com a prosa poética de sempre ela narra várias histórias entremeadas, sendo o eixo principal a jornada de um tio que amava as florestas. Comovente por demais. a cada vez que eu dei este livro de presente percebia que as pessoas não tinham a dimensão do que estava por vir. Depois vinham os agradecimentos pela beleza contida naquelas poucas e simples páginas.Clarissa tem o poder de tocar a alma e sem pieguice trazer à tona o melhor do humano.

"O que é que não pode morrer nunca? É aquela força de fé que nasce dentro de nós, que é maior do que nós, que chama as novas sementes para os lugares áridos, maltratados, abertos, para que possamos nos ressemear. É essa força na sua insistência, na sua lealdade a nós, no seu amor por nós, nos seus meios, na maioria das vezes, misteriosos, que é maior, muito mais majestosa e muito mais antiga do que qualquer outra jamais conhecida"."Estou certa de que, enquanto estivermos aos cuidados dessa força de fé, aquilo que pareceu morto não estará morto, aquilo que pareceu perdido não estará mais perdido, aquilo que alguns alegaram ser impossível tornou-se nitidamente possível, e a terra que está sem cultivo está apenas descansando - à espera de que a semente venturosa chegue com o vento, com todas as bençãos de Deus. E ela chegará."
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