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quarta-feira, 20 de junho de 2012

La Loba

Tem dias em que só uma boa história para te curar uma tristeza ou te tirar da apatia. Esta contada por Clarissa Pínkola é um dos bálsamos mais eficazes que conheço. Traz de volta à vida a fé que se perdeu... Bem vinda seja La Loba!!!





La Loba

Existe uma velha que vive num lugar oculto de que todos sabem, mas que poucos já viram. Como nos contos de fada da Europa oriental, ela parece esperar que cheguem até ali pessoas que se perderam, que estão vagueando ou à procura de algo.
Ela é circunspecta, quase sempre cabeluda e invariavelmente gorda, e demonstra especialmente querer evitar a maioria das pessoas. Ela sabe crocitar e cacarejar, apresentando geralmente mais sons animais do que humanos.
Dizem que ela vive entre os declives de granito decomposto no território dos índios tarahumara. Dizem que está enterrada na periferia de Phoenix perto de um poço.Dizem que foi vista viajando para o sul, para o monte Alban num carro incendiado com a janela traseira arrancada. Dizem que fica parada na estrada perto de El Paso, que pega carona aleatoriamente com caminhoneiros até Morelia, México, ou que foi vista indo para a feira acima de Oaxaca, com galhos de lenha de estranhos formatos nas costas. Ela é conhecida por muitos nomes: La Huesera, a Mulher dos Ossos; La Trapera, a Trapeira; e La Loba, a Mulher-Lobo.
O único trabalho de La Loba é o de recolher ossos. Sabe-se que ela recolhe e conserva especialmente o que corre o risco de se perder para o mundo. Sua caverna é cheia de ossos de todos os tipos de criaturas do deserto: o veado, a cascavel, o corvo. Dizem, porém, que sua especialidade reside nos lobos.
Ela se arrasta sorrateira e esquadrinha as montañas e os arroyos, leitos secos de rios, à procura de ossos de lobos e quando consegue reunir um esqueleto inteiro, quando o último osso está no lugar e a bela escultura branca está disposta à sua frente, ela senta junto ao fogo e pensa na canção que irá cantar.
Quando se decide, ela se levanta e aproxima-se da criatura, ergue seus braços sobre o esqueleto e começa a cantar. É aí que os ossos das costelas e das pernas do lobo começam a se forrar de carne, e que a criatura começa a se cobrir de pelos. La Loba canta um pouco mais, e uma proporção maior da criatura ganha vida. Seu rabo forma uma curva para cima, forte e desgrenhado.
La Loba canta mais, e a criatura-lobo começa a respirar.
E La Loba ainda canta, com tanta intensidade que o chão do deserto estremece, e enquanto canta, o lobo abre os olhos, dá um salto e sai correndo pelo desfiladeiro.
Em algum ponto da corrida, quer pela velocidade, por atravessar um rio respingando água, quer pela incidência de um raio de sol ou de luar sobre seu flanco, o lobo de repente é transformado numa mulher que ri e corre livre na direção do horizonte.
Por isso, diz-se que, se você estiver perambulando pelo deserto, por volta do pôr do sol, e quem sabe esteja um pouco perdido, cansado, sem dúvida você tem sorte, porque La Loba pode simpatizar com você e lhe ensinar algo- algo da alma.

Estés, Clarissa Pínkola - Mulheres que correm com os lobos: Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem- Rio de Janeiro, Rocco, 1994

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O Jogo


O Jogo

Há milhares de anos existia um reino chamado Jardim dos Sonhos. Neste lugar a família real vivia em paz e harmonia com todos os seus súditos, pois o rei era considerado um homem sábio e justo e por isso respeitado e amado por todos. Um dia, apareceu na porta do palácio uma bela senhora com a face serena como a de um anjo, que tinha o dom de encantar as pessoas com a sua conversa mansa e divertida e com jogos e brincadeiras que ela propunha para entreter seus ouvintes deixando a todos encantados com seu jeito doce e sedutor.
Como nada passava despercebido aos olhos do rei e vendo que tal senhora tinha o dom de distrair os seus súditos, ele a mandou chamar para lhe propor que ficasse no reino ocupando o cargo de senhora dos jogos e das festas, ou seja, ela seria a pessoa responsável por promover e organizar todos os jogos e também as festas no reino.
Logo ela se tornou o centro das atenções do reino com seus jogos, brincadeiras e festas que organizava para todos os súditos do reino. Os jogos pareciam trazer felicidades e satisfações sem fim a todos e mesmo que, de vez em quando, alguém se machucasse, ninguém se importava pois todos se espelhavam nos aparentes vencedores e sempre queriam participar novamente.
Todos se deleitavam com os jogos e  festas daquela senhora, divertindo-se a valer e, desta forma os anos foram passando, até que um dia chegou um viajante de um reino distante. Este viajante era conhecido em seu reino como um homem de grande sabedoria e logo viu, que todos ali estavam empenhados em se distrair com os jogos, festas e brincadeiras daquela senhora, completamente envolvidos por ela, a ponto de se esquecerem do real propósito de suas vidas. Percebendo isto, o viajante pediu para falar com o rei, dizendo que tinha algo de muito importante  a respeito do próprio reinado para contar a ele.
O sábio ao ser recebido pelo rei no salão do palácio lhe relatou:
- Oh, estimado rei! Vejo que seu reino é muito vasto e rico e sei que governas com justiça e sabedoria, porém, há nele uma senhora de face como a de um anjo, que com seu jeito envolvente, domina os seus súditos e faz com que todos, de uma forma ou de outra se iludam com os seus jogos e, assim, se esqueçam do real propósito da vida.
O rei então lhe contou que fora ele mesmo que a convidara par viver naquele reino, exercendo tal função e que tudo aquilo estaria sujeito a acontecer. Mas sabia também que um dia seus súditos se cansariam dos jogos e das festas, que lhes prometiam a princípio, muitas felicidades e prazeres, mas que no fundo nunca as satisfariam plenamente, pois tais divertimentos erma apenas superficiais e fugazes. Quando isto acontecesse, eles estariam preparados para se conscientizarem, com toda clareza e lucidez, da verdadeira essência da vida.
Ouvindo isto, o sábio sentiu que estava diante de um homem de sabedoria e onisciência e reverenciou o rei, que sentiu que a chegada do sábio ao reino, seria o momento oportuno e auspicioso para que alguns de seus súditos começassem a despertar para o rela propósito da vida. Pediu, então, ao sábio homem que o ajudasse na missão de despertar seus súditos para uma consciência mais ampla, através de um processo de auto-análise, busca do conhecimento e disciplina espiritual.
O sábio aceitou tal missão. E todos os viajantes que passavam pelo reino diziam que aquele homem continuou com sua missão por muitos e muitos anos e que apesar de no princípio não ter sido compreendido pela maioria, cada um a seu tempo e a seu modo foi despertando do reino do Jardim dos Sonhos.


Conto de Marcelo Satuf Amaral

quinta-feira, 8 de março de 2012

A Donzela que era mais sábia que o Czar

Desde pequena os contos de princesa me intrigavam: seriam elas tão tolas e desvalidas que sempre precisariam de um príncipe para salvá-las? Comeriam maças envenenadas distraidamente, dormiriam a espera de um beijo que as despertassem? Até que apurei os ouvidos , procurei e encontrei histórias onde, inequivocamente a princesa é a heroína, cumpre tarefas, enfrenta desafios e chega ao fim da jornada transformada pelo desenrolar de um caminho pessoal.  As exigências feitas às princesas não são de força física mas de uma capacidade interna de solucionar problemas e encontrar saídas criativas onde nada existe.  A jornada da princesa tem, portanto, particularidades bem femininas e  suas conquistas também. Príncipes, quando aparecem, são coadjuvantes. A protagonista da própria história é sempre a princesa. Podemos aprender muito com a suavidade, persistência, astúcia e perspicácia destas meninas.







A Donzela que era mais sábia que o Czar


        Era uma vez um homem pobre que tinha uma única filha.
Essa jovem era surpreendentemente sábia; parecia possuir uma compreensão muito acima do que seria de se esperar na sua idade e frequentemente dizia coisas que espantavam a seu próprio pai.
Um dia, quando estava sem um centavo, esse homem foi visitar o czar, para pedir sua ajuda.
O czar ficou atônito ao ver a forma refinada com que o homem falava, e perguntou-lhe onde havia aprendido aquelas frases.
— Com minha filha – respondeu o homem.
— Sim, mas onde sua filha aprendeu? – perguntou o czar.
— Deus e nossa pobreza a tornaram sábia – foi a resposta.
— Aqui está algum dinheiro para as suas necessidades imediatas – disse o czar, — e trinta ovos, para que você peça à sua filha, em meu nome, para que os ponha a chocar para mim. Se ela o fizer com êxito darei a vocês ricos presentes. Caso ela não o consiga, você será torturado.
O homem voltou para casa e deu os ovos para sua filha, que os examinou, pesando um ou dois em suas mãos, e assim ela se deu conta de que eram ovos cozidos. Disse ao seu pai:
— Pai, espere até amanhã. Talvez eu descubra o que se pode fazer.
No dia seguinte ela acordou bem cedo e, tendo pensado uma solução, ferveu algumas sementes. Colocou-as dentro de uma pequena bolsa e deu-a a seu pai, dizendo:
— Vá com o arado e os bois, pai, e comece a arar ao lado do caminho por onde o czar passa quando está indo à igreja. No momento em que o czar puser sua cabeça para fora da janela da carruagem você deve gritar: "Vamos, bravos bois, arem a terra para que essas sementes cozidas cresçam bastante!"
O pai fez o que sua filha havia dito, e conforme a previsão dela, o czar olhou o homem trabalhando pela janela da carruagem. Quando escutou o que ele gritava, disse:
— Homem estúpido, como você pode esperar que sementes cozidas produzam algo?
O homem, prevenido pela sua filha, gritou:
— Da mesma forma que ovos cozidos produzem pintos!
O czar então seguiu seu caminho, sabendo que a jovem havia sido mais esperta do que ele.
Porém as coisas não terminariam assim...
No dia seguinte o czar enviou fio de linho enrolado e embaraçado à casa do homem. O mensageiro disse:
— Este linho deve ser usado para fazer velas para o barco do meu senhor, e isto deve ser feito até amanhã. Caso contrário você será executado.
Chorando, o homem entrou em casa, mas sua filha lhe disse:
— Não tenha medo, pensarei em uma solução.
Na manhã seguinte ela se dirigiu a seu pai e entregou-lhe um pedaço de madeira, dizendo:
— Diga ao czar que se ele puder fazer todos os instrumentos necessários para fiar e tecer deste pedaço de madeira, eu farei o tecido para as velas com este linho.
O homem fez conforme a sua filha havia indicado, e o czar ficou ainda mais impressionado com a resposta da jovem. No entanto ele pôs uma pequena taça na mão do homem e disse:
— Vá, e leve esta taça para sua filha e peça-lhe para esvaziar o mar com ela, porque assim poderei aumentar meus domínios com novas pastagens.
O homem voltou para casa e deu a taça à filha, dizendo-lhe que o governante havia pedido novamente algo impossível de ser feito.
— Vá se deitar – disse ela. – Pensarei em algo, concentrando minha mente nisso toda a noite.
Ao amanhecer chamou o pai e disse:
— Diga ao czar que se ele puder represar todos os rios do mundo com este pedaço de estopa, então esvaziarei o mar para ele.
O pai voltou ao palácio e contou ao czar o que sua filha dissera. O czar reconhecendo que ela era mais sábia do que ele, pediu que ela fosse enviada à corte imediatamente. Quando ela se apresentou, ele lhe perguntou:
— O que é que pode ser ouvido a uma grande distância?
Sem vacilar, ela respondeu imediatamente:
— Somente o trovão e a mentira podem ser ouvidos desde os pontos mais distantes, ó czar.
Atônito, o czar segurou sua própria barba, e virando-se para os cortesãos lhes perguntou:
— Quanto acham que vale a minha barba?
Todos começaram a calcular o que pensavam que a barba valia, dando-lhe preços cada vez mais altos para adular sua Majestade. Então o czar perguntou à donzela:
— E você, minha criança, quanto você acha que vale a minha barba?
Os cortesãos aguardavam atentos a resposta.
— A barba de Vossa Majestade vale três chuvas de verão.
O czar muito surpreendido, disse:
Você respondeu corretamente. Eu me casarei com você e farei de você minha esposa hoje mesmo.
E assim a jovem se tornou a czarina. Mas assim que as bodas terminaram ela disse ao czar:
— Tenho um pedido a fazer. Conceda-me a graça, escrita com letra de sua própria mão, de que se você ou qualquer um da sua corte desgostar-se comigo, e eu tiver que partir, me será permitido levar comigo aquilo de que eu mais gostar.
Encantado com a bela donzela, o czar pediu uma pena e um pergaminho e imediatamente escreveu, selando o documento com o seu anel de rubi, tal como ela havia solicitado.
Os anos se passaram com muita felicidade para ambos. Um dia, porém, o czar teve uma acalorada discussão com a czarina e, irritado, ordenou:
— Vá embora! Desejo que deixe este palácio para nunca mais voltar.
— Então irei embora amanhã – disse a jovem czarina, obedientemente. – Permita-me somente passar a noite aqui para preparar meu regresso a casa.
O czar concordou e, antes de deitar-se, tomou a bebida de ervas que ela sempre preparava para ele. Assim que a bebeu o czar caiu adormecido. A czarina levou-o para a carruagem real, e partiram para a cabana de seu pai.
Quando amanheceu o czar, que havia dormido tranquilamente a noite inteira, despertou olhando desconcertado ao seu redor.
— Traição! – gritou. – Onde estou e de quem sou prisioneiro?
— Meu, Vossa Majestade – respondeu a czarina docemente. – O documento escrito por sua própria mão está aqui.
E lhe mostrou o pergaminho onde ele havia escrito que se ela tivesse que sair do palácio poderia levar aquilo de que mais gostasse.
Quando o leu, o czar riu de coração, e declarou que seu afeto por ela ainda era o mesmo.
Ao que ela respondeu:
— Meu grande amor por você, ó czar, me fez assim tão audaciosa. Mas, se arrisquei a minha vida, isso demonstra o quanto amo você.
E foi assim como eles se uniram novamente e viveram felizes para o resto de suas vidas.

História reproduzida do livro Histórias da Tradição Sufi

quinta-feira, 1 de março de 2012

De como a Verdade entrou num palácio...

Este é um conto que Regina Machado, uma da melhores contadoras de história que conheço, encontrou num livro de Malba Tahan, o fantástico escritor de " O Homem que Calculava". Quando pequena era fascinada por este livro. A tradição árabe é rica em contos maravilhosos e este professor brasileiro se encantou com eles , passou parte de sua vida a estudar e disseminar histórias. Seu nome  verdadeiro era Júlio César de Mello e Souza. Ele próprio trasvestiu-se de fábula e criou mundos...





Uma Fábula sobre a Fábula


Allah Hu Akbar! Allah Hu Akbar!

Deus criou a mulher e junto com ela criou a fantasia. Foi assim que uma vez a Verdade desejou conhecer um palácio por dentro e escolheu o mais suntuoso de todos, onde vivia o grande sultão Haroun Al-Raschid. Vestiu seu corpo apenas com um véu transparente e pouco depois chegou à porta do magnífico palácio. Assim que o guarda apareceu e viu aquela mulher sem nenhuma roupa, ficou desconcertado e perguntou quem ela era. E a Verdade respondeu com firmeza:
- Eu sou a Verdade e desejo encontrar-me com seu senhor, o sultão Haroun Al-Raschid.
O guarda entrou e foi falar com o grão-vizir. Inclinando-se diante dele, disse:
- Senhor, lá fora está uma mulher pedindo para falar como nosso sultão, mas ela só traz um véu completamente transparente cobrindo seu corpo. 
- Quem é essa mulher? - perguntou o grão-vizir com viva curiosidade.
- Ela disse que se chama Verdade, senhor - respondeu o guarda.
O grão-vizir arregalou os olhos e quase gaguejou:
- O quê? A Verdade em nosso palácio? De jeito nenhum, isso eu não posso permitir. Imagine o que ia ser de mim e de todos aqui se a Verdade aparecesse diante de nós? Estaríamos todos perdidos, sem exceção. Pode mandar essa mulher embora, imediatamente.
O guarda voltou e transmitiu à Verdade a resposta do seu superior. A Verdade teve que ir embora, muito triste.

Acontece que...

Deus criou a mulher e junto com ela criou a teimosia. A Verdade não se deu por vencida e foi procurar roupas para vestir. Cobriu-se dos pés à cabeça com peles grosseiras, deixando apenas o rosto de fora e foi direto, é claro, para o palácio do sultão Haroun Al-Raschid.
Quando o chefe da guarda abriu a porta e encontrou aquela mulher tão horrivelmente vestida, perguntou seu nome e o que ela queria.
Com voz severa ela respondeu:
- Sou a Acusação e exijo uma audiência com o grande senhor desse palácio.
Lá se foi o guarda falar com o grão-vizir e, ajoelhando-se diante dele, disse:
- Senhor, uma estranha mulher envolvida em vestes malcheirosas deseja falar com nosso sultão.
- Como ela se chama? - perguntou o grão-vizir.
- O nome dela é Acusação, Excelência.
O grão-vizir começou a tremer, morto de medo:
- Nem pensar. Já imaginou o que seria de mim, de todos aqui, se a Acusação entrasse nesse palácio? Estaríamos todos perdidos, sem exceção. Mande essa mulher embora imediatamente.
Outra vez a Verdade virou as costas e se foi tristemente pelo caminho. Ainda dessa vez ela não se deu por vencida.

E isso porque...

Deus criou a mulher e junto com ela criou o capricho.
A Verdade buscou pelo mundo as vestes mais lindas que pôde encontrar: veludos e brocados, bordados com fios de todas as cores do arco-íris. Enfeitou-se com magníficos colares de pedras preciosas, aneis, brincos e pulseiras do mais fino ouro e perfumou-se com essência de rosas. Cobriu o rosto com um véu bordado de fios de seda dourados e prateados e voltou, é claro, ao palácio do sultão Haroun Al-Raschid.
Quando o chefe da guarda viu aquela mulher deslumbrante como a Lua, perguntou quem ela era.
 E ela respondeu, com voz doce e melodiosa:
- Eu sou a Fábula e gostaria muito de encontrar-me, se possível, com o sultão deste palácio.
O chefe da guarda foi correndo falar com o grão-vizir, até esqueceu-se de ajoelhar-se diante dele e foi logo dizendo:
- Senhor, está lá fora uma mulher tão linda, mas tão linda, que mais parece uma rainha. Ela deseja falar com nosso sultão.
Os olhos do grão-vizir brilharam:
- Como é que ela se chama?
- Se entendi bem, senhor, o nome dela é Fábula.
- O quê? - disse o grão-vizir completamente encantado - A Fábula quer entrar em nosso palácio? Mas que grande notícia! Para que ela seja recebida como merece, ordeno que cem escravas a esperem com presentes magníficos, flores perfumadas, danças e músicas festivas.
As portas do grande palácio de Bagdá se abriram graciosamente e por elas finalmente a bela andarilha foi convidada a passar.
Foi desse modo que a Verdade, vestida de Fábula, conseguiu conhecer um grande palácio e encontrar com Haroun Al-Raschid, o mais fabuloso sultão de todos os tempos.

Machado, Regina - O violino cigano e outros contos de mulheres sábias - São Paulo: Companhia da Letras, 2004.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A semente dourada

As histórias nos fazem refletir sobre quem somos no mais profundo e como agimos a partir disso. Nada fica ser nos ser revelado. Espelhos potentes para nos ajudar nas transformações. Esta lembra um outro Mestre que mandava atirar pedras só quem nunca tivesse pecado...






A Semente dourada

Era uma vez um homem pobre e faminto que roubou uma fruta no mercado. O vendedor mandou prendê-lo e levou-o diante da decisão judicial. 
O ladrão disse em sua própria defesa: "Se você me perdoar, eu lhe darei um presente maravilhoso."
O juiz replicou asperamente: "O que você pode ter para selar esse acordo?"
O ladrão tirou do bolso uma pequena semente. "Quando ela for plantada dará frutos de um dia para o outro. Ela dará frutos de ouro."
Então o juiz insistiu que ele plantasse a semente.
"Eu não posso", disse o pobre homem. "Ela só pode ser plantada por alguém que nunca roubou, nunca enganou ou mentiu. Senhor, o senhor terá a honra de plantar a semente."
O magistrado-chefe balbuciou e murmurou: "Eu não cultivo plantas. Dê a semente para meu sumo prelado". 
O prelado recusou dizendo: "Eu não sei lidar com plantas. Dê a semente par meu comissário de julgamentos".
Um por um, todos os funcionários da corte se recusaram a plantar as sementes. Cada um deles ficou em silêncio.
Finalmente, o ladrão falou: "Deverei ser punido por roubar uma fruta quando eu estava com fome, se nenhum de vocês é capaz de plantar esta semente. Isto é justiça?"
O magistrado o libertou.


Mellon, Nancy - Corpo em equilíbrio: o poder do mito e das histórias para despertar e curar as energias físicas e espirituais - São Paulo, Cultrix 2010

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O Rei e o Lobo

Lobos são seres encantados, assim como os gatos muito mal falados. São símbolos da natureza selvagem e indomada dentro de nós. Há quem os ame por isso, há quem os odeie e queira destruir. Hoje encontrei esta história sufi num livro precioso que ganhei de alguém muito querido. História de ensinamento.






O Rei e o Lobo

Certo rei decidiu domesticar um lobo e transformá-lo em um cão dócil. Seu desejo baseava-se na ignorância e na ânsia de que os outros aprovassem e admirassem sua atitude, o que é causa frequente de muitos problemas neste mundo. Fez com que tirassem de uma loba um dos seus filhotes recém-nascidos, e que fosse criado entre cães domésticos.
Quando o filhote do lobo cresceu, foi levado diante do rei e durante vários dias se comportou exatamente como um cão.
As pessoas que viam esse fato assombroso ficavam maravilhadas e pensavam que o rei era extraordinário.
Agindo de acordo com essa crença, fizeram do rei seu conselheiro em todas as coisas e lhe atribuíam grandes poderes. O próprio rei acreditou que o que acontecera era quase um milagre. Um dia, quando estava caçando, o rei ouviu uma matilha de lobos que se aproximavam. Quando os animais chegaram mais perto, o lobo doméstico deu um salto, mostrou as presas e correu para lhes dar as boas vindas.
Em poucos segundos desapareceu, de volta aos seus companheiros naturais.

Esta história me lembra uma frase de meu grande amigo Thompson Loyola: "O dever de todo peixe é saltar do aquário!"

O Sufismo no Ocidente: preparação do buscador- Rio de Janeiro: Ed. Dervish, 1988

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Hainá e o Ogro

A princesa, para se tornar digna de ser princesa, passa por inúmeros desafios e invariavelmente tem que encarar o lado sombrio e destrutivo , aprender a lidar com ele e a ultrapassá-lo. Neste conto marroquino, nossa protagonista o faz belamente.






HAINÁ E O OGRO

Num vilarejo do Marrocos, bem perto de uma grande e escura floresta, morava Hainá e sua família.
Hainá era bonita e feliz. Feliz porque dali a pouco iria se casar com seu primo Adil.
Um dia, as moças da cidade se juntaram para catar lenha na floresta. Naturalmente Hainá foi junto. Fazia um dia lindo e ninguém num dia assim tinha medo da floresta.
Perto das quatro os feixes de lenha tinham sido amarrados e todas as moças estavam prestes a tomar o caminho de volta para a aldeia. Mas o céu cobriu-se rapidamente de nuvens negras - o trovão trovejava - uma tempestade ia estourar. E a densa floresta logo ficou escura. Foi esse momento que o ogro escolheu, um ogro horroroso, para pular de uma árvore para o meio das moças. Elas escaparam gritando muito alto:
- Hainá, corra rápido!
Mas o ogro precipitou-se por cima dela e a carregou até sua toca. Ninguém tinha coragem de avisar Adil, o noivo de Hainá, de que sua noiva tinha desaparecido. Todos sabiam que ela deveria já ter sido comida pelo ogro. Todos sabiam que Adil, o corajoso, iria vingar Hainá. Mas todos enfim também sabiam que os ogros são mais fortes do que todos os jovens da face da terra. Então, porque deixar inutilmente Adil se deixar matar?
Uma amiga de Hainá, um dia, porém, contou toda a verdade a Adil. Mas ele não ouviu nenhum conselho. Pegou uma espada, pão, tâmaras e leite e se foi logo em busca de sua noiva. No caminho passou perto de uma colina toda coberta de flores vermelhas, só de flores vermelhas. Adil achou isso estranho e perguntou a razão disso à colina. A colina logo respondeu:
- Estou coberta de flores vermelhas porque Hainá passou por este caminho.
Um pouco mais longe Adil contemplou outra colina coberta de flores azuis, unicamente de flores azuis.
Quando perguntou a razão de a colina estar coberta de flores azuis, ela respondeu:
- Adil, estou coberta de flores azuis porque Hainá passou por esta caminho.
A terceira colina, recoberta de flores brancas, intrigou Adil. Este perguntou o porquê disso.
- Sou branca, até muito branca, Adil, porque Hainá mora aqui.
Aos pés desta magnífica colina branca havia uma aldeia que se esquentava tranquilamente ao sol. Algumas mocinhas puxavam água do rio e Adil perguntou-lhes se conheciam Hainá. Elas pareciam sem graça ao responder. Mas uma delas confessou:
- Hainá mora naquela grande casa ali. Mas cuidado, a casa é habitada pelo...
- Eh! venha logo, venha logo, Rabicha, é hora de voltar para casa! - diziam as amigas.
Adil desconfiava que a casa fosse habitada pelo ogro. Tinha ,portanto, de ser muito prudente e utilizar a sua Esperteza. Pediu a uma galinha que penetrasse na casa, amarrasse a seus pés um fio tecido por Hainá e voltasse, saindo de lá correndo. A galinha logo aceitou. Um pouco mais tarde, Adil percebeu  a galinha com o fio de seda nos pés, escapando, correndo da casa, e para sua maior felicidade, vinha atrás a perseguindo a bela Hainá procurando evitar que a ave fugisse.
Hainá estava toda feliz de reencontrar Adil e logo lhe pediu:
- Adil, Adil, vá embora, por favor, esconda-se. O ogro vai voltar para casa e sentir seu cheiro, encontrá-lo e comê-lo. Espere à noite na beira da floresta, vou tentar fugir. À meia-noite, entre devagar pela porta que vou deixar entreaberta e venha me ajudar a escapar. Sobretudo, Adil, não esqueça sua faca bem afiada.
Adil prometeu, olhou mais uma vez para Hainá, e dirigiu-se em direção a uma pequena cabana abandonada, onde pretendia se esconder até meia-noite.
Quando o ogro voltou, no comecinho da noite, ficou farejando por todos os lados.
- Que coisa, que coisa, que coisa, está cheirando a carne fresca!
Hainá, o que é isso?
- Não é nada, mestre ogro. É o cheiro da moça que foi puxar água no rio da cidade.
- Água? Água? Está bom, está bom! Vou dormir. Amanhã tenho muitas crianças para devorar. Venha cá, Hainá!
E o ogro enrolou na sua mão os cabelos longos de Hainá, como fazia todas as noites, para impedi-la de fugir.
Depois caiu no sono acima de um monte de peles com Hainá aprisionada ao seu lado.
À meia-noite, Adil entrou devagarinho pela porta entreaberta. Logo percebeu o ogro e Hainá com os seus longos cabelos enrolados na mão peluda do ogro. De uma facada só Adil cortou os cabelos de Hainá , que a mantinham presa. Hainá se levantou, mas, no mesmo instante, primeiro baixinho, logo cada vez com mais força, os pratos e as xícaras da sala começaram a circular com barulho e a gritar:
- Hainá vai fugir com seu primo! Ei! você que está dormindo, acorde!
Um xícara logo continuou:
- Ei! você que está dormindo, acorde! Hainá vai fugir com seu primo!
Logo Hainá entendeu que a louça estava alertando o ogro. Abriu um saco de sal e o espalhou em tudo, até em cima dos utensílios. Subitamente todos se calaram. Enquanto isso, o ogro não parou um instante de roncar. Hainá e Adil fugiram correndo. No fundo da cozinha um dos utensílios não recebeu salo, era o pilão. Ele logo tomou conta de avisar o ogro:
- Ei! você que está dormindo, acorde! Hainá caba de fugir com seu namorado, Adil!
- Hum! Hum! Hainá, onde você está?
- Ela foi embora. Ela foi embora!.
Com uma raiva negra, o ogro se levantou, montou em seu cavalo e galopou atrás dos fugitivos.
Quando Hainá ouviu de longe o ogro chegando, puxou Adil para trás de uma árvore plantada ao longo do caminho e, com muita coragem, no momento em que o ogro passou diante da árvore galopando, lhe jogou um punhado grande de sal na cara. Com um grito espantoso, ogro e cavalo desapareceram num instante.
Na calma da floresta apaziguada, Hainá e Adil seguiram tranquilamente  seu caminho. Foram reencontrar sua aldeia, seus parentes e amigos. Sabemos também que não irão demorar para se casar. Deixemo-los lá e voltemos para cá.

Bonaventure, Jette - Variações sobre o tema mulher - São Paulo: Paulus, 2000- (Amor e psique)



quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Uma história sobre morangos...

Muitas histórias falam de tempos tão distantes que se perderam na memória...Sobre amores e sobre frutos...Esta é uma destas que, ainda por cima, tem grande poder curativo.






Morangos

Muito tempo atrás, no começo do mundo, viviam o primeiro homem e a primeira mulher. Eles moravam juntos como marido e mulher , e se amavam com ternura. Mas um dia brigaram. Embora nenhum deles conseguisse se lembrar do motivo depois, a dor aumentava com cada palavra dita até que, finalmente, com raiva e infelicidade, a mulher saiu de casa e começou a se afastar para o leste, em direção ao nascente.
O homem sentou-se sozinho, em sua casa. A raiva havia passado e tudo o que restara era uma dor e um desespero terríveis.
Um espírito ouviu o homem chorando e se compadeceu dele. O espírito disse: "Homem, eu vi sua mulher caminhando para o leste em direção ao sol nascente".
O homem saiu atrás da esposa, mas não conseguia alcançá-la. Todos sabem que uma mulher zangada caminha rápido.
"Eu irei na frente e verei se é possível desacelerar os passos dela", disse o espírito, que logo encontrou a mulher caminhando, com passos rápidos e zangados, e com o olhar fixo à sua frente.
Havia dor em seu coração. O espírito viu alguns arbustos de mirtilo crescendo ao longo da trilha, e fez os botões se abrirem em flor e amadurecerem em frutos. Mas o olhar da mulher permanecia fixo. Os seus passos não ficaram mais lentos. Ela não olhava nem à direita, nem à esquerda e não viu as frutinhas.
O espírito fez as árvores da floresta abrirem suas flores, uma a uma, e amadurecerem seus frutos. Mas os olhos da mulher permaneciam fixos e ela ainda não via nada além de sua raiva e dor. Então o espírito fez crescer um tapete verde ao longo da trilha, ornamentado com minúsculas flores brancas e cada flor, aos poucos, amadurecia em uma frutinha que tinha a cor e a forma do coração humano. Enquanto a mulher caminhava, ela esmagava as frutas minúsculas sob seus pés. Um aroma delicioso subiu até suas narinas. Ela parou e olhou para baixo e viu as frutinhas. Ela colheu uma e a comeu, e descobriu que seu gosto era doce como o próprio amor.
Então ela começou a caminhar devagar, colhendo as frutinhas enquanto prosseguia e, ao se inclinar para colhê-las, ela viu seu marido se aproximando por trás. A raiva havia desaparecido de seu coração. Tudo o que permaneceu foi o amor que ela sempre sentiu. Então, ela parou à espera dele e juntos eles colheram e comeram a fruta. Finalmente, retornaram para casa, com um novo gosto de paz e felicidade.

Mellon, Nancy - Corpo em equilíbrio: o poder do mito e das histórias para despertar e curar as energias físicas e espirituais - São Paulo, Cultrix, 2010.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Dois lados

As histórias têm como função ampliar nossas percepções e possibilidades de compreensão dos mundos. Esta, em especial, nos lembra que a realidade se constitui de vários ângulos. Será que abarcamos todos para julgar e condenar?






Dois lados

Os mantos coloridos dos dervixes, desenhados com propósito de ensino, e às vezes imitados como mera decoração, foram introduzidos na Espanha na Idade Média, da seguinte forma: um rei cristão, que gostava de detalhes pomposos e também se orgulhava de seu saber filosófico, pediu a um sufi, conhecido como El-Agarin, que o iniciasse em sua ciência.
- Nós lhe oferecemos observação e reflexão - disse-lhe El-Agarin - Mas antes deve aprender toda a extensão do seu significado.
- Já sabemos como prestar atenção. Temos estudado bastante, através de nossa tradição, todos os passos preliminares para chegar ao conhecimento- disse o rei.
- Muito bem - respondeu El-Agarin - Durante o desfile de amanhã daremos uma demonstração de nosso ensinamento para Vossa Majestade.
 Fizeram-se os preparativos, e no dia seguinte os dervixes do 'ribat'( centro de ensino) de El-Agarin desfilaram pelas ruas estreitas da cidade andaluza. O rei e seus cortesãos estavam postados em ambos os lados do trajeto: os nobres à direita, os cavaleiros à esquerda.
Quando a procissão terminou El-Agarin se dirigiu ao rei e disse:
- Por favor, majestade, pergunte aos fidalgos do lado esquerdo de que cor era o manto dos dervixes.
Todos os cavaleiros juraram pela escrituras e por sua honra que as vestimentas eram azuis.
O rei e os nobres se mostraram surpresos e confusos. Aquela não era, de modo algum, a cor que tinham visto.
- Todos nós vimos perfeitamente que usavam mantos castanhos- disse o rei - E entre nós há homens muito respeitados, homens de grande santidade e fé.
O rei ordenou que todos os cavaleiros se preparassem para ser castigados e degradados. Os que tinham visto os mantos castanhos foram separados: seriam premiados. O processo durou algum tempo, findo o qual o rei disse a El-Agarin.
- Que feitiçaria você fez, homem malvado? Que atos do demônio são os seus que podem fazer com que os fidalgos mais honrados do cristianismo neguem a verdade, abandonem suas esperanças de redenção e traiam nossa confiança, ficando incapacitados para a batalha?
- Na metade visível do lado em que estávamos- disse o sufi - os mantos eram de cor castanha. Na outra metade eram de cor azul. Sem preparação, sua predisposição o induz a enganar-se a sim mesmo e a interpretar-nos mal. Como podemos ensinar a alguém nestas circunstâncias?

Histórias da Tradição Sufi- Rio de Janeiro: Edições Dervish- Instituto Tarika, 1993

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Conto de Natal (Final)

Bela história que assim como o Natal aponta para o ciclo de vida-morte-vida e para todas as maravilhas que brotam disso. Quando pela primeira vez li este conto só me foquei na tristeza da morte...Agora consigo compreender que a vida sempre volta e isto muito me conforta. 





Nesse quartinho frio no sótão, não havia luz a não ser por uma janelinha embaçada na lateral do telhado, através da qual brilhava aquela estrela enorme.
"Ai, pobre de mim", pensou o pinheiro tateando todos os galhos para ver se havia alguma fratura. "o que eu fia para ser abandonado num lugar tão frio e solitário?"
Mas ninguém ouviu. E ali o pinheiro ficou muitos dias e muitas noites.
Certa noite, porém, com o canto do olho, o pinheiro viu quatro pontos vermelhos reluzentes. Eram os olhos de dois ratinhos minúsculos que ocupavam as paredes do sótão. "Ah", disse-lhes em voz baixa, "ah, minhas senhoras, sabem me dizer quando virão me buscar, quando voltarei para a sala especial?" O camundongo de macacão e cachecol começou a rir e a gaguejar: "V-v-v-vir para levar você de volta para a sala especial? Ha, ha, ha."
Mas o outro camundongo, de vestido e avental branco, cutucou o companheiro e falou com a árvore com gentileza: "Querida árvore, ora, você teve uma vida boa, não teve?"
"Tive", concordou a árvore, com tristeza.
"Ah, sei que você sentia ter nascido para essa vida, tanto que não desejava que ela mudasse. Mas..." , e nesse ponto ela afagou a árvore, "todas as coisas boas, árvore querida, mesmo as coisas boas, têm seu fim."
"Essa época precisa terminar?" Indagou o pinheiro.
"Sim", respondeu o camundongo, erguendo a mão e acariciando-a novamente. "Essa época já terminou. Mas agora começa um tempo diferente. Uma nova vida, um tipo de vida diferente sempre se segue à antiga. Você vai ver."
 E os dois camundongos fizeram companhia à arvore a noite inteira. Contaram histórias e cantaram todas as músicas que conheciam. O pinheiro perguntou se os camundongos não gostariam de subir nos seus galhos para se aquecer, e eles disseram que sim, muito obrigado, e subiram. Juntos eles dormiram durante a noite escura com a grande estrela lá fora se aproximando cada vez mais da janela, quase como se soubesse de seus destinos e, com pena, lançasse sua luz ainda mias sobre eles.
Pela manhã, o pinheiro e os camundongos foram despertados abruptamente pelo ruído de passos pesados na escada, e o casal de camundongos saltou dos galhos do pinheiro. "Adeus, querido amigo. Lembre-se de nós como nós nos lembraremos de você e da sua bondade." E os camundongos correram para a fresta na parede.
A porta do sótão foi aberta com violência, e o pai, usando um gorro de lã e um sobretudo, agarrou o pinheiro e o arrastou pela longa escada abaixo, pela porta, até o quintal. Ali, deitou o pinheiro num toco velho e ergueu muito alto um machado enorme, que caiu com o mais terrível dos pesos, provocando os ruídos mais medonhos de madeira dilacerada. Com o primeiro golpe, a árvore achou que ia morrer com a dor, e antes do segundo já estava inconsciente.
Muito tempo depois, o pinheiro acordou novamente no canto da sala especial e, embora não se sentisse muito bem, parecia que lhe faltavam apenas sua copa verde e que seus braços estavam arrumados de um modo totalmente diferente, em pedaços. No entanto, viu, nas poltronas diante da lareira, o velho casal que conhecera quando chegou à casa, vindo da floresta. Eram eles que haviam banhado seu ferimento com água fresca. Ali estavam eles, bem juntinhos diante do fogo. Apesar do seu estado, o pinheiro sorriu com o amor que via entre os dois.
 O velho levantou-se e jogou um dos braços do pinheiro no fogo. Embora de início o pinheiro resistisse e protestasse, logo compreendeu, enquanto a chama queimava cada vez mais fundo no seu coração, que aquela era sua alegre missão no mundo - dar calor para pessoas como essas. Ah, ser aquecido de dentro para fora pelo amor, e de fora para dentro pelo amor de alguém como ele.
 O pinheiro ardeu então com uma força ainda maior. "Ah,nunca pensei que pudesse queimar com tanto brilho, que pudesse encher uma sala com tanto calor. Amo esse velhos com todo o meu coração." O pinheiro e todos os nós na sua madeira - e no seu cerne - explodiam de alegria nas chamas.
 Noite após noite, o pinheiro permitia essa entrega. Era tão completa sua alegria por ser útil e ter vida que ele queimou e queimou até não restar mais nada dele, a não ser as cinzas que jaziam no fundo da lareira.
Quando estava sendo varrido da lareira pelo velhos, pensou que sua vida fora gloriosa, mais do que esperara, só que agora a nada poderia aspirar.
O casal de velhos era muito cuidadoso e, com suas mãos velhas e sábias, varreu delicadamente cada fragmento de cinzas da lareira. Puseram as cinzas num saco macio e muito usado e o guardaram até a chegada da primavera.
Quando a terra começou a se aquecer, o velho e a velha trouxeram para fora da casa o saco de cinzas, entraram pelos jardins e espalharam cuidadosamente as cinzas do pinheiro por todas as videiras e também por todas as suas terras. Eles misturaram as cinzas do pinheiro ao solo. Com o tempo, quando as chuvas e o sol da primavera chegaram para ficar, as cinzas sentiram sinais de vida por baixo delas.
Aqui e acolá, por baixo, através e em volta das cinzas, surgiam minúsculos brotos verdes das entranhas do solo, e o pinheiro deu milhares de sorrisos e milhares de suspiros na sua felicidade por voltar a ser útil.
"Ai, eu não sabia que podia virar um monte de cinzas e ainda assim voltar a produzir tanta vida nova. Que sorte coube à minha vida. Cresci no isolamento da floresta. Mais tarde, que belos dias e noites de copos a tilintar, de luz de velas e cantorias eu vim a conhecer. Na minha época de solidão e carência, na mais escura das noites, tive a amizade de estranhos, como se fôssemos uma só família, ou até mais do que isso. Mesmo quando estava sendo dilacerado pelo fogo, descobri que podia emitir imensa luz e calor do meu próprio coração. Que sorte, como fui afortunado.
"Ah", suspirou o pinheiro, " de tudo que cresce, cai e cresce novamente, é só o amor pela vida nova, e apenas ele, que dura para sempre. Agora estou em toda a parte. Está vendo como vou longe?"
Naquela noite, quando a grande estrela cruzava o céu noturno do universo, o pinheiro jazia sobre a terra abençoada, aninhando-se junto às raízes e sementes para aquecê-las com suas próprias cinzas, nutrindo para sempre todas as coisa que crescem; e essas, por sua vez, nutrindo outras, que por sua vez nutririam ainda outras, por todas as gerações futuras. Naquela lindíssima terra, da qual ele vinha e para a qual agora voltava, ele dormiu bem e teve sonhos profundos, cercado ali - como um dia estivera cercado antes no meio da floresta - por aquilo que é muito maior, mais majestoso e muito mais antigo do que jamais se conheceu.

Estés,Clarissa Pínkola, O Jardineiro que tinha fé: uma fábula sobre o que não pode morrer nunca - Rio de Janeiro,: Rocco, 1996

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Conto de Natal (Parte II)

E assim continua a história de nosso amigo pinheiro...



Afinal, quando ia escurecendo, o trenó com a família e a árvore no reboque estacionou diante de um chalé coberto de neve. Um velho e uma velha saíram pela neve adentro e se aproximaram do reboque, exclamando? "Que árvore linda, linda, tão alta e tão cheia. Do tamanho exato. Perfeita."
"Ah", pensou o pinheiro, "como é bom ser bem-vindo. Eu me pergunto se este não é o lugar aonde alguns dos meus vieram ao longo dos anos. Ah, espero voltar a vê-los em breve".
 Os velhos o tiraram do reboque com mãos cuidadosas. Eles o admiraram, o afagaram, virando-o de um lado e do outro. Mergulharam o tronco cortado de árvore num balde de água fresca que aliviou grande parte de sua dor.
E quando apagaram os lampiões, o pinheiro, que amava a profunda escuridão da floresta, começou a amara também a escuridão daquela casa. Apesar de estar acostumado a ver o céu noturno inteiro, cheio de estrelas, e agora só enxergar um pedacinho de céu através de uma pequena vidraça na janela, havia uma estrela que cintilava mais do que as outras. Ao vê-la, o pinheiro pressentiu a promessa de que muito ainda estava por acontecer.
Com estes pensamentos, ele, como o restante da casa, logo adormeceu num sono profundo e feliz.
Bem cedo na manhã do dia seguinte, houve muito barulho e rebuliço com todo mundo se cumprimentando, se queixando e tagarelando. Alguém estava tirando a poeira do balde de aparas de lenha para enchê-lo ruidosamente. Os cachorros entraram latindo de alegria, seguidos pela crianças, depois a mãe e o pai, os mais velhos e também outras crianças e amigos, todos trazendo muitas caixas.
 A árvore esperava, literalmente prendendo a respiração de tanta emoção. As pessoas tiraram as tampas das caixas, e dentro delas havia enfeites de todos os formatos e tamanhos, feitos de vidro finíssimo. Havia guirlandas de frutinhas e velas com pequenos papeis coloridos em copinhos de vidro.
Em toda a sua volta, a árvore foi adornada e enfeitada com esses objetos. E depois, que maravilha! Dezenas de velas foram acesas, uma após a outra,e arrumadas em círculos e espirais até os galhos mais altos, deixando o pinheiro em glórias absoluta.
"Ah, isso é tudo o que os mais velhos lá na floresta descreviam, e muito mais", exclamou o pinheiro. Ele fez um esforço enorme para esticar ainda mais os seus galhos enquanto procurava ficar o mais bonito possível. as crianças gritavam e corriam ao redor, enquanto outros tocavam e cantavam; ah, que alegria, especialmente quando uma linda criança, erguida pelo avô, colocou uma estrela de papel no ponteiro bem no alto da árvore.
Naquela noite, depois que as crianças dormiram e o pinheiro cochilava, enquanto o brilho da grande estrela entrava pelas janelas, os mais velhos entraram furtivos na sala com presentes embrulhados em papel pardo liso e bonito, enfeitado com retalhos de pano que eles haviam unido com uma linha colorida de bordar. No consolo da lareira, puseram cavalinhos, porquinhos, patinhos e vaquinhas feitos de maçãs e laranjas, com gravetos enfiados no lugar das pernas, e olhos e focinhos esculpidos de modo a parecer que estavam sorrindo. E todos foram feitos com mãos cheias daquele tipo de amor que deseja surpreender e agradas as criancinhas.
Pela manhã, a árvore acordou sobressaltada quando as crianças entraram correndo, gritando e exclamando: "Ah, olhem como a árvore está linda, e os presentes ali embaixo". E elas abriram os embrulhos e exibiam belas bonecas de trapos com densas cabeleiras castanhas de lã e vestidos de crochê, feitos a mão. Em seguida, desembrulharam carroças feitas de restos de madeira com rodinhas que giravam de verdade.
Elas arrancaram as castanhas do pinheiro, e a árvore farfalhava os galhos, feliz por participar de tudo com que havia sonhado e muito mais.
Mais tarde, as crianças tiravam uma soneca no tapete e os adultos também cochilavam. Até mesmo os cães e os gatos estavam adormecidos, a sonhar. E o pinheiro refletia sobre seu destino incrível e sobre todos os acontecimentos do dia. Estava felicíssimo.
Naquela noite, quando todos estavam na cama e roncando baixinho - o cão e o gato, assim: zzzzzz; as crianças, assim: zzzzzzz: a mãe, o pai e os mais velhos, assim: ZZZZZZ - a árvore dormia profundamente e sonhava dom sua nova vida.
No dia seguinte e no outro, a árvore continuou orgulhosa na sala, embora estivesse um pouco desarrumada por ter todas as fitas arrancadas e porque sua estrela estava meio caída sobre um dos seus olhos. Apesar disto, tudo estava uma glória mesmo quando o pinheiro viu que a maioria das crianças e dos adultos subia nos trenós e ia embora. "Ora, estarão de volta hoje à noite", pensou o pinheiro, " e então vão mais uma vez pôr meu tronco machucado numa água fresca e nova. Vão me decorar de novo e a festa vai recomeçar".
O pai entrou então, com passos pesados, e tirou todos os enfeites do pinheiro, guardando-os em caixas com camadas de enchimento de algodão. Depois, tirou a árvore da água e a sacudiu com tanta força que qualquer outra coisa que pudesse estar escondida nos galhos cairia ao chão. ele deixou as guirlandas de frutinhas secas na árvore e a arrastou da sala.
O pinheiro apesar de surpreso com este tratamento grosseiro, ainda estava esperançoso." Ah, eu me pergunto para que sala iremos agora." Ele imaginou todo o processo jubiloso da decoração, das crianças dançando e de todos cantando, e suspirou ao pensar nisso tudo.
O pai, no entanto, arrastou de maneira descuidada o pinheiro pela escada de madeira acima, que não parava de subir e cujos degraus iam se estreitando cada vez mais quanto mais eles subiam. E afinal, no patamar mais alto, o pai abriu uma pequena porta e, sem-cerimônia, jogou a árvore lá dentro. A árvore exclamou alarmada no que lhe pareceu um grande grito: " Que tipo de escuridão é esta?" Mas a verdade é que ninguém pareceu ouvir, pois o pai fechou a porta e desceu de volta pela escada.


Continua....


Estés,Clarissa Pínkola, O Jardineiro que tinha fé: uma fábula sobre o que não pode morrer nunca - Rio de Janeiro,: Rocco, 1996

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Um conto de Natal (parte I)

Chega o Natal . Compras. Pressa. Gente querendo driblar os desafetos e as mágoas nas comemorações  em família. Insatisfações...
Esquecido é mesmo o suposto aniversariante. Bem sabemos que Jesus não deve ter nascido no solstício de inverno. Muitas festas pagãs eram celebradas nesta data e resolveram sobrepor uma mitologia a outras. Certo é que este é um nascimento que mudou o mundo. Como diria Gabriel: " O que era não será mais!" Da prática de arrancar dentes e olhos poderíamos dar a outra face. No sussurro que o Arcanjo fez no ouvido da menina Maria estava contida toda uma jornada. Dizem que a ela foram reveladas naquele sussurro a vida e a morte do Filho. Sim, porque não há sentido no Natal sem a Páscoa. Vida e Morte de um Ser Sagrado. Pena que tão soterrado pela tradições, assim ditas, cristãs.
Clarissa Pínkola resgata neste conto esta ligação de vida, sacrifício, morte e eternidade que, se nos aprofundarmos, se revela no mito do Natal.







Era uma vez, há muito, muito tempos, na época em que os bichos ainda falavam e os humanos conseguiam entender a língua dos animais, um pinheirinho que, embora pequeno em estatura, era imenso em espírito.
Ele vivia nas profundezas de uma floresta cercado de árvores muito majestosas e mais antigas do que qualquer árvore jamais conhecida até então.
A cada inverno, pais, mães e seus filhos penetravam na floresta em velhos trenós de madeira. Com muita felicidade e animação, eles cortavam algumas das árvores de tamanho médio e as levavam embora. Os cavalos veneráveis que puxavam os trenós resfolegavam, e os sinos nos seus arreios retiniam. O riso da crianças e dos adultos ecoava pelo bosque inteiro.
Ah, sim, o pinheirinho ouvira sussurros entre as árvores mais velhas, as que eram altas demais e grandes demais para serem derrubadas pelo machado e arrastadas dali - é, ele ouvira a história de que as árvores cortadas eram levadas para um lugar maravilhoso, chamado casa.
Ali, eram tratadas com o máximo respeito, afagadas por muitas mãos e postas numa água que lhes aplacava a dor. Depois, ao que se dizia, uma família inteira de pessoas sorridentes se reunia ao seu redor. Elas enfeitavam a árvore com objetos pequenos e lindos: pequenos globos feitos de fita com amêndoas dentro, doces e outras guloseimas. Velinhas esplêndidas eram acesas e colocadas nos galhos e ramos da árvore. Finalmente, decorada com balas, guirlandas de frutas e às vezes até enfeites de vidro e minúsculos espelhos coloridos, a árvore se tornava o convidado mais  reverenciado da casa. Era de fato uma das glórias masi magníficas que se poderia um dia conceder a uma árvore
Entre as árvores mais velhas que conheciam esses assuntos, dizia-se que essa era, para os humanos envolvidos uma época de enorme alegria, pois lindas criancinhas vinham cantar, o fogo ardia em cada lareira e mesmo as estrelas no céu pareciam brilhar ainda mais.
De acordo com a descrição das mais velhas, em toda a parte moças e rapazes podiam ser vistos apressando-se e carregando para o salão o alimento que tivessem para compartilhar com todos. As velhas usavam seus melhores aventais brancos. Os velhos, seus melhores ternos e chapéus pretos. E todas as mulheres usavam seus melhores vestidos pretos. Todos os meninos usavam calças que sempre davam coceira, e as meninas, saias perfeitas para ensaiar mesuras. Ah, tudo aquilo parecia perfeitamente maravilhoso. E era com isso que o pinheirinho sonhava.
Ano após ano, ele esperava que o verão passasse, que o outono chegasse e afinal viesse a beleza do inverno. Quando sentia o frio cortante dos ventos, se alegrava. Ficava então felicíssimo no seu belo manto verde que se enchia mais e mais a cada ano que passava. E, também, a cada ano, no inverno, os trenós vinham e cortavam as árvores novamente, enquanto as crianças brincavam e faziam bonecos de neve com formato de anjo nos grandes montes acumulados pelo vento.
Apesar de o pinheirinho ser tímido, ele não conseguia se conter e a cada ano gritava com mais atrevimento: " Venham me escolher! Olhem para mim! Adoro crianças. Adoro essa comemoração fabulosa. Olhem para mim! Por favor! Venham me escolher!"
 Ano após ano, porém, ninguém o escolhia. Logo muitas árvores  haviam sido retiradas da floresta ao seu redor. Agora o parente mais próximo estava a uma boa distância, e o pinheirinho estava bastante só, mas também em pleno sol e assim ele foi crescendo, crescendo, até ficar muito mais alto do que antes.
No inverno seguinte, voltaram os cavalos puxando um trenós com o pai, a mãe e crianças risonhas. Os cavalos empertigados passaram direto pelo pinheirinho, pois o pai estava avaliando um denso aglomerado de árvores mais ao longe. "Espere", gritou uma das crianças, "aquele ali atrás, aquele sozinho." E o pinheirinho começou a tremer de esperança.
"Ah, isso mesmo! Cheguem mais perto! Olhem para ima! Por favor! Venham me escolher!" O pinheirinho se esforçava para ficar mais reto e mais alto. E a família deve ter ouvido o que dizia, pois o trenó parou, os cavalos deram meia-volta e logo a família estava abrindo caminho na neve espessa para examinar a árvore.
"Ah, olhem como os galhos são cheio de vida", exclamou uma criança que tinhas as bochechas perfeitamente rosadas. "Ah, vejam como essa árvore está verde e vigorosa", disse a mãe. "É", respondeu o pai, "essa aqui não parece nem alta, nem baixa demais, está perfeita para nós."
E o pai apanhou seu machado no trenó. Com o primeiro golpe, o pinheiro sentiu a maior dor de toda a sua vida. " Ai", gritou a árvore, "vou cair". E nesse exato momento , ele desmaiou. O machado continuou os golpes até que a árvore fosse separada da sua raiz, derramando grande quantidade de neve ao tombar.
Muito mais tarde, o pinheiro voltou a si no reboque que vinha dançando atrás do trenó. Tilintavam os sininhos nos arreios dos cavalos, e o pinheiro ouvia a conversa e o riso das pessoas. A dor mais terrível parecia estar passando agora; além disso, ele tinha uma vaga lembrança de que estavam indo a alguma parte, a algum lugar importante, lindo e maravilhoso, a um lugar que ele havia desejado ver todos os dias e todos os anos da sua vida passada.

Continua....

Estés,Clarissa Pínkola, O Jardineiro que tinha fé: uma fábula sobre o que não pode morrer nunca - Rio de Janeiro,: Rocco, 1996

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O Paraíso é aqui

Há tempos li um livro de um psicoterapeuta italiano falando sobre a arte de ser gentil . Gosto do tema e achei a abordagem interessante. Ainda mais que o autor recheia a obra de pequenas histórias ilustrativas. Gentileza gera gentileza já dizia o profeta...



Uma história judaica


Conta, uma história judaica, que existia um homem que era oprimido por sua família. Sua mulher o tiranizava e atormentava. Seus filhos riam dele. Ele se sentia uma vítima e pensava que havia chegado a hora de partir e encontrar sua doce Jerusalém: o Paraíso. Depois de muito procurar, ele conhece um velho sábio que lhe ensina em detalhes como chegar lá: você tem de andar por muito tempo, e acabará chegando. O homem se põe a caminho. Caminha o dia inteiro e, à noite, exausto, pára numa hospedaria para dormir. Metódico, ele decide, antes de dormir, deixar os sapatos apontando na direção do Paraíso, para garantir que irá acertar o caminho na manhã seguinte. Mas durante a noite, enquanto dorme, um diabrete travesso entra no quarto e vira os sapatos na direção contrária.
Na manhã seguinte, o homem acorda e se põe a caminho, desta vez na direção oposta à do dia anterior - voltando assim ao ponto de partida. À medida que avança, o cenário vai ficando cada vez mais familiar. Ele chega à cidadezinha em que sempre viveu, mas acredita piamente ser o Paraíso.  "Como o Paraíso é parecido com a minha velha cidade!" Mas, já que é o Paraíso, ele se sente bem ali, e gosta imensamente de tudo. Ele vê sua velha casa, que ele agora imagina ser o Paraíso: " Como se parece com minha velha casa!" Mas, já que se trata do Paraíso, ele a considera muito agradável. Sua esposa e filhos falam com ele: "Como se parecem com minha mulher e meus filhos! Aqui no Paraíso tudo lembra o que foi minha vida" Porém, como é o Paraíso, está tudo bonito. Sua esposa é uma pessoa encantadora , seus filhos são fabulosos - todos cheios de qualidades que ele, em sua vida, jamais suspeitaria que existissem. "Estranho, aqui no Paraíso tudo lembra em detalhes o que era minha vida, e no entanto tudo está completamente diferente!"

Ferrucci, Piero, A Arte da Gentileza - Rio de Janeiro, Elsevier, 2004

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O louro esperto...

As histórias sufis nos trazem ensinamentos que poderíamos levar anos de estudo para  obter. Basta abrir-se e ouvir...






O Mercador e o Louro

Era uma vez um mercador que mantinha um papagaio preso em uma gaiola. Quando estava para ir à Índia, em uma viagem de negócios, ele disse ao pássaro:
- Eu estou indo à sua terra natal. Você tem alguma mensagem pata os seus parentes selvagens?
- Simplesmente diga a eles - disse o papagaio - que estou vivendo aqui em uma gaiola.
Quando o mercador retornou, falou ao papagaio:
- Eu sinto dizer que tão logo encontrei os seus parentes selvagens lá na floresta e os informei de que você estava engaiolado o choque foi muito forte para um deles. Assim que ouviu a notícia,caiu do galho onde estava e não tenho dúvidas de que morreu de tristeza.
Imediatamente, assim que o mercador terminou de falar, o papagaio teve um colapso e caiu inerte no chão de sua gaiola.
Penalizado, o mercador tirou o papagaio da gaiola, colocando-o do lado de fora, no jardim. Então o papagaio, tendo captado a mensagem, levantou-se e voou para fora do alcance do mercador.


Histórias da Tradição Sufi- Rio de Janeiro: Edições Dervish- Instituto Tarika, 1993

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O Criado do Príncipe de Bokhara

Contar histórias, para mim, é uma necessidade. Sempre digo que elas se comportam como entidades, só se manifestam quando querem. Não adianta querer contar esta ou aquela para fazer bonito. A história tem que se mostrar em toda a sua grandeza e beleza indo além da performance do contador. Assim ela toca e faz alma. Esta apareceu hoje por aqui...


O CRIADO DO PRÍNCIPE DE BOKHARA

O Príncipe de Bokhara tinha um criado que, com medo de ser castigado por uma falta que cometera, afastou-se e permaneceu escondido no  Kuhistão, no deserto, durante dez anos. Findo este período, incapaz de suportar por mais tempo a falta de seu senhor e de seu lar, decidiu voltar para Bokhara, ajoelhar-se aos pés do Príncipe de Bokhara e submeter-se a qualquer castigo que este quisesse infligir-lhe. Seus amigos fizeram o possível para dissuadi-lo, afirmando-lhe que a cólera do príncipe ainda não abrandara, e que se aparecesse em Bokhara seria condenado à morte ou atirado na prisão pelo resto da vida.
- Ó conselheiros, calem-se - disse ele - A força do amor que me conduz a Bokhara é mais forte do que seus conselhos de prudência. Quando o amor nos impele para algum lugar toda a sabedoria do m undo é impotente para vencê-lo. Se agradar ao meu senhor matar-me, entregarei minha vida a ele sem pena, já que a separação daquele a quem irei procurar agora é o mesmo que a morte, e a libertação que dela virá será minha eterna felicidade. Voltarei a Bokhara, lançar-me-ei aos pés do meu senhor e direi: " Faze comigo o que quiseres. Não posso mais aguentar tua ausência, e para mim a vida ou a morte em tuas mãos são a mesma coisa".
Coerente com seu pensamento, iniciou a viagem de volta a Bokhara, considerando doces e deliciosos a fadiga e os desconfortos da viagem, porque eram passos que dava em direção ao lar.
Quando chegou a Bokhara, amigos e familiares preveniram-no para que não se deixasse ver, pois o príncipe ainda não esquecera sua ofensa e o castigaria. Porém ele lhes respondeu da mesma forma que respondera a seus conselheiros anteriores: que agora sua vida lhe era completamente indiferente, e que resolvera submeter-se à vontade de seu senhor. Dirigiu-se à corte e arrojou-se aos pés do príncipe, desmaiando.
Vendo o amor que seu criado arrependido sentia por ele, o príncipe sentiu amor igual. Desceu do trono e, com clemência, fê-lo levantar-se do chão e perdoou sua falta. Desse momento em diante ambos viveram em harmonia para sempre.

Histórias da Tradição Sufi- Rio de Janeiro: Edições Dervish- Instituto Tarika, 1993

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A joia preciosa

Ontem eu e minha querida amiga, Bia del Picchia, fomos a um Encontro aberto com o Sheik Sufi Ismail Çimen, onde ele falou a respeito do sufismo, executou músicas místicas sufis e conduziu um dhiker, repetição dos nomes de Deus. Experiência interessante e tocante para mim, que há anos conto histórias desta tradição. Histórias que trazem ensinamentos de um caminho sagrado de busca do encontro com o Sublime. Ouvir este homem tão doce falar de assuntos profundos com tanta simplicidade me fez lembrar desta história em especial, cuja mensagem traz à memória outro mestre que sempre diz: " Prabhu Ap Jago!" Acordem!

A Joia preciosa

Num longínquo reino de perfeição, um rei poderoso e justo tinha uma esposa e duas crianças maravilhosas, um filho e uma filha.
E todos viviam em grande felicidade.
Um dia o pai chamou os filhos para junto de si e lhes disse:
- Chegou para vocês, como chega para todos, o momento em que deverão partir em direção a um outro mundo, a uma distância infinita. Lá vocês irão procurar uma joia preciosa, e assim que a encontrarem voltarão, trazendo-a com vocês.
 Cercados de grande segredo, os viajantes foram levados a uma nova e estranha terra onde quase todos os habitantes viviam na obscuridade e na noite de seu sono.
 O choque foi tão grande que o irmão e a irmã se separaram, perderam progressivamente o contato entre eles,e logo esqueceram tudo sobre sua origem.
Como os demais habitantes daquele país, eles iam de um lado para o outro, dormindo profundamente.
De tempos em tempos, sonolentos, viam sombras, miragens distantes do país de onde tinham vindo, ou então sonhavam com uma joia.
Mas na condição em que se encontravam eram incapazes de lembra-se da realidade, e pouco a pouco foram tomando os sonhos por ilusões.
Quando o rei tomou conhecimento disso, considerou a difícil situação em que seus filhos se encontravam e decidiu mandar um servidor de confiança para ajudá-los.
Este era um sábio e levou-lhes uma mensagem:
"Lembrem-se da missão de vocês; acordem do sono em que submergiram e  fiquem unidos."
Logo que ouviram a mensagem as duas crianças acordaram.
Graças à ajuda do guia enviado para libertá-las, elas puderam vencer os grandes perigos que ainda as separavam da joia preciosa.
Quando a encontraram as crianças voltaram para o reino da luz.
E lá foram mais felizes do que antes, e para sempre.


Histórias da Tradição Sufi- Rio de Janeiro: Edições Dervish- Instituto Tarika, 1993

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O rabino sábio

A busca espiritual não é uma empreitada das mais tranquilas. Conhecimentos adquiridos, em qualquer tradição, apenas intelectualmente podem transformar-se em mero instrumento de poder. Segue uma pequenina história que ilustra bem este equívoco.



Um jovem acabara de completar seu treinamento espiritual e estava ansioso para tornar-se mestre. Mudou-se para uma nova cidade, onde tentou ensinar. Mas ninguém aparecia para ouvi-lo. O único movimento espiritual da cidade parecia ser os muitos seguidores de um rabino de um rabino sábio e bem conhecido. Frustrado, o jovem concebeu um plano para desmoralizar o velho mestre e obter alunos para si.  Capturou um pequeno pássaro e foi até onde o mestre ensinava, rodeado de seus discípulos. Segurando o pequeno pássaro na mão, dirigiu-se diretamente ao mestre.
- Se  és tão sábio, diz-me agora: este pássaro em minhas mão está vivo ou morto?
Seu plano era o seguinte: se o mestre dissesse que o pássaro estava morto, ele abriria as mãos, o pássaro sairia voando, o erro do mestre ficaria patente e os alunos deixariam de procurá-lo; se o mestre dissesse que o pássaro estava vivo, ele rapidamente o esmagaria nas mãos e, abrindo-as, diria: " Veja, o pássaro está morto". Novamente o mestre se revelaria equivocado e o jovem obteria seus alunos.
O jovem, confiante em si, sentou-se diante do mestre exigindo uma resposta.
- Se és tão sábio, diz-me agora: este pássaro em minhas mão está vivo ou morto?
O mestre olhou para ele com grande compaixão e disse apenas:
- Realmente, meu amigo, isto depende de você.


Histórias da alma; Histórias do coração: parábolas e narrativas do caminho espiritual e na contemporaneidade. São Paulo, Pioneira, 1994.
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