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segunda-feira, 11 de julho de 2011

EU quero você como EU quero

Lembrando daquele filme emblemático sobre a relação entre a música e nossas aventuras e desventuras amorosas, "Alta Fidelidade", com John Cusack e o Jack Black, começando a por as manguinhas de fora, passei a prestar mais atenção às letras da maioria das canções que tocam no rádio. (Sim, eu sou uma daquelas neolíticas que ainda ouvem muito este antigo e ultrapassado aparelho que sempre me surpreende com possibilidades há muito relegadas ao esquecimento). Uma velha canção, muito popular, do Kid Abelha, chamou-me, em especial, a atenção: "Como eu quero".
Parece ser o hino de muitas de nossas relaçoes: EU quero você, mas não do jeito que é, mas do jeito que EU quero. Para isso posso fazer qualquer coisa para melhorar meu suposto objeto amado e transformá-lo naquilo que acredito ser mais adequado aos meus olhos e principalmente para que todos vejam o quanto sou poderosa. 
Por mais caricatural que pareça, esta história se repete infinitamente nas relações e causa muito desperdício de energia e brigas sem fim. 
Conhecer-se não é nada fácil. Transformar-se para se sentir mais confortável, complicado. Encontrar alguém a quem nos dispomos a conhecer profundamente e aprender a compor juntos um novo quadro que contemple também as diferenças, tarefa árdua e nada romântica. Talvez por isso as pessoas prefiram seguir nas intermináveis cruzadas de querer mudar e dominar o Outro. Frustração garantida e permanente!


Como Eu Quero

Kid Abelha

Composição: Leoni e Paula Toller
Diz prá eu ficar muda
Faz cara de mistério
Tira essa bermuda
Que eu quero você sério...
Tramas do sucesso
Mundo particular
Solos de guitarra
Não vão me conquistar...
Uh! eu quero você
Como eu quero!
Uh! eu quero você
Como eu quero!...(x2)
O que você precisa
É de um retoque total
Vou transformar o seu rascunho
Em arte final...
Agora não tem jeito
Cê tá numa cilada
Cada um por si
Você por mim e mais nada...
Uh! eu quero você
Como eu quero!
Uh! eu quero você
Como eu quero!...
Longe do meu domínio
Cê vai de mal a pior
Vem que eu te ensino
Como ser bem melhor...
Longe do meu domínio
Cê vai de mal a pior
Vem que eu te ensino
Como ser bem melhor...
(Bem melhor!)...
Uh! eu quero você
Como eu quero!
Uh! eu quero você
Como eu quero!...(2x)
Uh! eu quero você
Como eu quero!
Uuuuuuuuuuhhh!
Uuuuuuuuuuhhh!...


segunda-feira, 27 de junho de 2011

Cenas de um casamento


Ela o conheceu na balada. Parecia um cara legal. Tratou logo de numa conversa rápida e entrecortada pelo som altíssimo e dançante descobrir mais sobre o moço. Ele se encantou imediatamente com aquela menina tão divertida e descolada. Marcaram um novo encontro para fazer uma trilha no domingo. Ela,  que odiava acordar tão cedo e detestava mato, apareceu radiante e entusiasmada pela aventura. A partir desse dia não mais se largaram. Ela topava absolutamente tudo e corriam desenfreados pelo mundo na possante moto que ele tanto amava. Bebiam, dançavam, faziam amor e se divertiam a valer. Ela, sempre de olhos brilhantes, era toda elogios a ele, que se sentia o dono do mundo.
Até que depois de um tempo decidiram que não queriam mais viver longe um do outro e resolveram se casar. Estranhamente ela fez questão de todos os trâmites: cartório, igreja cheia, limousine, véu e grinalda, buffet carésimo e lua de mel em...New York. Ele começou a achar um tanto esquisito, mas assim que ela olhava com aqueles olhos...cedia.
Começaram a vida nova no apartamento duplex com varanda que o pai dela lhes dera como presente de casamento. Daí como num passe de mágica de alguma bruxa cruel, tudo passou a ser muito diferente. Todos os dias ela lhe fazia discursos de como ele era largado, sem ambição e precisava assumir responsabilidades como adulto. Queria que abandonasse seu trabalho sem futuro e fosse buscar uma colocação nas empresas de seu pai. Nunca mais quis subir naquela moto imprestável e confessou que detestava trilhas, matas e afins.
Ele, perplexo, resistia pacificamente. A nada respondia, apenas continuava a fazer o que sempre fizera. Isto a exasperava ao máximo. 
Resolveu ela que era chegada a hora de terem filhos,pois esperava que ele, com esta responsabilidade, enfim "crescesse" .Ele que sempre quisera ser pai, aquiesceu imaginando que a gravidez poderia fazer com que ela voltasse a ser a mulher adorável que um dia conhecera. Ledo engano. Parecia possuída por um mau espírito e sua exigências descabidas cresciam mês a mês. Sexo, nem pensar. Nascido o bebê, ele passou a se sentir invisível. A nova mãe apenas se dirigia a ele para cobrar cuidados com o pequeno. Isto passou ele a fazer com prazer, apesar dela nunca ficar satisfeita.
E a vida segue assim, ele esperando que ela volte a ser quem conheceu naquela distante balada, ela tentando arduamente transformá-lo num homem digno de compor sua imagem perfeita de família feliz.
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