Era um dia comum. Ela se levantou como sempre fazia. Desavisada caminhou pelas tarefas costumeiras. Desconhecia a aproximação da morte que lhe visitaria duplamente, seguia feliz pela quarta-feira luminosa. Até que a notícia chegou e teve de correr para socorrer a irmã que perdera o amado. Triste via crucis de quem vai enterrar alguém tão querido. Mas a vida continuava e muito havia a resolver. Não podia sequer imaginar que no dia seguinte perderia também seu único irmão, aquele que tanto a amara e tanto a odiara. Caiu a noite deste dia tão funesto e em meio às sombras ele surgiu com seus olhos brilhantes. Trouxe consigo o aroma dos eucaliptos e das matas. Trouxe vida e trouxe dor. Fez-se noite e madrugada do resto de seus dias... Ela, nem se lembra do que um dia foi.
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segunda-feira, 16 de abril de 2012
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Para quem chegou anunciada...
Na maioria das vezes não sabemos quando uma pessoa importante vai chegar às nossa vidas. Grandes amigos, amores eternos aparecem sem avisar. Mas existem alguns que são anunciados por anjos, profecias ou exames de laboratório. Assim aconteceu comigo: andava meio desligada e fiz um daqueles exames que o médico indica quando você acorda com enjoo dias seguidos. Positivo. Iria chegar alguém. Alguém que já tinha sido sonhado desde muito. Na época não era tão comum se fazer ultrassom e portanto ninguém sabia se ia vir uma menina ou um menino. Decidimos que seria menino: Thiago . Compramos todo um enxoval tendendo para o amarelo - vai que a gente erra - mas decididamente com muitas roupinhas azuis. Eu parecia em estado puro de graça. Era a Deusa gestando a criança sagrada.
E os meses se passaram, o dia do parto a se aproximar e o terror se abateu sobre mim. Imaginava todas as formas possíveis daquele ser vir à luz. Não conseguia aceitar nenhuma delas. Numa madrugada de domingo vieram as dores e a correria para se chegar ao hospital. Foi uma das experiências mais profundas que já tive: o mais sobrenatural e o mais primitivo de mãos dadas. E lá estava ela: Rebeca! Nome dado pelo pai por amar a mulher do Daniel Boone num seriado de sua infância. Com olhinhos vivos a me fitar. Eu, encantada com tão minúscula criatura. Família deslumbrada com a primeira neta.
E o bebê tranquilo cresceu e deu lugar a uma menininha meio enfezada, meio mandona, quase uma Mônica sem Sansão. Veio a adolescente de roupas pretas amando heavy metal e tocando guitarra. Até que se fez a mulher bela, talentosa, com uma eterna pitada de autoridade que sempre assusta os incautos. Aquariana arretada como a bisavó parece nada temer e se lança a novas aventuras de viagem ou de trabalho sempre que o desafio se manifesta. Até hoje ama o amarelo e desde sempre detesta o rosa...
sábado, 12 de novembro de 2011
A Mitologia dança
Há alguns anos, estava eu numa tarde de quinta ainda em casa, quando recebi uma mensagem pelo meu bip (faz tempo mesmo) anunciando um evento no Sesc Consolação, que fica ao lado de onde moro: " Eu sou mais Zeus", Mitologia e Dança. Parecia uma revelação dos próprios deuses...
Lá fui e encontrei uma figura que haveria de mudar minha vida. A professora que conduziu aquela oficina era uma loirinha baixinha e me pareceu bem excêntrica. Muito interessante. Levei minha filha, que assim que chegou me pediu que não a fizesse pagar o mico de me ver subir no palco e dançar. Assim que Ana Figueiredo, este era o nome da mestra, pediu eu dei um pulo da cadeira e fui, disposta totalmente para o que desse e viesse. Minha filha , é claro, foi embora.
Hoje não consigo lembrar a dança em si, mas a sensação de ter encontrado uma parte de mim que se perdera, sem sequer eu saber. Pedi o telefone da professora e tempos depois comecei a ter aulas com ela. Aulas diferentes de tudo o que imaginava. A técnica era a de Isadora Duncan, dançar a partir do plexo solar. Exigia consciência corporal profunda e para mim isto sempre foi bem difícil. Ainda mais porque Ana produzia metáforas a partir de diversas mitologias e tínhamos tais imagens como ponto de partida para nossas improvisações. Tudo com o pano de fundo do feminino e da Deusa. Tempos de muita descoberta e ampliação... Até um espetáculo de dança e gesto fizemos.
Para arrematar Ana me introduziu num grupo de estudos da obra de Joseph Campbell chamado "Mythologycal Roundtable" em que estudávamos , discutíamos e ritualizávamos aspectos das mitologias à luz deste mitólogo maravilhoso. Neste grupo conheci pessoas que seriam importantíssimas para minha caminhada como Bia e Cris do http://www.ofemininoeosagrado.blogspot.com/ e outras tantas pelas quais tenho admiração e afeto.
Existem pessoas portais que abrem o caminho para que cheguemos mais perto de nós mesmos e daquilo que viemos fazer. Ana foi um destes maravilhosos portais...Gracias, minha querida!
terça-feira, 14 de junho de 2011
Para meu personagem russo predileto
Era uma noite muito fria. Há dias eu vinha tendo contrações, ía para a maternidade e nada. O pequeno não queria sair do quentinho de jeito nenhum. Enfim, nesta gélida madrugada ele resolveu que chegara a hora e se chegara a hora deveria ser o mais rápido possível. Uma corrida louca até o Hospital, todos preocupados que nascesse no carro. Eu tentava acalmar minha tia, mas sabia que já estava nas últimas contrações. Na maternidade, uma balbúrdia de médicos agitados, macas e luzes. Foram apenas noventa minutos de trabalho de parto, nem tive como trocar de roupa e lé estava ele, olhinhos azuis brilhantes a me fitar. " Foi assim como ver o mar"...
Geminiano falante e apressadinho, cresceu criando mundos e teorias múltiplas. Certo dia, cansado de só falar línguas mais comuns resolveu que queria aprender algo diferente: russo. Assim fez. Virou praticamente um russo legítimo. Queria tocar bateria, não tinha uma, contruiu com Tuperwares de diferentes tamanhos, os tons e com listas telefônicas, os pedais. Em pouco tempo saía um som interessante. Até que ganhou uma de verdade e acabou com os ouvidos de todos no prédio com sua banda de Metal.
Um dia ainda pequeno, ia pela primeira vez dormir na casa de um amiguinho. Eu, mãe um tanto dramática, lhe disse: " Você vai me deixar aqui?" ao que ele respondeu do alto de seus cinco anos: "Mãe, eu vou mais eu volto e assim será a vida toda. Eu sempre volto porque sou seu filho". E assim ele fez e faz...
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Um genial geminiano...
Amo geminianos. Talvez sejam minha sina. São inteligentes, divertidos e sobretudo imprevisíveis. O primeiro que me enfeitiçou não conheci pessoalmente dadas as circunstâncias, foi também o mais genial: Fernando Pessoa. Nasceu e morreu em Lisboa. Viveu apenas 47 anos, mas alargou em muito nossas possibilidades de contemplar o mundo e a vida. Criou vários heterônimos, os quais desenvolveram estilos próprios e estranhamente diversos.
Quando adolescente apaixonei-me intensamente por Álvaro de Campos e sua inquietação torturada. Vivia de "Tabacaria" e "Lisbon Revisited". Fazia eco à minha crescente descoberta das complexidades do mundo adulto. Álvaro dizia no começo de "Tabacaria":
Eu me identificava plenamente e me sentia traduzida. A irritação exasperada me compunha à época.
Passaram-se os anos e outro geminiano me apresentou Caieiro num passeio pela natureza. Encantou-me a contemplação muda e silenciosa dos vales, rios, montanhas e girassóis. Sabedoria e simplicidade a andar de mãos dadas. Nova compreensão do Sagrado se descortinou para mim, para além do pensamento. Num poema do Guardador de Rebanhos fala sobre felicidade e infelicidade...
| Se eu pudesse trincar a terra toda E sentir-lhe uma paladar, Seria mais feliz um momento ... Mas eu nem sempre quero ser feliz. É preciso ser de vez em quando infeliz Para se poder ser natural... Nem tudo é dias de sol, E a chuva, quando falta muito, pede-se. Por isso tomo a infelicidade com a felicidade Naturalmente, como quem não estranha Que haja montanhas e planícies E que haja rochedos e erva ... O que é preciso é ser-se natural e calmo Na felicidade ou na infelicidade, Sentir como quem olha, Pensar como quem anda, E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre, E que o poente é belo e é bela a noite que fica... Assim é e assim seja ... |
Pessoa se repartiu em vários, dizem que entre pseudônimos, heterônimos,semi-heterônimos, personagens fíctícios e poetas mediúnicos chega-se a 72 nomes. Este sim foi um representante digno de seu signo...
quarta-feira, 1 de junho de 2011
Casei-me com um vulcano
Numa tarde distante de minha adolescência estava num grupo de jovens um tanto distraída...Um dos rapazes começou a escrever letras gregas num quadro negro. Fiquei encantada. Que caracteres seriam aqueles? Com seu eterno ar professoral, o jovem acertou seus óculos e me deu uma aula de grego. Como desde sempre amei mitologia queria aprender mais e mais.
Logo descobri que o tal rapaz tinha muitos outros talentos: pintava quadros maravilhosos, jogava xadrez como poucos, discorria maravilhosamente sobre qualquer assunto. Infelizmente, era meio retraído diante de estranhos e tinha muitas outras manias esquisitas. Declarou-se em algum momento um parente daquele ser de orelhas pontudas da série que então fazia sucesso na Tv, o Spock. Acreditava-se um vulcano.
Depois de um pedido desajeitado de namoro, onde enumerou todas as possíveis dificuldades que passaríamos juntos, começamos uma longa jornada. Erramos e acertamos , tivemos dois filhos incríveis, nos entendemos e nos desentendemos muitas vezes. Foram muitos os desencontros que por fim nos separamos e seguimos nossos caminhos.
Entretanto nossos destinos pareciam ter sido ligados pelos deuses, talvez os gregos mesmos, e depois de vários percalços resolvemos nos casar de novo. Numa cerimônia meio hindu refizemos nossos votos diante dos amigos e dos filhos. Ele continua disputando o armário com os gatos para se esconder quando chega alguma visita e adorando séries com extraterrestres na Tv. Hoje tenho plena certeza de que casei-me com um vulcano. Talvez também não seja tão terráquea assim...
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Para quem me fez

Quando pequena a cada vez que minha avó dizia numa história a famosa frase de um ser poderoso e terrível: " Estou sentindo cheiro de carne humana!", porque teria algum visitante indesejado escondido, eu sempre visualizava minha tia. Para mim, ela aparecia forte, destemida, gigantesca até. Uma força da natureza como o Sol, a Lua ou o Ventos dos contos de minha avó. Ariana arretada, dizia o que queira e se molestava profundamente ao ouvir o que não queria. Briguenta e rabujenta, porém adorável.
Amava livros e tinha uma estante de onde eles pareciam brotar renovados. Sempre disponível para colos , histórias e jogos. Jogos que ela criava e mudava as regras de acordo com sua vontade, o que gerava uma infinidade de discussões. Cantava cantigas de ninar à beira de minha cama, até eu adormecer. Coração pleno de muito amor que destinou exclusivamente à família. Nunca namorou, nem se soube de nenhuma história de amor. Eu sempre suspeitei de uma grande desilusão, nunca confirmada.
Histórias tinha sobre futebol. Sabia a escalação dos times desde a eternidade. São paulina convicta, assistiu aos dois títulos mundiais como uma calma e confiança impressionantes. Amava programas esportivos e suas intermináveis discussões. Deixou herdeiros.
Evangélica às antigas, daquelas que honram a palavra e se mostram impolutas. Tinha uma fé que permeava todas as suas ações. Por duas vezes enfrentou assaltantes por crer que Deus a iria livrar. E livrou.
Ambígua, complexa, incoerente e muitas outras definições que só um bom exemplar de ser humano pode carregar. Grande mulher que no seu tempo abriu caminho por entre os irmãos machistas e mandões e os superou a todos. Devo a ela muito daquilo que sou. Esperei até nosso último momento que confessasse ser minha mãe. Foi muito mais que isso...
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Gratidão a um grande amigo

Seu nome era Elias, nome de profeta e de visionário. Acreditava nas potencialidades humanas e na ampliação da consciência que pode acontecer através de encontros verdadeiros e profundos. Eu o conheci quando ainda estava na faculdade. Estranhava aquele ser exótico que passeava distraído pelos corredores da Psico. Sentia ao mesmo tempo fascínio e medo. Não sabia precisar a causa.
Chegou o dia em que ele me mandou convidar para um de seus Encontros Transcentrados. Fui meio que obrigada e apavorada. Mal sabia que minha vida tomaria um novo rumo de compreensão a partir daquela experiência. Ele, como facilitador, permitia um silêncio infinito e por vezes, angustiante. Não era necessário falar, nem havia nenhuma proposta prévia de tarefa. Num primeiro momento achei meio bobo ficar ali sentada no meio de pessoas que não conhecia. Mas aos poucos me acostumei a ideia e passou a ser confortável. Hoje relembrando não sei o que me transformou, mas creio que o cuidado, o carinho e a aceitação que o Elias demonstrava foram cruciais para que eu me permitisse alargar meus limites.
Tornamo-nos muito amigos. Acompanhei de perto sua jornada de pesquisador da psique. Foram muitos os Encontros, muitas festas à fantasia, muitas conversas... Trouxe para minha vida pessoas mais que amadas, irmãs de alma. Trouxe paisagens e histórias. Ajudou-me a enxergar mais e melhor.
Adoeceu de repente e de repente se foi, dizendo que não tivera medo de nenhuma aventura em vida e que queria estar bem presente para experimentar esta última travessia.
Meu querido amigo,
Tão amado, que num carro de fogo,
Subiu aos céus.
Eu te agradeço pelo prazer de tua
Presença e companhia,
Pela trilha compartilhada,
Pelos desencontros e,
Por todo este Encontro.
Agradeço pela Transformação,
Pela Dança,
Pela História,
Pelo Eclipse,
Pelo Cálice,
Pela Chuva.
Agradeço pela Alegria de ter caminhado contigo,
Pela herança de Amor que permanece.
Que Transpassado e Transformado
Compreenda o Caminho, a sabedoria e a Luz.
Vá meu querido para os braços do Amado
e que a Mãe te receba.
segunda-feira, 28 de março de 2011
A menininha das nuvens

Era tão pequenininha e sua tia a ensinou a escrever sua primeira palavra: NUVEM. Assim mesmo com grandes letras de jornal. Ela imediatamente se encantou. Não pela palavra, mas pela possibilidade do desenho. Passou a preencher qualquer papel que lhe caía nas mãos com aqueles cinco sinais e com o desenho correspondente. Por vezes as nuvens fugiam para paredes e portas que encontrava no caminho.
Cresceu falante e desenhante...Tudo que pudesse ser nomeado, deveria ser imediatamente desenhado. Seus preferidos eram as mulheres, suas roupas e ornamentos e os gatos. Quando teve que procurar um ofício ficou um tanto indecisa se queria projetar grandes construções ou todos os belos objetos que criaria. Encontrou um grande amigo que lhe seria companheiro de muitas horas; tudo que pensasse em desenhar ele tinha ferramentas para fazê-lo e ainda tinha técnicas para fazer seus esboços se moverem.
Resolveu seguir um caminho em que pudesse projetar mundos, como fizera tantas vezes quando criança. Da primeira linha usada para traçar suas nuvens surgiram ilustrações de bichos e gentes em livros infantis, fachadas de casas, móveis e muita coisa mais...
Com a cabeça eternamente tomada por ideias e imagens segue feliz, envolvida com seus desenhos. Diverte-se e ainda por cima, ganha a vida assim. A cabeça parece ter ficado a passear pelos ares mas os pés estão muito bem firmados no chão...
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Coraline

Qualquer bruxa de respeito sabe que pra ser bruxa mesmo faz-se imprescindível ter gatos. Eles são a manifestação animal do poder de transitar entre os mundos sem se assustar por pouca coisa.
Desde muito pequena pressentia este fato e minha história é sempre entrelaçada à de uma profusão de felinos. Hoje, porém, é dia de celebrar aquela que veio pra inequivocamente reforçar minha identidade bruxística.
Coraline, panterinha negra que surgiu do nada. Vem de outra dimensão não captada por ultrassom comum. Não era esperada e nasceu já meio acelerada. Adora "causar", provocar, aprontar... Passarinhos tremei!!! Esta é caçadora, fêmea felina que salta e alcança os desavisados voadores.
Expulsou a branca Galadriel do trono e fez-se senhora do castelo.
No mundo por trás de seus eternos olhos verdes os humanos foram criados para amar, cuidar, mimar e alimentar os gatos. Especialmente os pretos...
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
A Dona Ana Amélia
Houve um dia perdido nas brumas em que uma velha senhora herdou um bebê. Árdua tarefa para suas já cansadas pernas. Seu imenso coração porém disputara a responsabilidade com um clã de fortes mulheres. Vencera. Agora era cuidar, alimentar,ninar, criar mundos de cucas, bruxas,madonas e fadas.
A criança devolveu-lhe as ganas de viver e seus olhos que tantas eras contemplaram lhe mostraram imensidões verdes que um dia iriam compor seus sonhos. Era forte e terna. Terra cabocla e sinhazinha esquecida.Ensinou a menina a ler, abrindo um universo de possibilidades, ensinou-lhe a escrever, a matematicar.
Curiosa que era, tinha explicações conclusivas para tudo: céu, inferno, vida, morte. Ambígua,relanceava benzeduras de seu passado de parteira, meio que escondida de si mesma,ainda que guardiã dos valores religiosos pendia para um dogmatismo autoritário. A alma, porém, era desobediente por natureza, desde que menina apanhara uma surra daquelas do pai para poder ter o direito de estudar como seus irmãos.
Amava a generosidade e praticava a gentileza. A menina encantada cresceu, muitas vezes aterrorizada pelo lobo mau que lhe tiraria seu porto seguro. Ele não conseguiu chegar à floresta e a velha cumpriu sua jornada. Quando seu Mestre veio buscá-la a criança já havia se tornado mulher e mãe. Aprendera a cuidar, a amar, a agradecer e a continuar...
A criança devolveu-lhe as ganas de viver e seus olhos que tantas eras contemplaram lhe mostraram imensidões verdes que um dia iriam compor seus sonhos. Era forte e terna. Terra cabocla e sinhazinha esquecida.Ensinou a menina a ler, abrindo um universo de possibilidades, ensinou-lhe a escrever, a matematicar.
Curiosa que era, tinha explicações conclusivas para tudo: céu, inferno, vida, morte. Ambígua,relanceava benzeduras de seu passado de parteira, meio que escondida de si mesma,ainda que guardiã dos valores religiosos pendia para um dogmatismo autoritário. A alma, porém, era desobediente por natureza, desde que menina apanhara uma surra daquelas do pai para poder ter o direito de estudar como seus irmãos.
Amava a generosidade e praticava a gentileza. A menina encantada cresceu, muitas vezes aterrorizada pelo lobo mau que lhe tiraria seu porto seguro. Ele não conseguiu chegar à floresta e a velha cumpriu sua jornada. Quando seu Mestre veio buscá-la a criança já havia se tornado mulher e mãe. Aprendera a cuidar, a amar, a agradecer e a continuar...
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