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quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Quando entrar setembro...



Amo setembro. Revendo minha jornada este sempre foi um mês de surpresas e mudanças. Certa feita numa Oficina de dizer Poesia com Elisa Lucinda fui visitada por um poema de Adélia que esclarece mistérios.

Meditação à beira de um poema

Podei a roseira no momento certo
e viajei muitos dias,
aprendendo de vez
que se deve esperar biblicamente
pela hora das coisas.
Quando abri a janela, vi-a,
como nunca a vira
constelada,
os botões,
Alguns já com rosa – pálido –
espiando entre as sépalas,
jóias vivas em pencas.
Minha dor nas costas,
meu desaponto com os limites do tempo,
o grande esforço para que me entendam
pulverizam-se
diante do recorrente milagre.
Maravilhosas faziam-se
as cíclicas perecíveis rosas.
Ninguém me demoverá
do que de repente soube
à margem dos edifícios da razão:
a misericórdia está intacta,
vagalhões de cobiça,
punhos fechados,
altissonantes iras,
nada impede ouro de corolas
e acreditai: perfumes.
Só porque é setembro
Adélia Prado

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Hera ou não Hera

Deusas são sempre Deusas e como tais merecem, no mínimo, nosso respeito. Como representam energias que se manifestam em nós, réles mortais, podemos dizer que temos mais afinidades com esta ou aquela. Devo confessar que Hera, a mulher de Zeus, nunca me foi muito querida, posso até dizer que nunca cheguei perto de comprendê-la. Reconheço que é o arquétipo da Grande Mãe que foi destronada pelo Patriarcado e que seus ciúmes e luta pelo Poder podem vir desta tragédia que aconteceu ao feminino. 
Muitas Heras cruzaram meu caminho. Algumas divertidas como a menina que apareceu com roupão, bobes no cabelo e pau de macarrão em punho correndo atrás do namorado numa festa à fantasia em Taubaté. Já encontrei Hera que consegue num discurso de cinco minutos, inserir "MEU MARIDO" umas quatro vezes a cada frase. Por vezes fazem a sonsa mas, Afrodites de plantão, nunca subestimem esta Senhora. Quando vocês se derem conta terão virado pó aos pés dela.
Mas a poesia transforma percepções e Adélia Prado me fez perceber uma Hera possível em mim. Ao ouvir o poema senti seu cheiro, sua força, seu caráter sagrado. Honrada seja aquela que faz um barraco no beco e ressurge divinizada.

Briga no Beco

Encontrei meu marido às três horas da tarde 
com uma loura oxidada.
Tomavam guaraná e riam, os desavergonhados.
Ataquei-os por trás com mão e palavras 
que nunca suspeitei conhecer.
Voaram três dentes e gritei, esmurrei-os e gritei,
gritei meu urro, a torrente de impropérios.
Ajuntou gente, escureceu o sol,
a poeira adensou como cortina.
Ele me pegava nos braços, nas pernas, na cintura,
sem me reter, peixe-piranha, bicho pior, fêmea-ofendida,
uivava.
Gritei, gritei, gritei, até a cratera exaurir-se.
Quando não pude mais fiquei rígida,
as mãos na garganta dele, nós dois petrificados,
eu sem tocar o chão. Quando abri os olhos,
as mulheres abriam alas, me tocando, me pedindo graças.
Desde então faço milagres.




segunda-feira, 25 de junho de 2012

Cecilia fala...

Nesta nossa língua tão rica e cheia de possibilidades, poetas encontram caminhos tão simples de nos trazer beleza e novos horizontes internos. Cecília Meireles é mestre nisto. Fala de céus, mares, borboletas e jardins. Fala de sonho e desilusão. Fala Cecília...





Canção
Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Álvaro e o dia de seus anos

Dizem que geminianos assobiam e chupam cana ao mesmo tempo. Dizem que gostam de escarafunchar tudo e descobrir tudo. Dizem que têm a capacidade de se multiplicar em mil. Dizem... Fernando Pessoa confirma isto com maestria e vai além. Visita todas as paisagens e todos os cantos da alma com olhares tão diversos que chega a espantar. Grande geminiano que nos transpassa e eleva. Aqui Álvaro canta a saudade de seus aniversários de infância. Soberbo.
      ANIVERSÁRIO
    No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu era feliz e ninguém estava morto. Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, De ser inteligente para entre a família, E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida. Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, O que fui de coração e parentesco. O que fui de serões de meia-província, O que fui de amarem-me e eu ser menino, O que fui --- ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui... A que distância!... (Nem o acho...) O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa, Pondo grelado nas paredes... O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), O que eu sou hoje é terem vendido a casa, É terem morrido todos, É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio... No tempo em que festejavam o dia dos meus anos... Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, Por uma viagem metafísica e carnal, Com uma dualidade de eu para mim... Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes! Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui... A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado---, As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos... Pára, meu coração! Não penses! Deixa o pensar na cabeça! Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus! Hoje já não faço anos. Duro. Somam-se-me dias. Serei velho quando o for. Mais nada. Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!... O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
    Álvaro de Campos, 15-10-1929

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Passarinhos, Manoel e Bach

Há tempos conhecia Manoel de Barros. Agora me encantei tão plenamente que todo dia descubro algo novo, belo e de tão singelo, comovente.Quando se junta a Bach então...














DE PASSARINHOS

Para compor um tratado sobre passarinhos
É preciso por primeiro que haja um rio com árvores
e palmeiras nas margens.
E dentro dos quintais das casas que haja pelo menos
goiabeiras.
E que haja por perto brejos e iguarias de brejos.
É preciso que haja insetos para os passarinhos.
Insetos de pau sobretudo que são os mais palatáveis.
A presença de libélulas seria uma boa.
O azul é muito importante na vida dos passarinhos
Porque os passarinhos precisam antes de belos ser
eternos.
Eternos que nem uma fuga de Bach.





sexta-feira, 11 de maio de 2012

O olhar de Caeiro

    Tem dias em que só a poesia ilumina. Só a poesia nos traduz. Só a poesia nos conforta... Caeiro em seu Guardador de Rebanhos surge sempre como um bálsamo.
      O meu olhar é nítido como um girassol.
      Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se, ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo...Creio no mundo como num malmequer, Porque o vejo. Mas não penso nele Porque pensar é não compreender... O Mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos) Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo... Eu não tenho filosofia; tenho sentidos... Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, Mas porque a amo, e amo-a por isso Porque quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe por que ama, nem o que é amar... Amar é a eterna inocência, E a única inocência não pensar...

    quarta-feira, 9 de maio de 2012

    " Se contarmos..."


    Como a poesia, tal qual veneno e cura  depois de uma semana intensamente exposta, ainda circula em minhas veia chegamos a este poema que desvela caminhos inesperados dos encontros e desencontros amorosos. Deu certo trabalho à bela que o escolheu...

    De Martha Medeiros

    Se contarmos todas as palavras que trocamos
    Daria para escrever um bom romance
    Eu nem te conhecia e contei meus absurdos
    Tu nem me conhecia e contou teus muitos planos

    Se contarmos todos os olhares que trocamos
    Daria para encher um lago inteiro
    Eu nem te conhecia e contei o meu passado
    Tu nem me conhecia e contou teu desespero

    Se contarmos todos os silêncios que trocamos
    Daria para povoar um edifício
    Eu nem te conhecia e contei meus vinte anos
    Tu nem me conhecia e contou teus sacrifícios

    Se contarmos todas as fantasias que trocamos
    Daria pra dizer que amantes fomos
    Mas o amor exige beijos e abraços
    E não reconheceu o nosso encanto

    terça-feira, 8 de maio de 2012

    Adélia e sua Serenata

    A cada vez que encontramos com a poesia ela nos toma, nos traduz. Adélia Prado faz isto com uma maestria inigualável. Já presenciei algumas companheiras de Oficina falando esta preciosidade que traz à luz uma expectativa e uma dor muito conhecidas. O resultado é sempre belo...




    A Serenata

    Uma noite de lua pálida e gerânios
    ele virá com a boca e mão incríveis 
    tocar flauta no jardim.
    Estou no começo do meu desespero
    e só vejo dois caminhos: 
    ou viro doida ou santa.
    Eu que rejeito e exprobo
    o que não for natural como sangue e veias
    descubro que estou chorando todo dia,
    os cabelos entristecidos,
    a pele assaltada de indecisão.
    Quando ele vier, porque é certo que vem,
    de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
    A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
    - só a mulher entre as coisas envelhece.
    De que modo vou abrir a janela,se não for doida?
    Como a fecharei, se não for santa?

    sexta-feira, 4 de maio de 2012

    Poesia falada

    Esta semana estou me banhando de poesia. Delicioso ouvir poemas novos e outros velhos conhecidos. Cada um colore com seu tom as palavras e o mundo se descortina belo. Uma poeta que se fez presente é Viviane Mosé. Surpreendentemente tocante...




    A Palavra

    é uma roupa que a gente veste
    uns gostam de palavras curtas
    outros usam roupa em excesso
    existem os que jogam palavra fora
    pior são os que usam em desalinho
    cores brigando, substantivos em luta
    alguns usam palavras raras
    poucos ostentam palavras caras
    tem quem nunca troca
    tem quem usa a dos outros
    a maioria não sabe o que veste
    alguns sabem e fingem que não
    uns nunca usam a roupa certa para ocasião
    tem os que se ajeitam bem com poucas peças
    outros se enrolam no vocabulário de muitas
    eu adoro usar palavra limpa
    tem gente que estraga tudo o que usa
    com quais palavras você se despe?


    Poema do livro TODA PALAVRA, Sete Letras, 1997.

    domingo, 11 de março de 2012

    Se eu pudesse trincar a terra toda...

    Há alguns dias encontrei uma amiga querida e ficamos nos deliciando em lembrar poemas. Alguns que tínhamos encontrado quando adolescentes e outros nos quais esbarramos pela intensa vida que vivemos. Piscianas apaixonadas pela Palavra e pelo Amor. Revisitamos Pessoa, Neruda... Hoje amanheci com um gosto de poesia e terra na boca. Relembrei Caieiro...




    Se eu pudesse trincar a terra toda (7-3-1914)

    XXI

    Se eu pudesse trincar a terra toda
    E sentir-lhe um paladar,
    E se a terra fosse uma coisa para trincar
    Seria mais feliz um momento...
    Mas eu nem sempre quero ser feliz.
    É preciso ser de vez em quando infeliz
    Para se poder ser natural...

    Nem tudo é dias de sol,
    E a chuva, quando falta muito, pede-se.
    Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
    Naturalmente, como quem não estranha
    Que haja montanhas e planícies
    E que haja rochedos e erva...

    O que é preciso é ser-se natural e calmo
    Na felicidade ou na infelicidade,
    Sentir como quem olha,
    Pensar como quem anda,
    E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
    E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
    Assim é e assim seja...

    segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

    "A Fúria da Beleza"

    Certa vez fui a uma palestra do Rubem Alves. Quando se depara com alguém que você já leu por demais, fica estranho conversar, falar, tocar então... Eu depois da fala levei um livro para que ele autografasse e timidamente agradeci por toda cura que ele já havia me oferecido. Perguntei ao mestre, um tanto relutante: "Você acredita que beleza cura?" Ele sorriu e me respondeu ternamente que sim.
    Tempos depois me deparei com esta grandiosidade chamada Elisa Lucinda que leva a beleza às últimas consequências , penetrando, assolando , construindo paisagens e infinitos mundos que se desvelam através da palavra, da poesia.  Em seu livro " A Fúria da Beleza" ela fala:





    Vaidade

    À tarde que me seduz, 
    o parado sonso do vento
    nas árvores, estátuas de verde
    prateadas por um só fio filete de luz,
    rendida estou e
    sou dela refém.
    Transito em seu planeta.
    Levito parada feita a paisagem.
    É que eu também dela sou paisagem,
    e faço agora, de cabeça,
    versos que só escrevi depois.


    Há muitos anos a tarde me sequestra, ora pois!
    Há inúmeras cigarras esta orquestra me detém e liberta!
    Sob seu sovado me leva,
    sou seu pão.


    O que ninguém sabia até então,
    nem eu, 
    é que este pão,
    o famoso gostoso pão da tarde,
    o das tardes frias,
    o das tardes quietas,
    o das tardes quentes e
    o das tardes inquietas,
    é feito da carne do trigo do olhar do poeta.

    segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

    Quando descobri Alberto Caieiro senti que encontrei parte de minha alma. Antes, apaixonada pelo sarcasmo, pela dor e ironia de Álvaro de Campos, pude descansar tranquila e demoradamente nas imensas paisagens, nos rios, nas nuvens, nos girassóis... Aprendi a contemplar sem muita filosofia. Gracias, querido mestre Caieiro!



    XL do "Guardador de Rebanhos

    Passa uma borboleta por diante de mim
    E pela primeira vez no Universo eu reparo 
    Que as borboletas não têm cor nem movimento,
    Assim como as flores não têm perfume nem cor.
    A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
    No movimento da borboleta o movimento é que se move,
    O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
    A borboleta é apenas uma borboleta
    E a flor é apenas flor.

    segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

    Manoel de Barros cria sua naturezinha...

    Hoje é aniversário de um dos meus poetas mais amados. Tão simples, mas tão simples que chega a doer de tanta beleza descoberta nas coisas ínfimas: Manoel de Barros.

    O Lápis


    É por demais de grande a natureza de Deus.
    Eu queria fazer para mim uma naturezinha
    particular.
    Tão pequena que coubesse na ponta do meu
    lápis.
    Fosse ela, quem me dera, só do tamanho do
    meu quintal.
    No quintal ia nascer um pé de tamarino apenas
    para uso dos passarinhos.
    E que as manhãs elaborassem outras aves para
    compor o azul do céu.
    E se não fosse pedir demais eu queira que no
    fundo corresse um rio.
    Na verdade na verdade a coisa mais importante
    que eu desejava era o rio.
    No rio eu e a nossa turma, a gente iria todo
    dia jogar cangapé nas águas correntes.
    Essa, eu penso, é que seria a minha naturezinha
    particular.
    Até onde o meu pequeno lápis poderia alcançar.

    Barros, Manoel - Poesia Completa - São Paulo, Leya, 2010.

    O nascimento do poema

    Semana em que se comemora o nascimento de um ser Divino. Dizem que sua mãe engravidou ao ouvir do Arcanjo anunciador a revelação. Dizem que a Palavra é que trouxe à luz a Criança Sagrada. Assim nascem os mundos e a beleza. Adélia Prado, que é sempre visitada pelo sopro divino, sabe bem disso...


    O Nascimento do Poema


    O que existe são coisas, 
    não palavras. Por isso
    te ouvirei sem cansaço recitar em  búlgaro
    como olharei montanhas durante horas,
    ou nuvens. Sinais valem palavras,
    palavras valem coisas,
    coisas não valem nada.
    Entender é um rapto,
    é o mesmo que desentender.
    Minha mãe morrendo,
    não faltou a meu choro este arco-íris: 
    o luto irá bem dom meus cabelos claros.
    Granito, lápide, crepe,
    são belas coisas ou palavras belas?
    Mármore, sol, lixívia.
    Entender-me sequestra de palavra e de coisa,
    arremessa-me ao coração da poesia.
    Por isso escrevo os poemas
    pra velar o que ameaça minha fraqueza mortal. 
    recuso-me a acreditar que homens inventam as línguas,
    é o Espírito quem me impele, 
    quer ser adorado
     e sopra no meu ouvido este hino litúrgico:
    baldes, vassouras, dívidas e medo,
     desejo de ver Jonathan e ser condenada ao inferno.
    Não construí as pirâmides. Sou Deus.

    segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

    Para cantar um final de amor

    Esta noite sonhei com minha mestra e lá estava ela toda sinceridades falando sobre beleza. Aprendi com Elisa a dizer poesia e a perceber nuances de luminosidades nos cantos mais inusitados. Lembrei-me deste poema que é um canto para o final de um amor que lava a alma... Salve Elisa Lucinda!


    Safena
    Sabe o que é um coração
    amar ao máximo de seu sangue?
    Bater até ao auge de seu baticum?
    Não, você não sabe de jeito nenhum.
    Agora chega.
    Reforma no meu peito!
    Pedreiros, pintores, raspadores de mágoas
    aproximem-se!
    Rolos, rolas, tintas, tijolo
    comecem a obra!
    Por amor, mestre de Horas
    Tempo, meu fiel carpinteiro
    comece você primeiro passando verniz nos móveis
    e vamos tudo de novo do novo começo.
    Iansã, Oxum, Afrodite, Vênus e Nossa Senhora
    apertem os cintos
    Adeus ao sinto muito do meu jeito
    Peitos ventres pernas
    aticem as velas
    que lá vou eu de novo na solteirice
    exposta ao mar da mulatice
    à honra das novas uniões
    Vassouras, rodos, águas, flanelas e ceras
    Protejam as beiras
    lustrem as superfícies
    aspirem os tapetes
    Vai começar o banquete
    de amar de novo
    Gatos, heróis, artistas, príncipes e foliões
    Façam todos suas inscrições.
    Sim. Vestirei vermelho carmim escarlate
    O homem que hoje me amar
    encontrará outro lá dentro.
    Pois que o mate.

    segunda-feira, 28 de novembro de 2011

    A janela de Adélia

    Poesia sempre me comove, me transpassa, me faz ir mais longe e bem perto... Poesia em tudo até na tramela de uma janela. Adélia faz assim: trevinhos, passarinhos, peixes para limpar, excrementos... Pretextos para saltar para este mundo transfigurado da poesia.


    Janela

    Janela, palavra linda.
    Janela é o bater das asas da borboleta amarela.
    Abre pra fora as duas folhas de madeira-à-toa pintada,
    janela jeca, de azul.
    Eu pulo você pra dentro e pre fora, monto a cavalo em você,
    meu pé esbarra no chão.
    Janela sobre o mundo aberta, por onde vi
    o casamento de Anita esperando neném, a mãe
    do Pedro Cisterna urinando na chuva, por onde vi
    meu bem chegar de bicicleta e dizer a meu pai:
    minha intenções com sua filha são as melhores possíveis.
    Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão,
    claraboia na minha alma,
    olho no meu coração.

    Prado, Adélia - Poesia Reunida - São Paulo, Siciliano, 1991

    segunda-feira, 14 de novembro de 2011

    Elisa Lucinda e seu " Eis amor"

    Por vezes, nos deparamos com pessoas completas, daquelas que cantam, dançam e sapateiam...Tive a honra de ter como mestra de como dizer poesia, esta mulher majestosa chamada Elisa Lucinda. Seus olhos verdes, naquela belíssima negritude, fascinam e sua voz cadenciada hipnotiza. Fiz vários cursos e a poesia de Elisa me traduziu, transportou e transtornou. Segue um poema de seu livro, "A Fúria da Beleza".






     Eis amor

    Ex- amor, respeite os nossos segredos,
    respeite os nossos enredos,
    os versos que eu te dei,
    o amor lindo que vivemos, ex-amor.


    Eis amor: os caminhos, os teus rios,
    nossas diferenças,
    nossas perdas, nossas recompensas.
    Ninguém sabe para onde vamos,
    nem tampouco há alguma sentença.


    Escrevo estes versos por respeito
    aos versos que me deste, ex-amor.
    Te agradeço, grande inspirador,
    ainda que sejam estes
    os últimos versos que eu te dou.

    segunda-feira, 7 de novembro de 2011

    Poesia entre pedras

    Poeta tem olhar diferente, meio que contemplando o nada e vendo tudo. Acha alma escondida em qualquer lugar. Até nas pedras... Cora Coralina é única, com um nome que já soa poesia, busca no tacho de doce requintes de palavras que tocam fundo.Entre as pedras no caminho de seu caro amigo Drummond cria sua singela poética.






    DAS PEDRAS

    Ajuntei todas as pedras
    que vieram sobre mim.
    Levantei uma escada muito alta
    e no alto subi.
    Teci um tapete florido
    e no sonho me perdi.

    Uma estrada,
    um leito,
    uma casa,
    um companheiro.
    Tudo de pedra.

    Entre pedras
    cresceu a minha poesia.
    Minha vida...
    Quebrando pedras
    e plantando flores.

    Entre pedras que me esmagavam
    levantei a pedra rude
    dos meus versos.

    segunda-feira, 31 de outubro de 2011

    Nostalgia e Álvaro de Campos

    Voltei hoje às paisagens de minha adolescência...Visitei meu colégio onde fiz da quinta a oitava séries. Ângelo Bortolo, perdido na serra da Cantareira. Hoje nem tão serra assim. Como são vívidas as memórias daquela época de ouro, as salas, os corredores, as quadras, as paqueras perdidas no tempo. Sinto falta de minha leveza, dos meus olhos que para tudo brilhavam e que esperavam muito. A vida foi  boa ,mas eu daria meu reino para voltar no tempo e reviver um dia que fosse daquela nascente adolescência.
    Nostalgia melancólica que me trouxe um companheiro querido naquelas infinitas horas de tédio próprio da idade: Álvaro de Campos.




        TABACARIA
      Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Janelas do meu quarto, Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é (E se soubessem quem é, o que saberiam?), Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, E não tivesse mais irmandade com as coisas Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada De dentro da minha cabeça, E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida. Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu. Estou hoje dividido entre a lealdade que devo À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro. Falhei em tudo. Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. A aprendizagem que me deram, Desci dela pela janela das traseiras da casa. Fui até ao campo com grandes propósitos. Mas lá encontrei só ervas e árvores, E quando havia gente era igual à outra. Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar? Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? Ser o que penso? Mas penso tanta coisa! E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! Gênio? Neste momento Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu, E a história não marcará, quem sabe?, nem um, Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras. Não, não creio em mim. Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas! Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? Não, nem em mim... Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando? Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas - Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -, E quem sabe se realizáveis, Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente? O mundo é para quem nasce para o conquistar E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão. Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez. Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo, Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu. Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, Ainda que não more nela; Serei sempre o que não nasceu para isso; Serei sempre só o que tinha qualidades; Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta, E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, E ouviu a voz de Deus num poço tapado. Crer em mim? Não, nem em nada. Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo, E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha. Escravos cardíacos das estrelas, Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama; Mas acordamos e ele é opaco, Levantamo-nos e ele é alheio, Saímos de casa e ele é a terra inteira, Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido. (Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. Come, pequena suja, come! Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho, Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.) Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei A caligrafia rápida destes versos, Pórtico partido para o Impossível. Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas, Nobre ao menos no gesto largo com que atiro A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas, E fico em casa sem camisa. (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas, Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva, Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta, Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida, Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua, Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais, Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê - Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire! Meu coração é um balde despejado. Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco A mim mesmo e não encontro nada. Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta. Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam, Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, Vejo os cães que também existem, E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo, E tudo isto é estrangeiro, como tudo.) Vivi, estudei, amei e até cri, E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu. Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira, E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso); Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente Fiz de mim o que não soube E o que podia fazer de mim não o fiz. O dominó que vesti era errado. Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara. Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido. Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. Deitei fora a máscara e dormi no vestiário Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo E vou escrever esta história para provar que sou sublime. Essência musical dos meus versos inúteis, Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse, E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte, Calcando aos pés a consciência de estar existindo, Como um tapete em que um bêbado tropeça Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada. Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada E com o desconforto da alma mal-entendendo. Ele morrerá e eu morrerei. Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos. A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também. Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, E a língua em que foram escritos os versos. Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas, Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra, Sempre o impossível tão estúpido como o real, Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície, Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra. Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?) E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. Semiergo-me enérgico, convencido, humano, E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário. Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. Sigo o fumo como uma rota própria, E gozo, num momento sensitivo e competente, A libertação de todas as especulações E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto. Depois deito-me para trás na cadeira E continuo fumando. Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando. (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira Talvez fosse feliz.) Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela. O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica. (O Dono da Tabacaria chegou à porta.) Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

    segunda-feira, 24 de outubro de 2011

    João Cabral de Melo Neto , Drummond e o guarda-chuva

    Poesia é um dos portais que mais nos aproxima da alma. Sons descortinam imagens internas e ampliam nossas paisagens banhando-as com uma luminosidade sempre nova a cada vez que nos encontramos com o poeta amado. Quando um fala com outro então...

    A CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


    Não há guarda-chuva
    contra o poema
    subindo de regiões onde tudo é surpresa
    como uma flor mesmo num canteiro.


    Não há guarda-chuva
    contra o amor
    que mastiga e cospe como qualquer boca,
    que tritura como um desastre.


    Não há guarda-chuva
    contra o tédio:
    o tédio das quatro paredes, das quatro 
    estações, dos quatro pontos cardeais.


    Não há guarda-chuva
    contra o mundo
    cada dia devorado nos jornais
    sob as espécies de papel e tinta.


    Não há guarda-chuva
    contra o tempo,
    rio fluindo sob a casa, correnteza
    carregando os dias, os cabelos.

    João Cabral de Melo Neto
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