Até aquele dia ela tinha certeza de que era uma mulher como as outras, comum e mediana. Caminhava anônima pelas ruas sem que ninguém a notasse. Nem particularmente bela, nem assumidamente feia. Vaidades não costumava cultivar. Econômica em gestos, palavras e olhares beirava à invisibilidade confortável dos semelhantes. Talvez se ela não tivesse se atrasado uns minutos sua vida seguiria assim indefinidamente. Mas naquela sexta-feira, como tantas outras, chegou à plataforma do trem para o trabalho alguns segundos antes das portas se fecharem. Hesitou entre arriscar e esperar. De repente percebeu aqueles olhos, intensos e perscrutadores, que a fitavam como se estivessem vendo uma aparição da Deusa. Estacou e sentiu vibrar cada célula do seu corpo como se tomada por um raio. Sentiu-se bela, poderosamente bela. Magnética. Não saberia precisar a eternidade daquele instante. A porta se fechou, o trem se foi e ela, possuída por sua própria divindade, nunca mais foi a mesma...
sexta-feira, 2 de março de 2012
quinta-feira, 1 de março de 2012
De como a Verdade entrou num palácio...
Este é um conto que Regina Machado, uma da melhores contadoras de história que conheço, encontrou num livro de Malba Tahan, o fantástico escritor de " O Homem que Calculava". Quando pequena era fascinada por este livro. A tradição árabe é rica em contos maravilhosos e este professor brasileiro se encantou com eles , passou parte de sua vida a estudar e disseminar histórias. Seu nome verdadeiro era Júlio César de Mello e Souza. Ele próprio trasvestiu-se de fábula e criou mundos...
Uma Fábula sobre a Fábula
Allah Hu Akbar! Allah Hu Akbar!
Deus criou a mulher e junto com ela criou a fantasia. Foi assim que uma vez a Verdade desejou conhecer um palácio por dentro e escolheu o mais suntuoso de todos, onde vivia o grande sultão Haroun Al-Raschid. Vestiu seu corpo apenas com um véu transparente e pouco depois chegou à porta do magnífico palácio. Assim que o guarda apareceu e viu aquela mulher sem nenhuma roupa, ficou desconcertado e perguntou quem ela era. E a Verdade respondeu com firmeza:
- Eu sou a Verdade e desejo encontrar-me com seu senhor, o sultão Haroun Al-Raschid.
O guarda entrou e foi falar com o grão-vizir. Inclinando-se diante dele, disse:
- Senhor, lá fora está uma mulher pedindo para falar como nosso sultão, mas ela só traz um véu completamente transparente cobrindo seu corpo.
- Quem é essa mulher? - perguntou o grão-vizir com viva curiosidade.
- Ela disse que se chama Verdade, senhor - respondeu o guarda.
O grão-vizir arregalou os olhos e quase gaguejou:
- O quê? A Verdade em nosso palácio? De jeito nenhum, isso eu não posso permitir. Imagine o que ia ser de mim e de todos aqui se a Verdade aparecesse diante de nós? Estaríamos todos perdidos, sem exceção. Pode mandar essa mulher embora, imediatamente.
O guarda voltou e transmitiu à Verdade a resposta do seu superior. A Verdade teve que ir embora, muito triste.
Acontece que...
Deus criou a mulher e junto com ela criou a teimosia. A Verdade não se deu por vencida e foi procurar roupas para vestir. Cobriu-se dos pés à cabeça com peles grosseiras, deixando apenas o rosto de fora e foi direto, é claro, para o palácio do sultão Haroun Al-Raschid.
Quando o chefe da guarda abriu a porta e encontrou aquela mulher tão horrivelmente vestida, perguntou seu nome e o que ela queria.
Com voz severa ela respondeu:
- Sou a Acusação e exijo uma audiência com o grande senhor desse palácio.
Lá se foi o guarda falar com o grão-vizir e, ajoelhando-se diante dele, disse:
- Senhor, uma estranha mulher envolvida em vestes malcheirosas deseja falar com nosso sultão.
- Como ela se chama? - perguntou o grão-vizir.
- O nome dela é Acusação, Excelência.
O grão-vizir começou a tremer, morto de medo:
- Nem pensar. Já imaginou o que seria de mim, de todos aqui, se a Acusação entrasse nesse palácio? Estaríamos todos perdidos, sem exceção. Mande essa mulher embora imediatamente.
Outra vez a Verdade virou as costas e se foi tristemente pelo caminho. Ainda dessa vez ela não se deu por vencida.
E isso porque...
Deus criou a mulher e junto com ela criou o capricho.
A Verdade buscou pelo mundo as vestes mais lindas que pôde encontrar: veludos e brocados, bordados com fios de todas as cores do arco-íris. Enfeitou-se com magníficos colares de pedras preciosas, aneis, brincos e pulseiras do mais fino ouro e perfumou-se com essência de rosas. Cobriu o rosto com um véu bordado de fios de seda dourados e prateados e voltou, é claro, ao palácio do sultão Haroun Al-Raschid.
Quando o chefe da guarda viu aquela mulher deslumbrante como a Lua, perguntou quem ela era.
E ela respondeu, com voz doce e melodiosa:
- Eu sou a Fábula e gostaria muito de encontrar-me, se possível, com o sultão deste palácio.
O chefe da guarda foi correndo falar com o grão-vizir, até esqueceu-se de ajoelhar-se diante dele e foi logo dizendo:
- Senhor, está lá fora uma mulher tão linda, mas tão linda, que mais parece uma rainha. Ela deseja falar com nosso sultão.
Os olhos do grão-vizir brilharam:
- Como é que ela se chama?
- Se entendi bem, senhor, o nome dela é Fábula.
- O quê? - disse o grão-vizir completamente encantado - A Fábula quer entrar em nosso palácio? Mas que grande notícia! Para que ela seja recebida como merece, ordeno que cem escravas a esperem com presentes magníficos, flores perfumadas, danças e músicas festivas.
As portas do grande palácio de Bagdá se abriram graciosamente e por elas finalmente a bela andarilha foi convidada a passar.
Foi desse modo que a Verdade, vestida de Fábula, conseguiu conhecer um grande palácio e encontrar com Haroun Al-Raschid, o mais fabuloso sultão de todos os tempos.
Machado, Regina - O violino cigano e outros contos de mulheres sábias - São Paulo: Companhia da Letras, 2004.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
O Atalho
Como amo livros e histórias tenho meus "fornecedores". Ganhei, estes dias, uma preciosidade de uma queridíssima amante de livros: minha nora. Aqui o mestre contador de histórias, Idries Shah, faz uma compilação de contos sobre este maravilhoso e estranho personagem sufi, Nasrudin.
O ATALHO
Andando para casa numa maravilhosa manhã, Nasrudin achou que seria uma boa ideia pegar um atalho pelo bosque. "Por que", perguntou a si mesmo, "caminhar por uma estrada poeirenta quando posso estar em comunhão com a natureza, escutar os pássaros e olhar as flores? Este é , de fato, um dia especial, um dia para empreendimentos afortunados".
Assim dizendo, ele se lançou bosque adentro. Não havia ido muito longe, entretanto, quando caiu num fosso, onde ficou deitado refletindo.
" Não é um dia tão afortunado, afinal", meditou. "Na verdade, ainda bem que peguei esse atalho. Se coisas assim podem acontecer num cenário bonito como esse, o que não teria me acontecido naquela estrada abominável?!"
Shah, Idries - As façanhas do incomparável Mulá Nasrudin - Rio de Janeiro: Roça Nova, 2011
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
O Homem mais Feliz do Mundo
A busca da felicidade é tema constante das histórias e contos tradicionais. Quando ouvimos um conto de fada sempre esperamos o fatídico final: " E foram felizes para sempre..." Entretanto a tal felicidade não parece ser tão simples e fácil como o final dos problemas da trama, mas algo bem mais profundo e surpreendente.
O HOMEM MAIS FELIZ DO MUNDO
Um homem que vivia numa situação bastante confortável foi um dia visitar um sábio que tinha fama de possuir grandes conhecimentos.
- Grande sábio - disse ele - não tenho problemas materiais. Contudo não estou satisfeito. Durante anos tenho procurado ser feliz, encontrar uma resposta para meus pensamentos, estar em paz com o mundo. Por favor, aconselhe-me: como posso curar-me desse mal?
- Meu amigo - respondeu-lhe o sábio - o que está oculto para uns é evidente para outros, o que é evidente para uns está oculto para outros. Tenho a solução para o seu mal, embora não seja um remédio comum. Você deve viajar à procura do homem mais feliz do mundo. Quando o encontrar deve pedir sua camisa e vesti-la.
Incansável, aquele buscador começou a procurar homens felizes. Um por um, encontrou-os e interrogou-os. Todos disseram:
- Sim, sou feliz, mas há alguém mais feliz do que eu.
Depois de viajar de país em país, por muitos e muitos dias, chegou a um bosque onde, diziam, vivia o homem mais feliz do mundo. Ouviu o som de uma risada através das árvores e apressou o passo até chegar perto de um homem que estava sentado numa clareira.
- Você é o homem mais feliz do mundo, como dizem? - perguntou-lhe.
- Certamente sou - disse o homem.
- Meu nome e minha condição são tais e tais. Meu remédio, receitado pelo maior sábio, é usar sua camisa. Por favor, poderia dá-la pra mim? Em troca lhe darei tudo o que possuo.
O homem mais feliz do mundo olhou-o bem de perto e riu. Riu e riu.
Quando o homem se acalmou um pouco, o inquieto viajante, um tanto aborrecido com sua reação, disse:
- Você deve estar fora do seu juízo para rir de um pedido tão sério.
- Quem sabe? - disse o homem feliz - Mas se você tivesse apenas tido o trabalho de olhar teria visto que não possuo camisa alguma.
- E agora, que faço então?
- Agora você ficará curado. Esforçar-se por uma coisa inatingível predispõe à prática de conseguir o que é necessário, como quando um homem reúne todas as suas forças para saltar sobre um rio mais largo do que realmente é. Certamente ele atravessa esse rio.
Então o homem mais feliz do mundo tirou o turbante cuja ponta escondia seu rosto. O homem inquieto viu que ele não era outro senão o grande sábio que o tinha aconselhado no início.
- Por que não me disse isso quando fui procurá-lo há tantos anos? - perguntou o viajante, desconcertado.
- Porque naquela época você não estava pronto para compreender. Precisava de certas experiências, e estas tinham que lhe ser proporcionadas de um modo que garantisse que você passaria por elas.
Histórias da tradição sufi - Rio de Janeiro: Edições Dervish- Instituto Tarika, 1993.
O HOMEM MAIS FELIZ DO MUNDO
Um homem que vivia numa situação bastante confortável foi um dia visitar um sábio que tinha fama de possuir grandes conhecimentos.
- Grande sábio - disse ele - não tenho problemas materiais. Contudo não estou satisfeito. Durante anos tenho procurado ser feliz, encontrar uma resposta para meus pensamentos, estar em paz com o mundo. Por favor, aconselhe-me: como posso curar-me desse mal?
- Meu amigo - respondeu-lhe o sábio - o que está oculto para uns é evidente para outros, o que é evidente para uns está oculto para outros. Tenho a solução para o seu mal, embora não seja um remédio comum. Você deve viajar à procura do homem mais feliz do mundo. Quando o encontrar deve pedir sua camisa e vesti-la.
Incansável, aquele buscador começou a procurar homens felizes. Um por um, encontrou-os e interrogou-os. Todos disseram:
- Sim, sou feliz, mas há alguém mais feliz do que eu.
Depois de viajar de país em país, por muitos e muitos dias, chegou a um bosque onde, diziam, vivia o homem mais feliz do mundo. Ouviu o som de uma risada através das árvores e apressou o passo até chegar perto de um homem que estava sentado numa clareira.
- Você é o homem mais feliz do mundo, como dizem? - perguntou-lhe.
- Certamente sou - disse o homem.
- Meu nome e minha condição são tais e tais. Meu remédio, receitado pelo maior sábio, é usar sua camisa. Por favor, poderia dá-la pra mim? Em troca lhe darei tudo o que possuo.
O homem mais feliz do mundo olhou-o bem de perto e riu. Riu e riu.
Quando o homem se acalmou um pouco, o inquieto viajante, um tanto aborrecido com sua reação, disse:
- Você deve estar fora do seu juízo para rir de um pedido tão sério.
- Quem sabe? - disse o homem feliz - Mas se você tivesse apenas tido o trabalho de olhar teria visto que não possuo camisa alguma.
- E agora, que faço então?
- Agora você ficará curado. Esforçar-se por uma coisa inatingível predispõe à prática de conseguir o que é necessário, como quando um homem reúne todas as suas forças para saltar sobre um rio mais largo do que realmente é. Certamente ele atravessa esse rio.
Então o homem mais feliz do mundo tirou o turbante cuja ponta escondia seu rosto. O homem inquieto viu que ele não era outro senão o grande sábio que o tinha aconselhado no início.
- Por que não me disse isso quando fui procurá-lo há tantos anos? - perguntou o viajante, desconcertado.
- Porque naquela época você não estava pronto para compreender. Precisava de certas experiências, e estas tinham que lhe ser proporcionadas de um modo que garantisse que você passaria por elas.
Histórias da tradição sufi - Rio de Janeiro: Edições Dervish- Instituto Tarika, 1993.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
Carnaval às avessas
Todo o ano quando o Carnaval chegava, ele se mirava no grande espelho de seu quarto e com cuidado amoroso retirava a máscara. Trabalho delicado pois células, sangue e silicone se misturavam como se fossem uma coisa só. Despia-se lentamente, retirava a peruca , banhava-se. Depois voltava a se observar no espelho, esquecido de quem era. Permitia-se quatro dias de profunda depressão, mau humor, instabilidades. Desvelava por inteiro sua insignificância. Festa visceral de um encontro com seu escondido e alterado ego. E o bloco passava ao longe...
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
A semente dourada
As histórias nos fazem refletir sobre quem somos no mais profundo e como agimos a partir disso. Nada fica ser nos ser revelado. Espelhos potentes para nos ajudar nas transformações. Esta lembra um outro Mestre que mandava atirar pedras só quem nunca tivesse pecado...
A Semente dourada
Era uma vez um homem pobre e faminto que roubou uma fruta no mercado. O vendedor mandou prendê-lo e levou-o diante da decisão judicial.
O ladrão disse em sua própria defesa: "Se você me perdoar, eu lhe darei um presente maravilhoso."
O juiz replicou asperamente: "O que você pode ter para selar esse acordo?"
O ladrão tirou do bolso uma pequena semente. "Quando ela for plantada dará frutos de um dia para o outro. Ela dará frutos de ouro."
Então o juiz insistiu que ele plantasse a semente.
"Eu não posso", disse o pobre homem. "Ela só pode ser plantada por alguém que nunca roubou, nunca enganou ou mentiu. Senhor, o senhor terá a honra de plantar a semente."
O magistrado-chefe balbuciou e murmurou: "Eu não cultivo plantas. Dê a semente para meu sumo prelado".
O prelado recusou dizendo: "Eu não sei lidar com plantas. Dê a semente par meu comissário de julgamentos".
Um por um, todos os funcionários da corte se recusaram a plantar as sementes. Cada um deles ficou em silêncio.
Finalmente, o ladrão falou: "Deverei ser punido por roubar uma fruta quando eu estava com fome, se nenhum de vocês é capaz de plantar esta semente. Isto é justiça?"
O magistrado o libertou.
Mellon, Nancy - Corpo em equilíbrio: o poder do mito e das histórias para despertar e curar as energias físicas e espirituais - São Paulo, Cultrix 2010
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Cantar a canção da alma
Em muitas histórias, na hora do perigo, da revelação, da transformação faz-se necessário cantar a canção. Canção que abre portas, que desfaz véus, adormece dragões e cria vida onde a morte havia se instalado. Clarissa fala da necessidade e do poder do canto da alma no momento certo.
" Na história, La Loba canta sobre os ossos que reuniu. Cantar significa usar a voz da alma. Significa sussurrar a verdade do pode r e da necessidade de cada um, soprar alma sobre aquilo que está doente ou precisando de restauração. Isso se realiza por meio de um mergulho no ponto mais profundo do amor e do sentimento, até que nosso desejo de vínculo com o Self selvagem transborde, e em seguida com a expressão da nossa alma a partir desse estado de espírito. Isso é cantar sobre os ossos. Não podemos cometer o erro de tentar extrair esse imenso sentimento de amor de algum ser amado, pois essa função feminina de descobrir e cantar o hino da criação é um trabalho solitário, um trabalho realizado no deserto da psique".
Busquemos o deserto do silêncio, esperemos que nossa vísceras despertem , revelem o maravilhoso som que um dia nos criou e que nossa canção, assim tão íntima, recrie mundos.
Estés, Clarissa Pínkola - Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem - Rio de Janeiro: Rocco, 1994
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