sábado, 31 de dezembro de 2011

Em 2012 eu quero...

Hoje me lembrei de um paciente meu que, depois de um tempo fazendo psicoterapia confessou que, bem no começo do processo, me achava um pouco tola e feliz por demais...Depois disse ter percebido que eu podia entrar em lugares sombrios sem me assustar ou me perder. Conto isto aqui quando um novo ano se descortina diante de nossos olhos e todas as possibilidades se apresentam. Mesmo quando estava na faculdade sempre escolhi o caminho da saúde, da transformação e do crescimento. Apesar de admirar e muito Freud e afins pelas teorias tão bem elaboradas, pendia para o lado de Rogers, na postura amorosa e de Reich, com seu anseio pela vida e, por fim,cheguei a Jung que acredita que existe um longo processo em que temos apenas que nos tornarmos o ser único que somos nós mesmos. Com tudo o que isto requer de coragem e ternura...
Agradeço a este ano intrigante que acaba. Coisas estranhas aconteceram, muitas ilusões se desfizeram, personagens deixaram a minha história, pessoas muito queridas chegaram e dores que costumava acalentar se foram. Nunca é fácil desapegar daquilo em que acreditamos, mesmo depois de saber que estas crenças não valem mais. Por isso a vida, por vezes, é impiedosa e arranca nossos tapetes... Agradeço por isso também.
Agora a contemplar esta imensidão que é 2012, me proponho a ser cada dia mais apaixonada pela vida, pelos amanheceres e entardeceres. Quero me banhar de música , poesia e de histórias. Quero compartilhar sorrisos, canções e indignações com meus amigos queridos de longe de de perto. Quero encontrar meus queridos e sentar-me à mesa falando bobagens e profundidades. Quero também fazer diferença em algumas situações, instigar reflexões e dúvidas, criar novos mundos onde tudo é deserto. Quero enfim continuar a ser um tantinho tola e acreditar na vida, nas pessoas e nas transformações... E sobretudo quero ser um pouquinho mais do que vim a ser: eu mesma!
Ah, ia me esquecendo...e quero muito, muito ir para casa muitas vezes...

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

No ano que vem eu vou: Simplicidade

Chega a última semana do ano e com ela a tão famigerada e esperada faxina para esperar o ano novo. Rasgo papeis velhos, faço doação de roupas, sapatos e tudo o mais que ocupa espaço e que não uso mais. Sempre me deparo com tanto desperdício que fico um tanto deprimida. Esta forma de viver cercada de tantas coisas e ainda assim acumulando...
Há algumas semanas fui a um evento chamado TEDxdaLuz. Um encontro para disseminar e gestar ideias que podem mudar o mundo. Pessoas interessantes , algumas muito queridas, falaram de propostas de um novo fazer, mais consciente. Uma dela  me chamou a atenção em especial: Eduardo Marinho. Um rapaz que nasceu rico e que desde muito cedo estranhou esta assimetria de posses entre os humanos. Certo dia, depois de crescido, abandonou tudo e foi experimentar como se vive sem ter nada de seu. Caminhou pelo Brasil, trabalhando aqui e ali, recebendo generosidade e hospitalidade de muitos e estranheza de outros.Aprendeu que podia ser feliz com muito pouco. Hoje, artista plástico, vive tranquilamente com os filhos numa comunidade no Rio.
Desde que o ouvi, penso bastante nesta experiência. Claro que não vou deixar tudo e sair andando. Mas quero, a cada dia, aprender a discernir aquilo que preciso daquilo que a cultura me impõe como imprescindível. Quero consumir menos e ser mais simples. Acumular menos. Menos coisas, menos demandas, menos preocupações, menos a controlar e segurar. Tornar-me mais disponível para esta jornada tão cheia de aventuras que é a vida. 
Que em 2012 a vida seja leve porque joguei muita coisa fora e não comprei tudo de volta...

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Ano que vem eu vou: Responsabilidade

Trabalho em consultório há algum tempo. Tempo suficiente para saber quais os erros mais comuns que nós, humanos demasiadamente humanos, cometemos. Fim de ano. Quem sabe possamos refletir e nos ampliarmos um pouco...
Temos muita dificuldade em lidar com as escolhas. Quanto mais opções, pior fica. Queremos tudo. Queremos acumular. Escolher implica sempre perder. Deixar pra trás possibilidades. Gostamos imensamente de ter alguém para culpar por nossas escolhas e por nossos erros. Se algo deu errado, é porque Deus(sim, ele é sempre culpado! até para quem é ateu) não cuidou, se descuidou, não existe ou é vingativo. Ou foi o pai, a mãe, a irmã, o marido, namorado, cachorro ou papagaio. Difícil mesmo é assumir nossa completa ignorância na maior parte das coisas que interessam na vida...
Se por outro lado carregamos uma culpa esmagadora é porque não conseguimos lidar com a impotência diante do "grave e constante" da vida. Não protegemos nossos filhos, não salvamos, nem curamos nossos pais...Somos impotentes e estamos à mercê das intempéries. Contamos com o Sagrado para quem ainda carrega alguma centelha de fé nele.
Até aqui um certo amargor sobe à boca...Mas se pensarmos que se somos nós os construtores de grande parte de nossa realidade podemos ir além da Onipotência culpada e resgatar nosso pequeno e possível reino de atuação. E isso fará toda a diferença. Responder por si, por suas escolhas e por seus atos é o que, de alguma forma, nos torna adultos neste mundo tão infantilizado.
Em 2012 que possamos nos responsabilizar...


segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Resoluções para meu novo ano


Todo ano é a mesma coisa....Tenho mil resoluções de Ano Novo, escrevo-as todas e me ponho a imaginar como será a vida quando elas se cumprirem. Quando dançava com Ana Figueiredo, no final de cada ano ela confeccionava cadernos preciosos para servir de diários de viagem na dança,nos mitos e na vida. Num destes cadernos ela incluiu este texto de Frei Betto e passei a usar estas resoluções como proposta para os anos que viriam...

Alvíssaras
No próximo ano, fecharei a minha caixa de Pandora e farei passarinhar todos os bons propósitos que desafiam a minha fé. Recolherei num jardim de tulipas essa tristeza d’alma que definha o meu ego arrastada pela vaidade.
No próximo ano, soterrarei de perdões o meu mal-querer e de afagos essa sórdida tendência de apostar na desgraça alheia. Erguerei a minha taça à vitória do outro e brindarei de louvores as conquistas dos que invadem a minha reserva de caça. Serei dom e não dor.
No próximo ano, fecharei as asas da ambição e, vazio de desejos, cavarei túneis no mais profundo de mim mesmo para deixar fluir as águas da plenitude.
No próximo ano, desviarei o olhar da lascívia que esgarça o meu espírito e os ouvidos aos tambores que me impedem dançar na contramão. Não buscarei senão os odores suaves da brisa matinal e darei ao meu paladar o que amarga a língua e adoça o espírito.
No próximo ano, porei em prática sábias lições de vida: pão que se guarda endurece o coração; a cabeça pensa onde os pés pisam; o contrário do medo não é a coragem, é a fé. Sairei à rua repleto de silêncio, grávido do ser que me transfigura em morada divina.
No próximo ano, segredarei aos peregrinos os três aforismos de meu bem-viver: Deus tem sabor de justiça; a vida trafega a bordo do paradoxo; a morte é verbo e não se conjuga no presente, é sempre pretérito ou futuro.
No próximo ano, espalharei em meu peito sementes de girassol e cobrirei a cabeça com ervas aromáticas, para que a minha pele transpire luz e a minha boca profira perfumes. Não me privarei de suculentas alegrias e nem darei a meu corpo o que não empanturra o espírito.
No próximo ano, cultivarei cada um de meus cabelos brancos, modelarei de gorduras a flacidez de minhas carnes e preservarei cioso as rugas que maquiam de sabedoria o meu rosto. Serei belo como o tronco nodoso de uma velha castanheira que, retorcida de braços, abraça o Sol para em seus pés irradiar sombras.
No próximo ano, tratarei o semelhante com a reverência dos anjos e lavarei as portas de minha cidade para acolher em festa os que trazem boas-novas. No contorno dos dias, amarrarei fitas brancas e escovarei a boca da noite até limpar a garganta de sonâmbulas aflições.
No próximo ano, não permitirei à língua servir de passarela ao mal-dizer, nem darei ouvidos a quem insiste em violar meu silêncio. Voarei sereno como os albatrozes que, todas as manhãs, impedem que o fragor das ondas fira a pele porosa das praias.
No próximo ano, não me deixarei iludir pelos profetas da desgraça, nem me hipnotizar pelos que pincelam de cores vivas os cemitérios. Ficarei atento ao olhar perplexo cravado no rosto encardido dos que suplicam uma côdea de pão e um gole de paz.
No próximo ano, trocarei minhas horas preciosas por horas ociosas e, recostado num banco de parque, darei milho aos pombos e cantarei laudes com os mendigos que, deitados na grama, escarnecem da agonia do tempo. Banharei a minha pele na lagoa pontilhada de moedas faiscantes de prata e, boca aberta sob o chafariz, beberei até embriagar-me de insensatez.
No próximo ano, violarei todas as regras da civilidade torpe que me engravata de cabrestos e rasgarei as etiquetas que me fazem perder horas em cuidados supérfluos. Arrancarei do pulso as algemas do relógio que me escravizam ao ritmo implacável de minutos e segundos.
No próximo ano, serei irresponsavelmente feliz, liberto dessa onipotência que recobre de fúria a minha excessiva fragilidade. Confessarei a mim mesmo os meus pecados e, crucificado numa roda-gigante, ressuscitarei com a inocência das crianças que sorriem prenhes de vertigens.
No próximo ano, nomearei para o governo da cidade um cavaleiro que chegue montado num burrico e tenha as mãos calosas como quem cavou as entranhas da terra. Não darei lugar aos príncipes revestidos de palavras vãs, nem porei a minha confiança nos arautos surdos ao clamor dos desvalidos.
No próximo ano, farei de Deus o meu pai e o meu pão, e abrirei em laços o meu abraço, até transmutar solitários em solidários. Amarei sobre todas as coisas, para que a minha riqueza, despojada de bens, seja farta em afetos. Fecharei os olhos para ver melhor e, ao crepúsculo, serei consumido e consumado pelas chamas que ardem no lado avesso do meu ser.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Conto de Natal (Final)

Bela história que assim como o Natal aponta para o ciclo de vida-morte-vida e para todas as maravilhas que brotam disso. Quando pela primeira vez li este conto só me foquei na tristeza da morte...Agora consigo compreender que a vida sempre volta e isto muito me conforta. 





Nesse quartinho frio no sótão, não havia luz a não ser por uma janelinha embaçada na lateral do telhado, através da qual brilhava aquela estrela enorme.
"Ai, pobre de mim", pensou o pinheiro tateando todos os galhos para ver se havia alguma fratura. "o que eu fia para ser abandonado num lugar tão frio e solitário?"
Mas ninguém ouviu. E ali o pinheiro ficou muitos dias e muitas noites.
Certa noite, porém, com o canto do olho, o pinheiro viu quatro pontos vermelhos reluzentes. Eram os olhos de dois ratinhos minúsculos que ocupavam as paredes do sótão. "Ah", disse-lhes em voz baixa, "ah, minhas senhoras, sabem me dizer quando virão me buscar, quando voltarei para a sala especial?" O camundongo de macacão e cachecol começou a rir e a gaguejar: "V-v-v-vir para levar você de volta para a sala especial? Ha, ha, ha."
Mas o outro camundongo, de vestido e avental branco, cutucou o companheiro e falou com a árvore com gentileza: "Querida árvore, ora, você teve uma vida boa, não teve?"
"Tive", concordou a árvore, com tristeza.
"Ah, sei que você sentia ter nascido para essa vida, tanto que não desejava que ela mudasse. Mas..." , e nesse ponto ela afagou a árvore, "todas as coisas boas, árvore querida, mesmo as coisas boas, têm seu fim."
"Essa época precisa terminar?" Indagou o pinheiro.
"Sim", respondeu o camundongo, erguendo a mão e acariciando-a novamente. "Essa época já terminou. Mas agora começa um tempo diferente. Uma nova vida, um tipo de vida diferente sempre se segue à antiga. Você vai ver."
 E os dois camundongos fizeram companhia à arvore a noite inteira. Contaram histórias e cantaram todas as músicas que conheciam. O pinheiro perguntou se os camundongos não gostariam de subir nos seus galhos para se aquecer, e eles disseram que sim, muito obrigado, e subiram. Juntos eles dormiram durante a noite escura com a grande estrela lá fora se aproximando cada vez mais da janela, quase como se soubesse de seus destinos e, com pena, lançasse sua luz ainda mias sobre eles.
Pela manhã, o pinheiro e os camundongos foram despertados abruptamente pelo ruído de passos pesados na escada, e o casal de camundongos saltou dos galhos do pinheiro. "Adeus, querido amigo. Lembre-se de nós como nós nos lembraremos de você e da sua bondade." E os camundongos correram para a fresta na parede.
A porta do sótão foi aberta com violência, e o pai, usando um gorro de lã e um sobretudo, agarrou o pinheiro e o arrastou pela longa escada abaixo, pela porta, até o quintal. Ali, deitou o pinheiro num toco velho e ergueu muito alto um machado enorme, que caiu com o mais terrível dos pesos, provocando os ruídos mais medonhos de madeira dilacerada. Com o primeiro golpe, a árvore achou que ia morrer com a dor, e antes do segundo já estava inconsciente.
Muito tempo depois, o pinheiro acordou novamente no canto da sala especial e, embora não se sentisse muito bem, parecia que lhe faltavam apenas sua copa verde e que seus braços estavam arrumados de um modo totalmente diferente, em pedaços. No entanto, viu, nas poltronas diante da lareira, o velho casal que conhecera quando chegou à casa, vindo da floresta. Eram eles que haviam banhado seu ferimento com água fresca. Ali estavam eles, bem juntinhos diante do fogo. Apesar do seu estado, o pinheiro sorriu com o amor que via entre os dois.
 O velho levantou-se e jogou um dos braços do pinheiro no fogo. Embora de início o pinheiro resistisse e protestasse, logo compreendeu, enquanto a chama queimava cada vez mais fundo no seu coração, que aquela era sua alegre missão no mundo - dar calor para pessoas como essas. Ah, ser aquecido de dentro para fora pelo amor, e de fora para dentro pelo amor de alguém como ele.
 O pinheiro ardeu então com uma força ainda maior. "Ah,nunca pensei que pudesse queimar com tanto brilho, que pudesse encher uma sala com tanto calor. Amo esse velhos com todo o meu coração." O pinheiro e todos os nós na sua madeira - e no seu cerne - explodiam de alegria nas chamas.
 Noite após noite, o pinheiro permitia essa entrega. Era tão completa sua alegria por ser útil e ter vida que ele queimou e queimou até não restar mais nada dele, a não ser as cinzas que jaziam no fundo da lareira.
Quando estava sendo varrido da lareira pelo velhos, pensou que sua vida fora gloriosa, mais do que esperara, só que agora a nada poderia aspirar.
O casal de velhos era muito cuidadoso e, com suas mãos velhas e sábias, varreu delicadamente cada fragmento de cinzas da lareira. Puseram as cinzas num saco macio e muito usado e o guardaram até a chegada da primavera.
Quando a terra começou a se aquecer, o velho e a velha trouxeram para fora da casa o saco de cinzas, entraram pelos jardins e espalharam cuidadosamente as cinzas do pinheiro por todas as videiras e também por todas as suas terras. Eles misturaram as cinzas do pinheiro ao solo. Com o tempo, quando as chuvas e o sol da primavera chegaram para ficar, as cinzas sentiram sinais de vida por baixo delas.
Aqui e acolá, por baixo, através e em volta das cinzas, surgiam minúsculos brotos verdes das entranhas do solo, e o pinheiro deu milhares de sorrisos e milhares de suspiros na sua felicidade por voltar a ser útil.
"Ai, eu não sabia que podia virar um monte de cinzas e ainda assim voltar a produzir tanta vida nova. Que sorte coube à minha vida. Cresci no isolamento da floresta. Mais tarde, que belos dias e noites de copos a tilintar, de luz de velas e cantorias eu vim a conhecer. Na minha época de solidão e carência, na mais escura das noites, tive a amizade de estranhos, como se fôssemos uma só família, ou até mais do que isso. Mesmo quando estava sendo dilacerado pelo fogo, descobri que podia emitir imensa luz e calor do meu próprio coração. Que sorte, como fui afortunado.
"Ah", suspirou o pinheiro, " de tudo que cresce, cai e cresce novamente, é só o amor pela vida nova, e apenas ele, que dura para sempre. Agora estou em toda a parte. Está vendo como vou longe?"
Naquela noite, quando a grande estrela cruzava o céu noturno do universo, o pinheiro jazia sobre a terra abençoada, aninhando-se junto às raízes e sementes para aquecê-las com suas próprias cinzas, nutrindo para sempre todas as coisa que crescem; e essas, por sua vez, nutrindo outras, que por sua vez nutririam ainda outras, por todas as gerações futuras. Naquela lindíssima terra, da qual ele vinha e para a qual agora voltava, ele dormiu bem e teve sonhos profundos, cercado ali - como um dia estivera cercado antes no meio da floresta - por aquilo que é muito maior, mais majestoso e muito mais antigo do que jamais se conheceu.

Estés,Clarissa Pínkola, O Jardineiro que tinha fé: uma fábula sobre o que não pode morrer nunca - Rio de Janeiro,: Rocco, 1996

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Conto de Natal (Parte II)

E assim continua a história de nosso amigo pinheiro...



Afinal, quando ia escurecendo, o trenó com a família e a árvore no reboque estacionou diante de um chalé coberto de neve. Um velho e uma velha saíram pela neve adentro e se aproximaram do reboque, exclamando? "Que árvore linda, linda, tão alta e tão cheia. Do tamanho exato. Perfeita."
"Ah", pensou o pinheiro, "como é bom ser bem-vindo. Eu me pergunto se este não é o lugar aonde alguns dos meus vieram ao longo dos anos. Ah, espero voltar a vê-los em breve".
 Os velhos o tiraram do reboque com mãos cuidadosas. Eles o admiraram, o afagaram, virando-o de um lado e do outro. Mergulharam o tronco cortado de árvore num balde de água fresca que aliviou grande parte de sua dor.
E quando apagaram os lampiões, o pinheiro, que amava a profunda escuridão da floresta, começou a amara também a escuridão daquela casa. Apesar de estar acostumado a ver o céu noturno inteiro, cheio de estrelas, e agora só enxergar um pedacinho de céu através de uma pequena vidraça na janela, havia uma estrela que cintilava mais do que as outras. Ao vê-la, o pinheiro pressentiu a promessa de que muito ainda estava por acontecer.
Com estes pensamentos, ele, como o restante da casa, logo adormeceu num sono profundo e feliz.
Bem cedo na manhã do dia seguinte, houve muito barulho e rebuliço com todo mundo se cumprimentando, se queixando e tagarelando. Alguém estava tirando a poeira do balde de aparas de lenha para enchê-lo ruidosamente. Os cachorros entraram latindo de alegria, seguidos pela crianças, depois a mãe e o pai, os mais velhos e também outras crianças e amigos, todos trazendo muitas caixas.
 A árvore esperava, literalmente prendendo a respiração de tanta emoção. As pessoas tiraram as tampas das caixas, e dentro delas havia enfeites de todos os formatos e tamanhos, feitos de vidro finíssimo. Havia guirlandas de frutinhas e velas com pequenos papeis coloridos em copinhos de vidro.
Em toda a sua volta, a árvore foi adornada e enfeitada com esses objetos. E depois, que maravilha! Dezenas de velas foram acesas, uma após a outra,e arrumadas em círculos e espirais até os galhos mais altos, deixando o pinheiro em glórias absoluta.
"Ah, isso é tudo o que os mais velhos lá na floresta descreviam, e muito mais", exclamou o pinheiro. Ele fez um esforço enorme para esticar ainda mais os seus galhos enquanto procurava ficar o mais bonito possível. as crianças gritavam e corriam ao redor, enquanto outros tocavam e cantavam; ah, que alegria, especialmente quando uma linda criança, erguida pelo avô, colocou uma estrela de papel no ponteiro bem no alto da árvore.
Naquela noite, depois que as crianças dormiram e o pinheiro cochilava, enquanto o brilho da grande estrela entrava pelas janelas, os mais velhos entraram furtivos na sala com presentes embrulhados em papel pardo liso e bonito, enfeitado com retalhos de pano que eles haviam unido com uma linha colorida de bordar. No consolo da lareira, puseram cavalinhos, porquinhos, patinhos e vaquinhas feitos de maçãs e laranjas, com gravetos enfiados no lugar das pernas, e olhos e focinhos esculpidos de modo a parecer que estavam sorrindo. E todos foram feitos com mãos cheias daquele tipo de amor que deseja surpreender e agradas as criancinhas.
Pela manhã, a árvore acordou sobressaltada quando as crianças entraram correndo, gritando e exclamando: "Ah, olhem como a árvore está linda, e os presentes ali embaixo". E elas abriram os embrulhos e exibiam belas bonecas de trapos com densas cabeleiras castanhas de lã e vestidos de crochê, feitos a mão. Em seguida, desembrulharam carroças feitas de restos de madeira com rodinhas que giravam de verdade.
Elas arrancaram as castanhas do pinheiro, e a árvore farfalhava os galhos, feliz por participar de tudo com que havia sonhado e muito mais.
Mais tarde, as crianças tiravam uma soneca no tapete e os adultos também cochilavam. Até mesmo os cães e os gatos estavam adormecidos, a sonhar. E o pinheiro refletia sobre seu destino incrível e sobre todos os acontecimentos do dia. Estava felicíssimo.
Naquela noite, quando todos estavam na cama e roncando baixinho - o cão e o gato, assim: zzzzzz; as crianças, assim: zzzzzzz: a mãe, o pai e os mais velhos, assim: ZZZZZZ - a árvore dormia profundamente e sonhava dom sua nova vida.
No dia seguinte e no outro, a árvore continuou orgulhosa na sala, embora estivesse um pouco desarrumada por ter todas as fitas arrancadas e porque sua estrela estava meio caída sobre um dos seus olhos. Apesar disto, tudo estava uma glória mesmo quando o pinheiro viu que a maioria das crianças e dos adultos subia nos trenós e ia embora. "Ora, estarão de volta hoje à noite", pensou o pinheiro, " e então vão mais uma vez pôr meu tronco machucado numa água fresca e nova. Vão me decorar de novo e a festa vai recomeçar".
O pai entrou então, com passos pesados, e tirou todos os enfeites do pinheiro, guardando-os em caixas com camadas de enchimento de algodão. Depois, tirou a árvore da água e a sacudiu com tanta força que qualquer outra coisa que pudesse estar escondida nos galhos cairia ao chão. ele deixou as guirlandas de frutinhas secas na árvore e a arrastou da sala.
O pinheiro apesar de surpreso com este tratamento grosseiro, ainda estava esperançoso." Ah, eu me pergunto para que sala iremos agora." Ele imaginou todo o processo jubiloso da decoração, das crianças dançando e de todos cantando, e suspirou ao pensar nisso tudo.
O pai, no entanto, arrastou de maneira descuidada o pinheiro pela escada de madeira acima, que não parava de subir e cujos degraus iam se estreitando cada vez mais quanto mais eles subiam. E afinal, no patamar mais alto, o pai abriu uma pequena porta e, sem-cerimônia, jogou a árvore lá dentro. A árvore exclamou alarmada no que lhe pareceu um grande grito: " Que tipo de escuridão é esta?" Mas a verdade é que ninguém pareceu ouvir, pois o pai fechou a porta e desceu de volta pela escada.


Continua....


Estés,Clarissa Pínkola, O Jardineiro que tinha fé: uma fábula sobre o que não pode morrer nunca - Rio de Janeiro,: Rocco, 1996

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Um conto de Natal (parte I)

Chega o Natal . Compras. Pressa. Gente querendo driblar os desafetos e as mágoas nas comemorações  em família. Insatisfações...
Esquecido é mesmo o suposto aniversariante. Bem sabemos que Jesus não deve ter nascido no solstício de inverno. Muitas festas pagãs eram celebradas nesta data e resolveram sobrepor uma mitologia a outras. Certo é que este é um nascimento que mudou o mundo. Como diria Gabriel: " O que era não será mais!" Da prática de arrancar dentes e olhos poderíamos dar a outra face. No sussurro que o Arcanjo fez no ouvido da menina Maria estava contida toda uma jornada. Dizem que a ela foram reveladas naquele sussurro a vida e a morte do Filho. Sim, porque não há sentido no Natal sem a Páscoa. Vida e Morte de um Ser Sagrado. Pena que tão soterrado pela tradições, assim ditas, cristãs.
Clarissa Pínkola resgata neste conto esta ligação de vida, sacrifício, morte e eternidade que, se nos aprofundarmos, se revela no mito do Natal.







Era uma vez, há muito, muito tempos, na época em que os bichos ainda falavam e os humanos conseguiam entender a língua dos animais, um pinheirinho que, embora pequeno em estatura, era imenso em espírito.
Ele vivia nas profundezas de uma floresta cercado de árvores muito majestosas e mais antigas do que qualquer árvore jamais conhecida até então.
A cada inverno, pais, mães e seus filhos penetravam na floresta em velhos trenós de madeira. Com muita felicidade e animação, eles cortavam algumas das árvores de tamanho médio e as levavam embora. Os cavalos veneráveis que puxavam os trenós resfolegavam, e os sinos nos seus arreios retiniam. O riso da crianças e dos adultos ecoava pelo bosque inteiro.
Ah, sim, o pinheirinho ouvira sussurros entre as árvores mais velhas, as que eram altas demais e grandes demais para serem derrubadas pelo machado e arrastadas dali - é, ele ouvira a história de que as árvores cortadas eram levadas para um lugar maravilhoso, chamado casa.
Ali, eram tratadas com o máximo respeito, afagadas por muitas mãos e postas numa água que lhes aplacava a dor. Depois, ao que se dizia, uma família inteira de pessoas sorridentes se reunia ao seu redor. Elas enfeitavam a árvore com objetos pequenos e lindos: pequenos globos feitos de fita com amêndoas dentro, doces e outras guloseimas. Velinhas esplêndidas eram acesas e colocadas nos galhos e ramos da árvore. Finalmente, decorada com balas, guirlandas de frutas e às vezes até enfeites de vidro e minúsculos espelhos coloridos, a árvore se tornava o convidado mais  reverenciado da casa. Era de fato uma das glórias masi magníficas que se poderia um dia conceder a uma árvore
Entre as árvores mais velhas que conheciam esses assuntos, dizia-se que essa era, para os humanos envolvidos uma época de enorme alegria, pois lindas criancinhas vinham cantar, o fogo ardia em cada lareira e mesmo as estrelas no céu pareciam brilhar ainda mais.
De acordo com a descrição das mais velhas, em toda a parte moças e rapazes podiam ser vistos apressando-se e carregando para o salão o alimento que tivessem para compartilhar com todos. As velhas usavam seus melhores aventais brancos. Os velhos, seus melhores ternos e chapéus pretos. E todas as mulheres usavam seus melhores vestidos pretos. Todos os meninos usavam calças que sempre davam coceira, e as meninas, saias perfeitas para ensaiar mesuras. Ah, tudo aquilo parecia perfeitamente maravilhoso. E era com isso que o pinheirinho sonhava.
Ano após ano, ele esperava que o verão passasse, que o outono chegasse e afinal viesse a beleza do inverno. Quando sentia o frio cortante dos ventos, se alegrava. Ficava então felicíssimo no seu belo manto verde que se enchia mais e mais a cada ano que passava. E, também, a cada ano, no inverno, os trenós vinham e cortavam as árvores novamente, enquanto as crianças brincavam e faziam bonecos de neve com formato de anjo nos grandes montes acumulados pelo vento.
Apesar de o pinheirinho ser tímido, ele não conseguia se conter e a cada ano gritava com mais atrevimento: " Venham me escolher! Olhem para mim! Adoro crianças. Adoro essa comemoração fabulosa. Olhem para mim! Por favor! Venham me escolher!"
 Ano após ano, porém, ninguém o escolhia. Logo muitas árvores  haviam sido retiradas da floresta ao seu redor. Agora o parente mais próximo estava a uma boa distância, e o pinheirinho estava bastante só, mas também em pleno sol e assim ele foi crescendo, crescendo, até ficar muito mais alto do que antes.
No inverno seguinte, voltaram os cavalos puxando um trenós com o pai, a mãe e crianças risonhas. Os cavalos empertigados passaram direto pelo pinheirinho, pois o pai estava avaliando um denso aglomerado de árvores mais ao longe. "Espere", gritou uma das crianças, "aquele ali atrás, aquele sozinho." E o pinheirinho começou a tremer de esperança.
"Ah, isso mesmo! Cheguem mais perto! Olhem para ima! Por favor! Venham me escolher!" O pinheirinho se esforçava para ficar mais reto e mais alto. E a família deve ter ouvido o que dizia, pois o trenó parou, os cavalos deram meia-volta e logo a família estava abrindo caminho na neve espessa para examinar a árvore.
"Ah, olhem como os galhos são cheio de vida", exclamou uma criança que tinhas as bochechas perfeitamente rosadas. "Ah, vejam como essa árvore está verde e vigorosa", disse a mãe. "É", respondeu o pai, "essa aqui não parece nem alta, nem baixa demais, está perfeita para nós."
E o pai apanhou seu machado no trenó. Com o primeiro golpe, o pinheiro sentiu a maior dor de toda a sua vida. " Ai", gritou a árvore, "vou cair". E nesse exato momento , ele desmaiou. O machado continuou os golpes até que a árvore fosse separada da sua raiz, derramando grande quantidade de neve ao tombar.
Muito mais tarde, o pinheiro voltou a si no reboque que vinha dançando atrás do trenó. Tilintavam os sininhos nos arreios dos cavalos, e o pinheiro ouvia a conversa e o riso das pessoas. A dor mais terrível parecia estar passando agora; além disso, ele tinha uma vaga lembrança de que estavam indo a alguma parte, a algum lugar importante, lindo e maravilhoso, a um lugar que ele havia desejado ver todos os dias e todos os anos da sua vida passada.

Continua....

Estés,Clarissa Pínkola, O Jardineiro que tinha fé: uma fábula sobre o que não pode morrer nunca - Rio de Janeiro,: Rocco, 1996
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