domingo, 19 de junho de 2011

A semente de Clarissa Pínkola

" Qual é esse processo do espírito e da semente, cheio de fé, que toca o solo nu e o torna rico de novo? Não tenho a resposta completa. Só sei o seguinte: aquilo a que dedicamos nossos dias pode ser o mínimo do que fazemos, se não compreendermos também que algo espera que a gente abra espaço para ele, algo que paira perto de nós, algo que ama, e o que espera que o terreno certo seja preparado para que ele possa se revelar.
  Estou certa de que, enquanto estivermos aos cuidados dessa força de fé, aquilo que pareceu morto não estará morto, aquilo que pareceu perdido também não estará mais perdido, aquilo que alguns alegaram ser impossível tornou-se nitidamente possível, e a terra que está sem cultivo está apenas descansando - à espera de que a semente venturosa chegue com o vento e com todas as bençãos de Deus.
  E ela chegará". Clarissa Pínkola Estés


Assim que conheci Clarissa Pínkola e seu " Mulheres que correm com lobos" fiquei tocada por sua linguagem tão poética e profunda que chama a Mulher Selvagem dentro de nós. Um tempo depois encontrei este pequeno livro, despretensioso a ponto de passar desapercebido por muitos. Assim que o li percebi que funciona como diria sua autora, como um fortificante poderoso, que cura dores de perdas e desilusões devolvendo a vitalidade natural e o desejo de seguir em frente. Sempre que dou a alguém de presente sinto que a pessoa que o recebe não dimensiona o tamanho da benção escondida ali naquelas poucas páginas. Depois de um tempo me agradecem efusivamente por terem recebido algo que lhes chamou à vida plena. Gracias, Clarissa!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Manawee e seu cachorrinho


Sempre que retomo a leitura de "Mulheres que correm com os lobos" me surpreendo por perceber nuances novas. A linguagem poética  de Clarissa Pínkola toca e instiga a prosseguir na jornada da busca de um conhecimento interno profundo e selvagem. As histórias escolhidas por ela são emblemáticas de cada aspecto. Uma de minhas favoritas é Manawee. Fala do amor de um rapaz por duas irmãs gêmeas e da tarefa de lhes descobrir o nome para que com elas possa se casar. Meu personagem favorito é o cachorrinho que se distrai e esquece o que vai fazer o tempo todo. Assim como nós que quando nos lançamos a uma tarefa da alma não podemos sentir cheiro de "torta de laranja" que já saímos do caminho. Faz parte da aventura esquecer e lembrar...


Manawee

Era uma vez um homem que vinha cortejar duas irmãs gêmeas.
- Você não poderá se casar com elas a não ser que consiga adivinhar seus nomes - dizia, porém, o pai das moças.
Manawee tentava e tentava, mas não conseguia adivinhar os nomes das irmãs. O pai das moças abanava a cabeça e mandava Manawee embora todas as vezes.
Um dia Manawee levou seu cachorrinho junto numa visita de adivinhação, e o cachorro percebeu que uma irmã era mais bonita do que a outra e que a outra era mais delicada do que a primeira. Embora nenhuma das duas irmãs possuísse todas as virtudes, o cachorrinho gostou muito delas porque elas lhe deram petiscos e sorriam olhando fundo nos seus olhos.
Também naquele dia Manawee não conseguiu adivinhar os nomes das jovens e voltou irritado para casa. O cachorrinho, porém, voltou correndo para a choupana das irmãs. Ali ele enfiou a orelha por baixo de uma das paredes laterais e ouviu as moças dando risinhos e falando sobre como Manawee era bonito e másculo. Enquanto falavam, as irmãs se chamavam mutuamente pelo nome, e o cachorrinho, tendo ouvido, voltou correndo com a maior velocidade possível para seu dono para lhe passar a informação.
No caminho, porém, um leão havia deixado um grande osso ainda com carne perto do caminho, e o minúsculo cachorrinho sentiu imediatamente o cheiro, não pensou em mais nada e se desviou mato a dentro arrastando o osso. Ali, ele lambeu e mordiscou o osso com grande prazer até que todo o sabor desapareceu. Ah! O pequeno cãozinho de repente se lembrou da tarefa esquecida, mas infelizmente ele também havia esquecido os nomes das moças.
Por isso, ele correu de volta à choupana das gêmeas e dessa vez já era de noite e as jovens estavam passando óleo nos braços e pernas uma na outra e se arrumando como se fosse para uma festa. mais uma vez o cãozinho as ouviu chamando-se mutuamente pelo nome. Ele deu pulos de alegria e estava correndo pelo caminho afora na direção da choupana de Manawee quando do meio do mato veio o aroma de noz-moscada fresca.
Ora, não havia nada que o cachorrinho adorasse mais do que noz-moscada. Por isso, se desviou um pouco do caminho e correu para o lugar onde uma bela torta de laranjas estava esfriando em cima de uma tora. Bem, logo a torta já não existia mais, e o cachorrinho tinha um adorável hálito de noz-moscada. Enquanto trotava de volta para casa com a pança cheia, tentou pensar nos nomes das moças, mas, mais uma vez, ele os havia esquecido.
Finalmente, o cachorrinho tornou a voltar correndo até a choupana das irmãs, e dessa vez as irmãs estavam se preparando para casar. "Ah, não!" pensou o cachorrinho, "quase não tenho mais tempo." E, quando as irmãs se chamaram pelo nome, ele guardou os nomes na mente e saiu em disparada, com a determinaçãoresoluta e absoluta de que nada iria impedi-lo de transferir os preciosos nomes a Manawee imediatamente.
O cãozinho vislumbrou caça pequena recém morta no caminho, mas a ignorou e saltou por cima dela. Por um instante, pareceu-lhe sentir o aroma de noz-moscada no ar, mas ele o ignorou e preferiu continuar correndo na direção da sua casa e do seu dono. No entando, ele não contava com a possibilidade de um estranho de negro saltar do mato, agarrá-lo pelo pescoço e sacudi-lo ao ponto de seu rabo quase cair. Pois, foi o que aconteceu.
- Diga-me aqueles nomes! Diga-me os nomes das moças para que eu as possa conquistar - gritava o estranho o tempo todo.
O cãozinho achou que ia desmaiar com aquele punho lhe apertando o pescoço, mas lutou com bravura. Ele rosnou, arranhou, esperneou e, afinal, mordeu o estranho entre os dedos. Os dentes do animal picavam como vespas. O estranho berrava como um búfalo-da-índia, mas o cãozinho não soltava. O estranho correu pelo mato adentro com o cãozinho pendurado numa das mãos.
- Solte-me, solte-me, cãozinho, e eu o soltarei - implorou o estranho de negro.
- Não volte por aqui - rosnou entre dentes o cãozinho - ou não verá mais a luz do dia. - E assim o estranho fugiu pelo mato, gemendo enquanto corria. O cachorrinho prosseguiu meio mancando, meio correndo, pelo caminho até encontrar Manawee.
Muito embora seu pêlo estivesse sujo de sangue e suas mandíbulas doessem, os nomes das jovens estavam bem nítidos na sua mente, e ele se aproximou de Manawee, claudicante, mas feliz da vida. Manawee correu de volta até a aldeia das moças com o cachorrinho nos ombros, e as orelhas do cachorro dançavam ao vento como rabos de cavalos.
Quando Manawee chegou até o pai com os nomes das filhas, as gêmeas receberam Manawee completamente vestidas para viajar com ele. Elas haviam estado à sua espera o tempo todo. Foi assim que Manaweeconquistou duas das donzelas mais belas da região. E todos os quatro, as irmãs, Manawee e o cãozinho, viveram juntos em paz por muito tempo.
Krik Krak Krout, now this story is out.
Krik Krak Krun, now this story is done.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Amigo é coisa para se guardar...

Amizade é fundamental. Alimenta nossa existência, amplia nossos horizontes. Há alguns anos esbarrei em alguém muito especial, que vê a vida com olhos meio de criança, acreditando que tudo pode ser melhor. Apresentou-me as trilhas do Matutu, as belezas de Caieiro e o céu estrelado de um sítio escondido na mata. Com ele aprendi a caminhar segura por entre paisagens antes muito temidas. Contou-me histórias de deuses hindus que passaram a compor meu panteão interno. Levou-me a me doar num trabalho que me trouxe de volta um lado meu, mais gentil e carinhoso. Enfim, por ser tão diferente, chamou partes minhas que eu nem supunha que existiam. Eu brigo muito com ele, por suas ideias tão discordantes da maioria. Ele nunca se agita, nunca se irrita, nem se abala. O que é extremamente exasperante. Mas nossa amizade cresce assim e floresce numa compreensão mútua que atravessa as distâncias e os silêncios. Agradeço aos deuses que o trouxeram e a ele que permaneceu.

Soneto do amigo
Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que surge no outro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...

Vinicius de Moraes

terça-feira, 14 de junho de 2011

Para meu personagem russo predileto


Era uma noite muito fria. Há dias eu vinha tendo contrações, ía para a maternidade e nada. O pequeno não queria sair do quentinho de jeito nenhum. Enfim, nesta gélida madrugada ele resolveu que chegara a hora e se chegara a hora deveria ser o mais rápido possível. Uma corrida louca até o Hospital, todos preocupados que nascesse no carro. Eu tentava acalmar minha tia, mas sabia que já estava nas últimas contrações. Na maternidade, uma balbúrdia de médicos agitados, macas e luzes. Foram apenas noventa minutos de trabalho de parto, nem tive como trocar de roupa e lé estava ele, olhinhos azuis brilhantes a me fitar. " Foi assim como ver o mar"...
Geminiano falante e apressadinho, cresceu criando mundos e teorias múltiplas. Certo dia, cansado de só falar línguas mais comuns resolveu que queria aprender algo diferente: russo. Assim fez. Virou praticamente um russo legítimo. Queria tocar bateria, não tinha uma, contruiu com Tuperwares de diferentes tamanhos, os tons e com listas telefônicas, os pedais. Em pouco tempo saía um som interessante. Até que ganhou uma de verdade e acabou com os ouvidos de todos no prédio com sua banda de Metal.
Um dia ainda pequeno, ia pela primeira vez dormir na casa de um amiguinho. Eu, mãe um tanto dramática, lhe disse: " Você vai me deixar aqui?" ao que ele respondeu do alto de seus cinco anos: "Mãe, eu vou mais eu volto e assim será a vida toda. Eu sempre volto porque sou seu filho". E assim ele fez e faz...

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Um genial geminiano...



Amo geminianos. Talvez sejam minha sina. São inteligentes, divertidos e sobretudo imprevisíveis. O primeiro que me enfeitiçou não conheci pessoalmente dadas as circunstâncias, foi também o mais genial: Fernando Pessoa. Nasceu e morreu em Lisboa. Viveu apenas 47 anos, mas alargou em muito nossas possibilidades de contemplar o mundo e a vida. Criou vários heterônimos, os quais desenvolveram estilos próprios e estranhamente diversos.
Quando adolescente apaixonei-me intensamente por Álvaro de Campos e sua inquietação torturada. Vivia de "Tabacaria" e "Lisbon Revisited". Fazia eco à minha crescente descoberta das complexidades do mundo adulto. Álvaro dizia no começo de "Tabacaria":


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Eu me identificava plenamente e me sentia traduzida. A irritação exasperada me compunha à época.

Passaram-se os anos e outro geminiano me apresentou Caieiro num passeio pela natureza. Encantou-me a contemplação muda e silenciosa dos vales, rios, montanhas e girassóis. Sabedoria e simplicidade a andar de mãos dadas. Nova compreensão do Sagrado se descortinou para mim, para além do pensamento. Num poema do Guardador de Rebanhos fala sobre felicidade e infelicidade...



XXI
 
 
     Se eu pudesse trincar a terra toda 
     E sentir-lhe uma paladar,
     Seria mais feliz um momento ... 
     Mas eu nem sempre quero ser feliz. 
     É preciso ser de vez em quando infeliz 
     Para se poder ser natural...
     Nem tudo é dias de sol,
     E a chuva, quando falta muito, pede-se.
     Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
     Naturalmente, como quem não estranha
     Que haja montanhas e planícies
     E que haja rochedos e erva ...

     O que é preciso é ser-se natural e calmo
     Na felicidade ou na infelicidade,
     Sentir como quem olha,
     Pensar como quem anda,
     E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
     E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
     Assim é e assim seja ...


Pessoa se repartiu em vários, dizem que entre pseudônimos, heterônimos,semi-heterônimos, personagens fíctícios e poetas mediúnicos chega-se a 72 nomes. Este sim foi um representante digno de seu signo...

domingo, 12 de junho de 2011

Se você vier pro que der e vier comigo...


Datas comemorativas podem ser dias especiais. Também podem ser apenas motivo para consumir. Entretanto sempre se ouve que todo dia é dia das Mães, dos Namorados, dos Pais... Todo dia deveria ser da gentileza, do carinho e do cuidado com quem amamos. Mas humanos que somos, nos esquecemos e temos de ser lembrados pelas comemorações da cultura. Presentes à parte, o que faz-se necessário é nossa presença constante e atenta nas relações que criamos.
Em nossos amores todos temos trilhas sonoras, canções que nos remetem imediatamente a sentimentos adormecidos, ou muito vivos  dentro de nós. Hoje acordei com uma, de um compositor de rara sensibilidade, que para mim, é um convite à aventura que é amar e se deixar amar. Neste dia dos Namorados faz bem lembrar...



Dia Branco

Composição : Geraldo Azevedo/ Renato Rocha

Se você vier
Pro que der e vier
Comigo...
Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva...
Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar...
Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto
Esse canto de amor
Oh! oh! oh...
Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo
Se você vier
Pro que der e vier
Comigo...
Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva...
Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar...
E nesse dia branco
Se branco ele for
Esse canto
Esse tão grande amor
Grande amor...
Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo
Comigo, comigo.



 

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O mestre pintor

Conta a lenda que histórias podem curar.  Dores do corpo e mágoas da alma. Esta mesma lenda diz que todos temos um contador de histórias interno, sábio e amoroso. Apenas precisamos aquietar, acender o nosso esquecido fogo interno e a história que pode nos curar virá...

Wang-fo

O velho Wang-fo avançava lentamente pelas ruas do reino de Han porque parava com muita frequência para observar o mundo natural. Para ele, nada valia a pena comprar, exceto pinceis, potes de laca, tinta e rolos de seda e papel-arroz. O seu discípulo, Ling, carregava um saco repleto dos esboços de seu mestre, curvado como se estivesse carregando o mundo nos ombros. Para Ling, o saco estava cheio de montanhas cobertas de neve, temporais na primavera, e a face da lua de verão.
Num dia fatídico, Wang-fo foi convocado ao Palácio Imperial onde o imperador sentava-se num trono alto, em seu jardim de meditação. Circundado pelas pinturas de Wang-fo, esse imperador havia sido criado na solidão e nunca havia se sentido livre para se expressar. Aos 16 anos, finalmente tivera permissão de olhar a vida fora do palácio pela primeira vez, mas achou-a menos bela do que as pinturas do mestre. Com uma amargura trágica, o jovem imperador frustrado gritou: "Esse mundo não passa de uma massa de cores confusas, atiradas no vazio por um pintor insano, e manchadas por nossas lágrimas".
O desejo do imperador pela beleza além deste mundo se transformou em desgosto frente à aspereza da realidade. Ele concebeu um castigo para o pintor, cujo talento o havia deixado cheio de admiração. Decretou que os olhos do artista, que haviam visto tamanha beleza, fossem queimados e as mãos que o haviam expressado fossem cortadas. Mas primeiro ele assassinou Ling, o servo fiel do artista. A seguir, a um sinal do dedo mínimo do imperador, dois eunucos, de modo respeitoso, levaram adiante o rolo de pergaminho inacabado no qual Wang-fo havia esboçado a imagem do mar e do céu. Wang-fo selecionou um dos pinceis que um escravo mantinha à disposição dele e começou a espalhar grandes traços azuis no mar inacabado. Um frágil barco a remo emergia das pinceladas do pintor e agora ocupava todo o primeiro plano do pergaminho de seda. O som rítmico dos remos surgiu na distância, rápido e ávido como o bater de asas.
Então pela mágica do talento do velho mestre, Ling ergueu-se e ajudou o mestre a entrar no barco-espírito. Conforme o som dos remos enchia a sala, forte e constante como o bater de um coração, Wang-fo terminou a pintura e o imperador, inclinando-se para a frente, uma mão acima dos olhos, observou o barco de Wang navegar para longe, em meio a névoa dourada, e desaparecer. O pintor e o seu discípulo desapareceram para sempre no mar azul que Wang-fo havia acabado de criar.

Mellon, Nancy - " Corpo em equilíbrio: o poder do mito e das histórias para despertar e curar as  energias físicas e espirituais"  São Paulo, Cultrix, 2010
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...