sábado, 30 de dezembro de 2017
Fim
Estranho amor é aquele que acaba
A música ainda toca mas não nos toca mais
Os olhos perdem o inusitado
A chegada perde a alegria
A partida, o suspiro
Ele se esvai nos silêncios, nos descuidos, nas demoras...
Quando passa nada resta nos territórios da alma
Continentes e Oceanos vazios de desejos
Não mais dores, não mais esperas
Apenas a indiferença e a paz dos desiludidos.
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
Quando entrar setembro...
Amo setembro. Revendo minha jornada este sempre foi um mês de surpresas e mudanças. Certa feita numa Oficina de dizer Poesia com Elisa Lucinda fui visitada por um poema de Adélia que esclarece mistérios.
Meditação à beira de um poema
Podei a roseira no momento certo
e viajei muitos dias,
aprendendo de vez
que se deve esperar biblicamente
pela hora das coisas.
Quando abri a janela, vi-a,
como nunca a vira
constelada,
os botões,
Alguns já com rosa – pálido –
espiando entre as sépalas,
jóias vivas em pencas.
Minha dor nas costas,
meu desaponto com os limites do tempo,
o grande esforço para que me entendam
pulverizam-se
diante do recorrente milagre.
Maravilhosas faziam-se
as cíclicas perecíveis rosas.
Ninguém me demoverá
do que de repente soube
à margem dos edifícios da razão:
a misericórdia está intacta,
vagalhões de cobiça,
punhos fechados,
altissonantes iras,
nada impede ouro de corolas
e acreditai: perfumes.
Só porque é setembro
Adélia Prado
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Hera ou não Hera
Deusas são sempre Deusas e como tais merecem, no mínimo, nosso respeito. Como representam energias que se manifestam em nós, réles mortais, podemos dizer que temos mais afinidades com esta ou aquela. Devo confessar que Hera, a mulher de Zeus, nunca me foi muito querida, posso até dizer que nunca cheguei perto de comprendê-la. Reconheço que é o arquétipo da Grande Mãe que foi destronada pelo Patriarcado e que seus ciúmes e luta pelo Poder podem vir desta tragédia que aconteceu ao feminino.
Muitas Heras cruzaram meu caminho. Algumas divertidas como a menina que apareceu com roupão, bobes no cabelo e pau de macarrão em punho correndo atrás do namorado numa festa à fantasia em Taubaté. Já encontrei Hera que consegue num discurso de cinco minutos, inserir "MEU MARIDO" umas quatro vezes a cada frase. Por vezes fazem a sonsa mas, Afrodites de plantão, nunca subestimem esta Senhora. Quando vocês se derem conta terão virado pó aos pés dela.
Mas a poesia transforma percepções e Adélia Prado me fez perceber uma Hera possível em mim. Ao ouvir o poema senti seu cheiro, sua força, seu caráter sagrado. Honrada seja aquela que faz um barraco no beco e ressurge divinizada.
Briga no Beco
Encontrei meu marido às três horas da tarde
com uma loura oxidada.
Tomavam guaraná e riam, os desavergonhados.
Ataquei-os por trás com mão e palavras
que nunca suspeitei conhecer.
Voaram três dentes e gritei, esmurrei-os e gritei,
gritei meu urro, a torrente de impropérios.
Ajuntou gente, escureceu o sol,
a poeira adensou como cortina.
Ele me pegava nos braços, nas pernas, na cintura,
sem me reter, peixe-piranha, bicho pior, fêmea-ofendida,
uivava.
Gritei, gritei, gritei, até a cratera exaurir-se.
Quando não pude mais fiquei rígida,
as mãos na garganta dele, nós dois petrificados,
eu sem tocar o chão. Quando abri os olhos,
as mulheres abriam alas, me tocando, me pedindo graças.
Desde então faço milagres.
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
Quatro elementos
Ela ,ainda quase menina , apaixonara-se pelo marinheiro, descendente dos
reis do mar. Em seus olhos verdes mergulhava feliz. Ele, como bom
marinheiro que era, a deixou a ver navios.
Desiludida, caminhou pelos mundos até que encontrou o Senhor das Florestas e das profundezas da terra. Perdida de amor ficou. Mas a terra, esta ciumenta, um dia o tomou para si.
Inconsolável, buscou abrigo nos braços de um sacerdote do Deus dos Ventos. Parecia tranquila e feliz, até que por ali passou o Grande Circo. Não conseguiu resistir aos saltos destemidos do trapezista. Com ele fugiu.
Dizem que hoje cospe fogo como ninguém. Tornou-se, enfim, mulher-dragão.
Desiludida, caminhou pelos mundos até que encontrou o Senhor das Florestas e das profundezas da terra. Perdida de amor ficou. Mas a terra, esta ciumenta, um dia o tomou para si.
Inconsolável, buscou abrigo nos braços de um sacerdote do Deus dos Ventos. Parecia tranquila e feliz, até que por ali passou o Grande Circo. Não conseguiu resistir aos saltos destemidos do trapezista. Com ele fugiu.
Dizem que hoje cospe fogo como ninguém. Tornou-se, enfim, mulher-dragão.
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| Foto por Miriam Cardoso de Souza |
Domingo no Parque
Outro dia, um domingo de inverno com cara de primavera, minha alma pediu passeio e rua.Coloquei um livro debaixo do braço e parti para o parque. Caminhava alegre com a possibilidade de me aboletar debaixo de uma árvore e me deliciar com a biografia inventada de Pessoa com que nos presenteou Elisa Lucinda. Lá chegando encontrei um menino pequeno vestido com aquela amarela camisa que nos define como amantes de futebol e de Brasil. Andava, serelepe, ao lado da mãe e disse certeiro: "Mamãe, hoje é o dia mais feliz de toda a minha vida!" Sete anos de uma longa vida que foi vivida para que aquele dia chegasse . Quem saberia a razão de tanta plenitude?! A mãe achou exagerado. Eu concordei e, silenciosamente, emendei: Meu também! Meu também!
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
A História de YUNUS EMRÉ
Começa mais um ano. Percebi que todas as pessoas anseiam por mudanças, por uma vida melhor, um trabalho melhor, uma saúde melhor, um amor melhor. De certa forma acreditamos que um ano novo traga transformações. Pode até ser, mas o melhor há de começar em nós. De dentro pra fora. Lembrei-me de algo interessante que me aconteceu neste estranho ano de 2013: estava ouvindo um paciente muito querido contar de seus processos criativos e da demora em conseguir a excelência. Enquanto ele falava parecia ouvir ecos de uma história (isto sempre me acontece, médium de histórias que sou). Entretanto não me lembrava dela por inteiro, nem sabia o nome ou onde encontrar a cópia que tinha. Pois, ao chegar em casa e olhar o Facebook- sim o Facebook - lá estava em minha página postada pelo meu mestre contador de histórias que nunca, jamais, em tempo algum posta nada para mim. Fiquei estarrecida! Tudo isto para dizer o que me proponho para 2014: aceitar que a vida sempre traz aquilo de que precisamos das formas mais insólitas e contar muitas histórias todos os dias, além de ouvi-las com todo o amor e carinho de sempre. Afinal, foi exatamente para isto que eu nasci.
A HISTÓRIA DE YUNUS EMRÉ
Yunus Emré, em tempos muito antigos, inventou cantos mais duráveis que a memória de sua própria vida. foi também um incansável buscador da verdade. Aos vinte e oito anos aproximadamente, ou talvez mais jovem ainda, veio-lhe ao coração uma avidez pelo conhecimento que o levou pelos caminhos do mundo. Ele partiu na esperança de que esta sede de saber o conduzisse a um mestre que o iluminasse. Esse mestre, foi-lhe dado encontrar depois de dez anos de errância miserável, no grande vento de uma colina, em plena estepe da Anatólia. Chamava-se Taptuk e era cego.
Taptuk também havia viajado muito, mas por caminhos diferentes dos de Yunus. Adolescente ainda, raspou sua cabeça e sobrancelhas e vestindo um gorro de feltro vermelho foi combater invasores mongóis. Atravessou tantas derrotas quanto efêmeras vitórias. Cavalgou com o sabre entre os dentes, perseguindo homens tão loucos quanto ele.
Odiou, pilhou, matou, cem vezes perdeu e encontrou sua alma no furor dos combates, até que finalmente o silêncio se abateu sobre sua cabeça. numa noite de derrota, ele foi deixado como morto num campo de batalho, à beira de um riacho. Lá, uma mulher, a primeira de sua existência com exceção de algumas prostitutas de tavernas, finalmente debruçou-se sobre ele. Ela o recolheu, cuidou dele até curá-lo. Só não pode devolver-lhe a visão que lhe tinha sido tomada por um sabre inimigo. Ela então lhe ofereceu sua vida, sua mão para conduzí-lo. Desse dia em diante, guiado por sua esposa, Taptuk não sonhava outra coisa a não ser encontrar nele mesmo um caminho até a fonte silenciosa de onde se eleva a luz que torna todas as coisas simples.
Uma noite, nesse deserto seco onde ninguém se aventura, com exceção de alguns pastores perdidos, ele alcançou a fonte. Lá, construiu sua casa. Outros buscadores juntaram-se a ele, de tempos em tempos, levados por não se sabe que vento da alma. Eles reconheceram neste homem imponente e de poucas palavras o mestre que eles esperavam. Construíram suas cabanas perto da sua e em volta construíram uma paliçada.
Quando yunus Emré chegou a este lugar, o monastério de Taptuk, o cego, não era mais do que isso: algumas choupanas baixas rodeadas por um muro de pedras secas na estepe infinita. Taptuk, assim que apalpou o rosto e os ombros deste andarilho faminto de saber, prometeu-lhe a verdade.
- Ela chegará aos poucos – disse-lhe. Por enquanto seu trabalho será varrer sete vezes por dia o pátio do monastério. Yunus obedeceu de coração. No instante mesmo em que se viu diante desse ancião de cabeça raspada, uma confiança inquebrantável apoderou-se dele. sete vezes por dia varria o pátio com entusiamo, saudando alegremente o mestre e seus discípulos quando eles se reuniam na casa da esposa onde Taptuk, o cego, ensinava todas as manhãs. Mas ninguém respondia as suas saudações. “Está bem que os discípulos me ignorem, dizia-se, mas aquele que tão bem me acolheu em sua casa, por que não me dirige a palavra ? “. Assim se passou um ano, depois dois e três anos, sem que ninguém falasse com ele. Então, seu coração tornou-se pesado. “Sem duvida este silêncio significa alguma coisa, pensou, seguramente meu mestre quer ensinar algo para minha alma, pois é à alma que se dirige a palavra sem voz”.
Refletiu sobre sua solidão miserável, enxotando sete vezes por dia o pó que o vento trazia sem cessar para o pátio do monastério. Enfim, numa manhã de primavera, ao sair de sua cabana, a vassoura nos ombros, uma luz lhe veio. “Descobri ! Taptuk quer ensinar-me a paciência”, se disse ele. Seu coração encheu-se de júbilo e ele voltou a varrer o pátio com um ardor renovado.
Cinco anos se passaram. dois outros escoaram ainda, depois três, depois cinco novos anos, sem que sua sorte mudasse. Então Yunus desesperou-se. “Que fiz eu para merecer tão longa indiferença?” se disse ele. Talvez meu mestre tenha me esquecido. Ou talvez não seja eu para ele senão um idiota recolhido por piedade, bom apenas para varrer o pátio. Esforçou-se, no entanto, para refletir desapaixonadamente. Numa noite de tempestade, veio-lhe ao espírito que Taptuk talvez quisesse ensinar-lhe a humildade. Em meio a escuridão atormentada em que se encontrava, ele sorriu. “É isto, ele quer me ensinar a humildade”. Na manhã seguinte, quando iniciou o trabalho, seus gestos estavam mais comedidos e, porque seu coração estava em paz, ele se pôs, enquanto varria o pátio, a cantarolar. Pouca coisa. Palavras que lhe vinham, cantos que lhe subiam aos lábios e que ele deixava ir ao vento pela única satisfação de ouvir voz humana. Entretanto, sua confiança em Taptuk pouco a pouco o deixou. Este homem, decididamente, o enganara. Ele não tivera jamais a intenção de ensinar-lhe o que havia prometido. “Perco minha vida a esperar”, se disse ele.
Cinco anos ainda, varreu o pátio cantando, sem que ninguém o escutasse. Uma noite, cansado dessa miserável existência e convencido de que ninguém se aperceberia de sua ausência, decidiu deixar aquele lugar onde, depois de quinze anos de humilde paciência, não havia encontrado senão amargura e melancolia.
Ele se foi pela noite, caminhando sempre em frente. Caminhou até o amanhecer, embriagado de liberdade sem esperança. sentiu fome e sede mas não havia nenhuma fonte onde saciar-se, nenhum abrigo onde pudesse refazer as forças neste infinito deserto de ervas amarelecidas, pedras e vento. “Vou morrer, se disse. Que importa? Mais vale morrer caminhando do que varrendo o pátio de um louco.” Andou, pois três dias inteiros. Na noite do terceiro dia, no momento que ia deitar-se sobre um rochedo para oferecer seu corpo extenuado aos abutres, percebeu ao longe um acampamento. Surpreendeu-se. Nenhum viajante viria a essas terras. Quem poderiam ser estas pessoas? Aproximou-se. Viu homens sentados na entrada de uma grande tenda. Festejavam rindo e falando alto. Quando o viram, fizeram-lhe sinal e, gritando alegremente, convidaram-no a compartilhar sua refeição. Frutas deliciosas, assados apetitosos, bebidas de todas as cores em frascos de vidro estendiam-se em profusão sobre um tapete de lã. Yunus acercou-se deles, bebeu, comeu, e finalmente ousou perguntar a essas pessoas por qual milagre, neste deserto hostil, eles se achavam assim providos de alimentos tão raros, como jamais ele havia experimentado.
Uma voz conduziu-nos aqui, disseram-lhe. Com certeza é o melhor lugar do mundo. Todos os dias o vento traz de longe os cantos de um dervixe desconhecido. Basta escutá-los e cantá-los que logo aparecem diante de nós todas essas iguarias suculentas que você vê. Seríamos loucos se fossemos viver noutro lugar.
Yunus extasiou-se, confessou que jamais conhecera magia igual e atreveu-se a perguntar a seus companheiros se eles poderiam ensinar-lhe tais cantos para que ele não morresse de fome pelo caminho.
- Com prazer, responderam os homens. E se puseram a cantar. Então Yunus, com os olhos arregalados e a boca aberta, ouviu os cantos que ele mesmo inventara durante cinco anos, varrendo o pátio do monastério. Reconheceu as mesmas palavras que pronunciara com o único desejo de enganar a solidão. Músicas nascidas em seu coração, na esperança de espantar a melancolia. Eram a sua obra. No mesmo instante, compreendeu para qual trabalho ele estava neste mundo, experimentou a pura verdade de sua alma e sofreu a pior vergonha pensando em Taptuk que o havia instruído, sem que ele percebesse, como a um filho infinitamente amado. Então abraçou e beijou os homens que o haviam acolhido e voltou ao monastério correndo e chorando. “Taptuk me perdoará por eu ter duvidado dele? se dizia ele, bebendo o vento. Algum dia ele me perdoará?”
Já era noite quando chegou à porta carcomida que fechava a paliçada. Bateu chamando e pedindo piedade. O rosto da esposa de Taptuk apareceu em cima do muro.
- Eis que está de volta, Yunus, disse ela docemente. Pobre criança! Não sei se Taptuk o aceitará de novo entre nós. Sua partida o desesperou. “Que desgraça, disse-me ele, meu filho mais querido deixou-me. Que vale a minha vida daqui para a frente?” Vou abrir. Você vai dormir na poeira do pátio. Amanhã, quando seu mestre fizer o passeio matinal, vai bater o pé no seu corpo. Se ele disser: - “quem é este homem?”, então você deverá partir para sempre. Mas se disser: “É você meu bom Yunus?”, então saberá que pode outra vez viver em sua presença. Entre meu filho.
Yunus deitou-se na poeira do chão. Ao amanhecer viu aproximar-se Taptuk, o cego, com sua esposa. Fechou os olhos, sentiu um pé contra suas costas e ouviu:
- É você meu bom Yunus?
Ele se levantou inebriado de luz e de felicidade, correu para sua vassoura e começou novamente a varrer o pátio.
segunda-feira, 11 de março de 2013
Vai Cinderela
Outro dia me deparei com esta história da filhinha genial de uma amiga e neta de uma irmã de alma que me fez pensar...
Ai o papai chega em casa e coloca seu uniforme do Corinthians para ver o jogo, bate as duas mãos no peito e grita: Vai Corinthians. Maria Fernanda não deixa por menos, já vestida com sua camisola da Cinderela bate as duas mãos no peito e grita: Vai CINDERELAAAAAAAA!!!!!!
Princesas movem e comovem meninas e mulheres desde há muito. Se os herois masculinos matam dragões e atravessam jornadas muitas vezes motivados por elas, as princesas são heroínas que mostram o jeito feminino de ser. Verdade é que foram um tanto adocicadas e despojadas de seus poderes mas se formos buscar as histórias originais( sim , não se diferencia mais estória de história) vamos nos deparar com feitos tão grandiosos quanto os dos herois. Elas são belas, gentis, mas também podem ser guerreiras sagazes e pasmem, a maioria nem está em busca de um príncipe.
Por isso junto minha voz à de Maria Fernanda e torço : VAI CINDERELA!!!
Agradecimentos especiais à princesa Maria Fernanda.
Ai o papai chega em casa e coloca seu uniforme do Corinthians para ver o jogo, bate as duas mãos no peito e grita: Vai Corinthians. Maria Fernanda não deixa por menos, já vestida com sua camisola da Cinderela bate as duas mãos no peito e grita: Vai CINDERELAAAAAAAA!!!!!!
Princesas movem e comovem meninas e mulheres desde há muito. Se os herois masculinos matam dragões e atravessam jornadas muitas vezes motivados por elas, as princesas são heroínas que mostram o jeito feminino de ser. Verdade é que foram um tanto adocicadas e despojadas de seus poderes mas se formos buscar as histórias originais( sim , não se diferencia mais estória de história) vamos nos deparar com feitos tão grandiosos quanto os dos herois. Elas são belas, gentis, mas também podem ser guerreiras sagazes e pasmem, a maioria nem está em busca de um príncipe.
Por isso junto minha voz à de Maria Fernanda e torço : VAI CINDERELA!!!
Agradecimentos especiais à princesa Maria Fernanda.
segunda-feira, 4 de março de 2013
Voltando...
Há tempos não escrevo... Nada me vinha, árvores anciãs me transpassaram os olhos e silêncio. Partidas de grandes amores me devastaram e silêncio. Belezas e feiuras me visitaram. Agitações de alma não me faltaram. Faltou-me a palavra, o salto necessário para a organização de uma letra junto à outra. Acontece...
Porém, até mesmo Perséfone, volta e hoje, dia em que acima de tudo honro a vida que me foi presenteada, uso de Adélia emprestado um pedacinho de poema pra abrir os trabalhos deste novo ano:
Paixão
De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.
O mundo cheio de departamentos, não é a bola bonita caminhando
solta no espaço (...)
sexta-feira, 13 de julho de 2012
Desilusão
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Naufrágio
Há tempos ela vinha ficando quieta, silenciosa, muda. Espreitava atenta os ruídos do pirata que habitava seu coração. Não saberia dizer quando lá ele se instalara, mas o certo é que causava trepidações em seu corpo e mudanças bruscas de temperatura. Depois de muito refletir resolveu que esperaria alguma comunicação, algum pedido de resgate. Nada. Aconteciam festins após festins; tesouros e despojos sendo tomados todos os dias. E o rum corria solto. Descontrolada e totalmente entregue não viu alternativa senão afundar o navio. Abriu vários buracos no casco enquanto o pirata dormia. Sentiu a água avançar barco acima.
Acordou falante e completamente curada da paixão insana. Nunca mais ouviu o mar...
segunda-feira, 25 de junho de 2012
Cecilia fala...
Nesta nossa língua tão rica e cheia de possibilidades, poetas encontram caminhos tão simples de nos trazer beleza e novos horizontes internos. Cecília Meireles é mestre nisto. Fala de céus, mares, borboletas e jardins. Fala de sonho e desilusão. Fala Cecília...
Canção
Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
quarta-feira, 20 de junho de 2012
La Loba
Tem dias em que só uma boa história para te curar uma tristeza ou te tirar da apatia. Esta contada por Clarissa Pínkola é um dos bálsamos mais eficazes que conheço. Traz de volta à vida a fé que se perdeu... Bem vinda seja La Loba!!!
La Loba
Existe uma velha que vive num lugar oculto de que todos sabem, mas que poucos já viram. Como nos contos de fada da Europa oriental, ela parece esperar que cheguem até ali pessoas que se perderam, que estão vagueando ou à procura de algo.
Ela é circunspecta, quase sempre cabeluda e invariavelmente gorda, e demonstra especialmente querer evitar a maioria das pessoas. Ela sabe crocitar e cacarejar, apresentando geralmente mais sons animais do que humanos.
Dizem que ela vive entre os declives de granito decomposto no território dos índios tarahumara. Dizem que está enterrada na periferia de Phoenix perto de um poço.Dizem que foi vista viajando para o sul, para o monte Alban num carro incendiado com a janela traseira arrancada. Dizem que fica parada na estrada perto de El Paso, que pega carona aleatoriamente com caminhoneiros até Morelia, México, ou que foi vista indo para a feira acima de Oaxaca, com galhos de lenha de estranhos formatos nas costas. Ela é conhecida por muitos nomes: La Huesera, a Mulher dos Ossos; La Trapera, a Trapeira; e La Loba, a Mulher-Lobo.
O único trabalho de La Loba é o de recolher ossos. Sabe-se que ela recolhe e conserva especialmente o que corre o risco de se perder para o mundo. Sua caverna é cheia de ossos de todos os tipos de criaturas do deserto: o veado, a cascavel, o corvo. Dizem, porém, que sua especialidade reside nos lobos.
Ela se arrasta sorrateira e esquadrinha as montañas e os arroyos, leitos secos de rios, à procura de ossos de lobos e quando consegue reunir um esqueleto inteiro, quando o último osso está no lugar e a bela escultura branca está disposta à sua frente, ela senta junto ao fogo e pensa na canção que irá cantar.
Quando se decide, ela se levanta e aproxima-se da criatura, ergue seus braços sobre o esqueleto e começa a cantar. É aí que os ossos das costelas e das pernas do lobo começam a se forrar de carne, e que a criatura começa a se cobrir de pelos. La Loba canta um pouco mais, e uma proporção maior da criatura ganha vida. Seu rabo forma uma curva para cima, forte e desgrenhado.
La Loba canta mais, e a criatura-lobo começa a respirar.
E La Loba ainda canta, com tanta intensidade que o chão do deserto estremece, e enquanto canta, o lobo abre os olhos, dá um salto e sai correndo pelo desfiladeiro.
Em algum ponto da corrida, quer pela velocidade, por atravessar um rio respingando água, quer pela incidência de um raio de sol ou de luar sobre seu flanco, o lobo de repente é transformado numa mulher que ri e corre livre na direção do horizonte.
Por isso, diz-se que, se você estiver perambulando pelo deserto, por volta do pôr do sol, e quem sabe esteja um pouco perdido, cansado, sem dúvida você tem sorte, porque La Loba pode simpatizar com você e lhe ensinar algo- algo da alma.
Estés, Clarissa Pínkola - Mulheres que correm com os lobos: Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem- Rio de Janeiro, Rocco, 1994
Falando sério...
Na última sexta fui, como sempre, para Mogi das Cruzes de trem. Por motivos festivos saí de lá um tanto mais tarde do que o normal e portanto, cheguei na baldeação de Guaianazes numa hora de pico. As portas se abriram e um bando de pessoas querendo entrar no trem de qualquer maneira impediam a saída e quase me derrubaram com sua força de turba. Foi quando uma boa alma me avisou de que eu deveria sair pela primeira porta do vagão onde ficam guardas para organizar as coisas. Poderia eu dizer que são todos uns mal educados que não sabem se comportar com civilidade. Mas, olhando de perto, quem submetido diariamente a este tratamento de gado, num vagão tão apinhado de gente, em que se suspende todos os pudores de proximidade e espaço pessoal, consegue preservar sua integridade e humanidade? E quem realmente se preocupa com o bem estar destes trabalhadores? Com seu conforto então nem se fala. São pobres, não têm carro, não merecem regalias. Triste é saber que nada lhes é oferecido e depois se cobra que tenham consciência. Consciência que lhes é tirada cotidianamente para que aguentem e que se tivessem não sobraria pedra sobre pedra...
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Álvaro e o dia de seus anos
Dizem que geminianos assobiam e chupam cana ao mesmo tempo. Dizem que gostam de escarafunchar tudo e descobrir tudo. Dizem que têm a capacidade de se multiplicar em mil. Dizem... Fernando Pessoa confirma isto com maestria e vai além. Visita todas as paisagens e todos os cantos da alma com olhares tão diversos que chega a espantar. Grande geminiano que nos transpassa e eleva. Aqui Álvaro canta a saudade de seus aniversários de infância. Soberbo.
- Álvaro de Campos, 15-10-1929
- ANIVERSÁRIO
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Passarinhos, Manoel e Bach
Há tempos conhecia Manoel de Barros. Agora me encantei tão plenamente que todo dia descubro algo novo, belo e de tão singelo, comovente.Quando se junta a Bach então...
DE PASSARINHOS
Para compor um tratado sobre passarinhos
É preciso por primeiro que haja um rio com árvores
e palmeiras nas margens.
E dentro dos quintais das casas que haja pelo menos
goiabeiras.
E que haja por perto brejos e iguarias de brejos.
É preciso que haja insetos para os passarinhos.
Insetos de pau sobretudo que são os mais palatáveis.
A presença de libélulas seria uma boa.
O azul é muito importante na vida dos passarinhos
Porque os passarinhos precisam antes de belos ser
eternos.
Eternos que nem uma fuga de Bach.
sexta-feira, 11 de maio de 2012
O olhar de Caeiro
- Tem dias em que só a poesia ilumina. Só a poesia nos traduz. Só a poesia nos conforta... Caeiro em seu Guardador de Rebanhos surge sempre como um bálsamo.
- O meu olhar é nítido como um girassol.
- Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
quarta-feira, 9 de maio de 2012
" Se contarmos..."
Como a poesia, tal qual veneno e cura depois de uma semana intensamente exposta, ainda circula em minhas veia chegamos a este poema que desvela caminhos inesperados dos encontros e desencontros amorosos. Deu certo trabalho à bela que o escolheu...
De Martha Medeiros
Se contarmos todas as palavras que trocamos
Daria para escrever um bom romance
Eu nem te conhecia e contei meus absurdos
Tu nem me conhecia e contou teus muitos planos
Se contarmos todos os olhares que trocamos
Daria para encher um lago inteiro
Eu nem te conhecia e contei o meu passado
Tu nem me conhecia e contou teu desespero
Se contarmos todos os silêncios que trocamos
Daria para povoar um edifício
Eu nem te conhecia e contei meus vinte anos
Tu nem me conhecia e contou teus sacrifícios
Se contarmos todas as fantasias que trocamos
Daria pra dizer que amantes fomos
Mas o amor exige beijos e abraços
E não reconheceu o nosso encanto
Eu nem te conhecia e contei meus absurdos
Tu nem me conhecia e contou teus muitos planos
Se contarmos todos os olhares que trocamos
Daria para encher um lago inteiro
Eu nem te conhecia e contei o meu passado
Tu nem me conhecia e contou teu desespero
Se contarmos todos os silêncios que trocamos
Daria para povoar um edifício
Eu nem te conhecia e contei meus vinte anos
Tu nem me conhecia e contou teus sacrifícios
Se contarmos todas as fantasias que trocamos
Daria pra dizer que amantes fomos
Mas o amor exige beijos e abraços
E não reconheceu o nosso encanto
terça-feira, 8 de maio de 2012
Adélia e sua Serenata
A cada vez que encontramos com a poesia ela nos toma, nos traduz. Adélia Prado faz isto com uma maestria inigualável. Já presenciei algumas companheiras de Oficina falando esta preciosidade que traz à luz uma expectativa e uma dor muito conhecidas. O resultado é sempre belo...
A Serenata
Uma noite de lua pálida e gerânios
ele virá com a boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela,se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?
segunda-feira, 7 de maio de 2012
"As violetas me imensam"
Semana de poesia. Semana cheia de idas e vindas, dores e emoções desencontradas. Palavras saltando dos recônditos mais esquecidos. Escolheram-me dois poemas para me possuir. Adélia veio tranquila e sábia, como sempre. Fluía doce. Mas Manoel de Barros é outra coisa. Apaixonei-me mas parecia que não ia dar em nada. A principio um encontro meio desajeitado em que as palavras não pareciam querer passear por mim. Quase deixei pra lá e fui procurar um Quintana, um Caeiro. Mas não. Tinha que ser ele. E depois de um longo domingo de conflitos e discussões aconteceu: Manoel, enfim , foi meu e eu, toda dele...
De Manoel de Barros
Não é por me gavar
mas eu não tenho esplendor.
Sou referente pra ferrugem
mais do que referente pra fulgor.
Trabalho arduamente para fazer o que é desnecessário.
O que presta não tem confirmação,
o que não presta, tem.
Não serei mais um pobre diabo que sofre de nobrezas.
Só as coisas rasteiras me celestam.
Eu tenho cacoete pra vadio.
As violetas me imensam
sexta-feira, 4 de maio de 2012
Poesia falada
Esta semana estou me banhando de poesia. Delicioso ouvir poemas novos e outros velhos conhecidos. Cada um colore com seu tom as palavras e o mundo se descortina belo. Uma poeta que se fez presente é Viviane Mosé. Surpreendentemente tocante...
A Palavra
é uma roupa que a gente veste
uns gostam de palavras curtas
outros usam roupa em excesso
existem os que jogam palavra fora
pior são os que usam em desalinho
cores brigando, substantivos em luta
alguns usam palavras raras
poucos ostentam palavras caras
tem quem nunca troca
tem quem usa a dos outros
a maioria não sabe o que veste
alguns sabem e fingem que não
uns nunca usam a roupa certa para ocasião
tem os que se ajeitam bem com poucas peças
outros se enrolam no vocabulário de muitas
eu adoro usar palavra limpa
tem gente que estraga tudo o que usa
com quais palavras você se despe?
Poema do livro TODA PALAVRA, Sete Letras, 1997.
A Palavra
é uma roupa que a gente veste
uns gostam de palavras curtas
outros usam roupa em excesso
existem os que jogam palavra fora
pior são os que usam em desalinho
cores brigando, substantivos em luta
alguns usam palavras raras
poucos ostentam palavras caras
tem quem nunca troca
tem quem usa a dos outros
a maioria não sabe o que veste
alguns sabem e fingem que não
uns nunca usam a roupa certa para ocasião
tem os que se ajeitam bem com poucas peças
outros se enrolam no vocabulário de muitas
eu adoro usar palavra limpa
tem gente que estraga tudo o que usa
com quais palavras você se despe?
Poema do livro TODA PALAVRA, Sete Letras, 1997.
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