quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Sobre lobos

Quando li pela primeira vez este livro fiquei tão encantada ao reconhecer comportamentos meus que pareciam extremamente inadequados para uma mulher adulta, psicóloga de respeito e coisa e tal... Tive um amigo que se molestava com minha alegria um tanto esfusiante demais para o gosto dele. Por vezes e vezes me contive para não ser tachada de deslumbrada, tentava bravamente me comportar como se deve, mas sempre o "rabo da Loba" aparecia em algum momento. Hoje não ligo mais, sigo os conselhos de minha mestra Clarissa e me divirto muito com a cara de reprovação de alguns.





La Loba é a guardiã da alma. Sem ela, perdemos nossa forma. Sem uma linha direta com ela, diz-se que os seres humanos ficam desalmados ou que sua alma está perdida. Ela dá forma à casa da alma e constroi mais com suas próprias mãos. Ela é a que usa um avental velho. Ela é a que tem um vestidinho mais comprido na frente do que atrás. Ela é a que dá pancadinhas, alisa, afaga. Ela é a criadora de almas, de lobos, a guardiã do lado selvagem.
Portanto em termos imagísticos - quer você seja um lobo negro, um cinzento do norte, um vermelho do sul, quer seja um branco do Ártico - você é a perfeita criatura instintiva. Embora algumas pessoas preferissem que você se comportasse e não demonstrasse alegria exagerada ao dar as boas-vindas a alguém, faça-o de qualquer jeito. Haverá quem se afaste de você com medo ou repulsa. A pessoa amada irá, porém, valorizar esse seu novo aspecto - se ele ou ela for a pessoa certa para você.
Algumas pessoas não apreciarão sua atitude de dar uma cheirada em tudo para ver o que é. E, pelo amor de Deus, nada de se deitar de costas no chão com as patas para cima. Menina feia. Lobo feio. Cachorros feio. Certo? Errado. Não ligue. Divirta-se.

Estés, Clarissa Pínkola - Mulheres que correm com os lobos: Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1994

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Nasrudin dá esmolas...

Nosso querido personagem mostra verdades ocultas da alma...


A luta dos cegos 


Certa manhã, quando dirigia-se ao mercado, Nasrudin viu alguns cegos e,
fazendo tilintar as moedas em sua bolsa, disse em voz alta:
- Amigos, amigos, peguem estas moedas. Tu, toma esta, tu, esta, e vocês
repartam o resto - e enquanto fazia isso, fazia tilintar as moedas em sua
bolsa.
É evidente e seria até demais esclarecer, que não repartiu um só tostão.
Produzida a cena, afastou-se para observar a seguinte situação: Os cegos
começaram a precipitar-se uns sobre os outros, exclamando e gritando: " deu
tudo para ti". Ou então:" Vocês ficaram com tudo ao invés de repartir". Ou:
" Eu nada recebi", " mentes", " dá-me a minha parte", etc. etc.
Isso transformou-se em empurrões, socos, chutes, insultos, xingamentos,
terminando em uma grande batalha indescritível, dada a cegueira total
reinante.
Nasrudin, que seguia de perto as peripécias da batalha, murmurou:
- Isto é o que poderia chamar-se de uma " uma luta de cegos por motivo inexistente".

inexistente".

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A Criança de Sal


Histórias comovem e transformam, ao mesmo tempo que descortinam paisagens insuspeitadas de nosso mundo interno. Outro dia ao contar uma história para as crianças na Escolinha do Centro Educacional Jabuti, um dos pequenos disse que queria ver imagens. Eu lhe disse que fechasse os olhos e imaginasse a Baba Yaga, a casa dela, a Vasalisa e assim por diante. Deste jeito ela teria todo um novo mundo de imagens que seriam só dela. Passear por estas imagens imaginadas nos alimenta e enriquece.
Esta pequena e potente história nos leva ao nosso vasto oceano interior...




Era uma criança feita de sal que desejava muito saber de onde vira. Partiu então em uma longa viagem, percorrendo muitas terras para tentar chegar a esse entendimento. Por fim, aproximou-se da orla de um grande oceano. "Que maravilha!", pensou e mergulhou um pé na água. O oceano instigou-a um pouco mais, dizendo:
- Se queres saber quem és, não temas.
A criança de sal foi entrando na água, dissolvendo-se a cada passo, até que exclamou:
- Ah! Finalmente sei quem eu sou!

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Como Nasrudin aprende


Mais uma vez nosso querido mestre transborda sabedoria...
APRENDIZADO


"Como foi que você aprendeu tanto, Mullá?", perguntaram certa vez a Nasrudin.

"Falando muito", respondeu ele.

"Vou colocando em seqüência todas as palavras que me vêm à mente. Quando eu fico interessante, posso ver o respeito no rosto das outras pessoas. Na hora em que isso acontece, começo a tomar nota do que disse".

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Mais um sermão de Nasrudin


Mais uma vez nosso querido personagem surpreende na hora de transmitir seus conhecimentos...


QUEM SABE CONTA PRA QUEM NÃO SABE

Os moradores da vila onde Nasrudin morava pediram a ele que fizesse um sermão na mesquita. O objetivo era testar sua sabedoria, já que ele era visto como uma espécie de homem santo. Nasrudin concordou. Andou calmamente até a mesquita, olhou para a multidão e perguntou: 
– Vocês sabem o que eu vou dizer?
– Não, responderam.
– Eu me nego a falar para uma platéia de ignorantes, disse ele. E foi embora pra casa.
Os moradores ficaram vexados e formaram uma comissão para convencer o Mullá a ir de novo à mesquita. Na sexta seguinte, ele voltou e repetiu a pergunta. Dessa vez a platéria respondeu em uníssono. 
– Sabemos.
– Então não há motivo para eu estar aqui, disse Nasrudin.
Novamente, os moradores se organizaram e conseguiram convencer o Mullá a fazer a terceira tentativa. Mas dessa vez, os moradores estavam preparados. Quando Nasrudin repetiu a pergunta, uns disseram que sim e outros disseram que não.
– Excelente, disse o Mullá. Quem sabe conta para quem não sabe

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Sobre o cuidar

Já faz um tempo assisti a um filme despretensioso, meio drama, meio comédia romântica com a Sandra Bullock. "28 dias", que é o tempo de internação para reabilitação de viciados em drogas. Rehab mesmo. O que mais me chamou a atenção era o conselho dado a quem deixava a clínica: antes de começar qualquer relação, fonte inesgotável de ansiedades e inquietações, o paciente deveria cuidar de uma planta pelo menos por um mês e de um animal de estimação por um ano. 
Grande tarefa esta a do cuidar! Para começar temos que considerar as necessidades do que cuidamos. Quanto de água, sol e vento precisa uma determinada planta? Até cactos exigem que de vez em quando se olhe para eles. Gostam de alguns lugares na casa e não de outros e assim por diante. É necessário observar e tentar fazer o melhor. Para começar.
E bicho, então? Que trabalheira que dá. Exige um desprendimento enorme e uma atenção constante. Fazem um monte de coisas estranhas , temos que alimentá-los e lidar com seus dejetos. Se for cachorro tem que sair para passear, se gato brincar um pouquinho. E definitivamente, eles não fazem mesmo tudo o que queremos. Exercício de amor incondicional e de total aceitação. Quem sabe depois podemos começar a aplicar estas lições às nossas relações um tanto viciadas?

domingo, 14 de agosto de 2011

Dia dos Pais sem pai


                               

Acho estranhos os caminhos da vida...Neste dia dos Pais só consigo pensar nos meus sobrinhos que perderam os seus quase que simultaneamente. Meu cunhado se foi numa quarta e meu irmão no dia seguinte. Ficaram os três sem esta figura tão importante e constitutiva. Meu irmão perdeu os momentos mais interessantes da vida de Felipe que de menino levado cresceu e virou um belo homem, honrado e cheio de vida. Não acompanhou a transformação de Sarah numa bela mulher. No casamento de meu sobrinho não conseguia parar de chorar por saber o quanto meu querido irmão gostaria de estar ali...
Já o Gabriel que me veio como presente tardio, como o terceiro filho que sempre quis ter, este percebo que sente todos os dias a falta. Como ele mesmo já escreveu, o desejo de compartilhar momentos simples e cotidianos, que nunca teve a oportunidade; tinha apenas três anos quando o pai se foi. Fica uma lacuna imensa no peito e um desejo de encontrar alguém para colocar no lugar. Por vezes, até parece que preencheu, mas basta um silêncio mais prolongado e se dá conta do que perdeu e para o que não existe substituição.
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