terça-feira, 7 de junho de 2011

E tinha uma pedra no fim do caminho...

Sísifo era daqueles mortais que  queriam levar vantagem em tudo, quer com seus semelhantes, quer com os próprios deuses. Certa feita avistou uma águia que carregava nas garras uma bela jovem. Não era ninguém mais do que nosso velho conhecido Zeus que raptara a filha de Asopo , um deus-rio. Precisando de uma fonte para suas terras, procurou o pai desesperado e lhe propôs um acordo, revelaria o nome do raptor em troca da fonte. 
Quando soube do acontecido o grande deus ficou transtornado e mandou que Tânatos, o deus da morte, levasse o delator para o mundo dos mortos. O espertalhão, entretanto, conseguiu enganar o deus, elogiando sua beleza e o presenteando com um colar, que na verdade revelou-se uma coleira com a qual Sísifo prendeu a Morte.Logo começaram novos problemas: ninguém mais morria, o que acabou por enfurecer Hades, o deus dos mundos inferiores e Ares, o deus das batalhas. Por fim, Hades libertou Tânatos e ordenou-lhe que trouxesse imediatamente o mortal para seus domínios.Antes de ser levado, o safado instruiu a mulher para que deixasse seu corpo insepulto.Ao chegar ao inferno reclamou com o deus pela falta de respeito da mulher e pediu-lhe um dia para retornar, vingar sua ingratidão e fazer os rituais fúnebres apropriados. Seu pedido foi concedido. Assim que chegou à superfície, fugiu com a mulher. Conseguira enganar a Morte pela segunda vez.
Continuou a enganar e ganhar disputas ilicitamente, tendo morrido afinal de velhice. Desta vez não haveria escapatória: por toda a eternidade teria que empurrar uma pedra de mármore até o cume de uma montanha.A cada vez que estava quase alcançando o topo, a pedra rolava e teria que começar tudo de novo.
Pena que hoje os espertalhões de plantão acabem impunes. Quem sabe uma pedra os espere do outro lado?

O sermão de Nasrudin

O sufismo é uma corrente do islamismo, onde os praticantes buscam uma relação íntima e profunda com o sagrado Acreditam num Deus amoroso com quem se pode ter contato através da união mística. Pode ser visto com uma filosofia de autoconhecimento que busca o sagrado através de diversas práticas, como a dança, a música, as histórias. Como o anseio pelo divino seria uma condição humana, não se prenderia à uma religião específica. Por esta visão são considerados quase heréticos pelos muçulmanos tradicionais. 
As histórias sufis são constante fonte de ensinamento e alimento para a alma.


O sermão de Nasrudin

Certo dia, os moradores do vilarejo quiseram pregar uma peça em Nasrudin. Já que era considerado uma espécie meio indefinível de homem santo, pediram-lhe para fazer um sermão na mesquita. Ele concordou.Chegado o tal dia, Nasrudin subiu ao púlpito e falou:
- Ó fiéis! Sabem o que vou lhes dizer?
- Não, não sabemos
- Enquanto não saibam, não poderei falar nada. Gente muito ignorante, isso é o que vocês são. Assim não dá para começarmos o que quer que seja - disse o Mulla, profundamente indignado por aquele povo ignorante fazê-lo perder seu tempo.
Desceu do púlpito e foi para casa. Um tanto vexados, seguiram em comissão para, mais uma vez, pedir a Nasrudin fazer um sermão na Sexta-feira seguinte, dia de oração. Nasrudin começou a pregação com a mesma pergunta de antes. Desta vez, a congregação respondeu numa única voz:
- Sim, sabemos
- Neste caso não há porque prendê-los aqui por mais tempo. Podem ir embora.
E voltou para casa. Por fim, conseguiram persuadi-lo a realizar o sermão da Sexta-feira seguinte, que começou com a mesma pergunta de antes.
- Sabem ou não sabem?
A congregação estava preparada.
- Alguns sabem, outros não.
- Excelente - disse Nasrudin - então, aqueles que sabem transmitam seus conhecimento para àqueles que não sabem.
E foi para casa.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Ser mulher é...



Há tempos venho trabalhando com a questão do feminino. Começava vários workshops com a pergunta às participantes:  "O que te define como mulher?" Tal pergunta sempre causou uma certa inquietação. "Como assim?" Caras intrigadas me encaravam e surgiam as mais inusitadas respostas. De joias a compras impulsivas, já ouvi muitas coisas. Até que se chega ao corpo feminino suas implicações. Ter vagina, ter seios, ter menstruação, ter ciclos. Ser mulher é sobretudo estar ligada a este mediador da experiência: seu corpo. Com todas as suas consequências.
Nem todas gostam muito disto, ainda mais ultimamente quando a última moda é não mais ser incomodada pelo sangue e assim produzir mais e melhor.  Estranhamente tudo o que antes era natural, hoje ficou muito difícil. Outro dia ouvi uma jovem dizer que parto normal é algo cruel para o bebê... O sangue menstrual, honrado pelas sacerdotisas de todas as deusas, é tratado como mero desperdício. A indústria farmacêutica resolve todos os  problemas. Tanto de ciclos quanto de humores. Afasta cada vez mais a mulher da natureza. Quem sabe, por isso mesmo, daqui a algum tempo o feminino será definido pelo silicone e pelas infinitas compras?

domingo, 5 de junho de 2011

A saudade de Alice Ruiz



Há poetas e poetas. Cada um de nós escolhe os que mais de perto tocam nossa alma. Tenho vários muito amados. Uma destas é Alice Ruiz. Ora fala pouco com seus haikais preciosos. Ora um pouco mais... Traduz o eterno em letras, alcança profundezas com palavras. Como todo poeta de língua portuguesa lembra-nos deste sentimento que nos perpassa o ser:




Saudação da Saudade


minha saudade
saúda tua ida
mesmo sabendo
que uma vinda
só é possível
noutra vida
 
aqui, no reino
do escuro
e do silêncio
minha saudade
absurda e muda
procura às cegas
te trazer à luz
 
ali, onde
nem mesmo você
sabe mais
talvez, enfim
nos espere
o esquecimento
 
aí, ainda assim
minha saudade
te saúda
e se despede
de mim

sábado, 4 de junho de 2011

Sonho que se sonha junto...

Tenho um grande amigo sonhador e idealista. Sonha com um mundo melhor. Encontrou-se com um grupo de pessoas que também desejavam melhorar o mundo. Até aí, quase todo mundo deseja. O certo é que resolveram arregaças as mangas e fazer este mundo melhor acontecer. Por onde começar? Pelo começo: pelas crianças. Onde? Numa comunidade carente em Mogi das Cruzes. Há cinco anos nascia o Centro Educacional Jabuti. Tive a honra de participar da Assembleia de fundação onde a jornada começou no concreto.
Sonhar é fácil. Realizar são outros quinhentos... Muitas águas já rolaram nesta aventura, muitas dificuldades e muitas realizações. Hoje o projeto é dividido em três frentes: a escolinha em Mogi Moderno com  crianças menores, que cumpre a função de creche suprindo uma necessidade antiga no bairro; o Centopeia em Jundiapeba, que funciona num sistema de jornada ampliada, ou seja, é frequentado por crianças nos horários em que não estão na escola propriamente dita e o PETI- Prema, que faz parte do programa de erradicação do trabalho infantil. São oferecidas atividades lúdicas e pedagógicas, bem como alimentação em todos os projetos.
Há algumas semanas resolvi me juntar ao trabalho e passei a dedicar minhas sextas a isto. Trabalho na escolinha com as  professoras e cuidadoras , oferecendo-lhe um espaço para que também sejam cuidadas. E com as crianças realizei um sonho antigo: conto histórias das mais diversas mitologias. Mostrando a elas novas possibilidades de compreender e criar seus mundos, tanto dentro, quanto fora. Estar ali, contemplando aquelas carinhas de olhos brilhantes que tem toda uma vida pela frente, sempre me comove. Abraçam carinhosamente, pedem colo, são disponíveis para o afeto. Renovam a esperança de que o sonho se realize e que este grande mundo tão perdido possa se descortinar novo a partir deste olhinhos que até já viram  coisas dificeis, mas que ainda acreditam... 


www.cejajabuti,org

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O alfaiate desatento

As quintas-feiras são dias especiais. Dia em que histórias são contadas e ensinamentos transmitidos. Tâmaras acompanham as reuniões para lembrar que é o dia de Muskil Gushá, o dissipador de todas as dificuldades.  Dia de ajudar quem precisa. De sossegar a mente e o coração e beber das palavras de sabedoria.  A história de hoje nos lembra do quão distraídos somos e de quantas idas e vindas precisaremos até acordar de verdade. Assim nos conta Regina Machado em seu livro " A  formiga Aurélia e outros jeitos de olhar o mundo".



O Alfaiate desatento

"Era uma vez, a menos de mil quilômetros daqui, um alfaiate viúvo que vivia com a filha pequena... Apesar de ser um ótimo artesão, era uma pessoa que não prestava atenção em algumas coisas.
Assim, costumava sair à rua com a mesma roupa velha, todas esfarrapadas, que usava o dia in­teiro dentro de casa.
Os comentários se espalhavam, e ninguém mais encomendava roupas para o alfaiate, que foi ficando pobre. Um dia, sua filha disse: "Pai, não temos quase nada para comer. O senhor precisa fazer alguma coisa, senão vamos morrer de fome".
O alfaiate foi até' o sótão da casa, onde fazia muito tempo guardava coisas que considerava sem utilidade. Ao remexer nas pilhas empoeiradas, descobriu que entre elas havia objetos de valor. Ele nem se lembrava mais quando os tinha posto ali, nem por quê. Juntou uma porção desses objetos num carrinho e foi vendê-los no mercado da cidade. Com o dinheiro que recebeu, comprou comidas deliciosas para ele e para sua filha.
No caminho de volta para casa ele viu, pendurado na porta de uma tenda, um tecido magnífico, como nunca ti­nha visto. Era inteiro bordado com fios de todas as cores do arco-íris, formando várias figuras distintas. Nele também havia padrões ornamentais com fios de ouro e prata entrelaçados que brilhavam à luz do sol. O alfaiate, maravilhado, resolveu comprar aquele tecido com o dinheiro que havia sobrado.
Assim que chegou em casa, esticou o tecido sobre a mesa, pensou um pouco, e depois cortou e costurou um belíssimo manto que quase arrastava no chão.
Quando saiu à rua com aquele manto, as pessoas o rodearam e perguntaram:
- Onde foi que você comprou este manto? No Orien­te, na ilha de Java?
- Não - respondeu o alfaiate. - Eu mesmo o fiz.
- Então, nós também queremos um manto lindo como este.
E foram levar tecidos para ele, formando uma fila à porta de sua casa. Eram tantas pessoas, e tantos mantos eles fez, que acabou ficando rico.Mas ele era uma pessoa que não prestava atenção em algumas coisas. Ele não tirava seu manto: costurava com ele, fazia comida, cuidava do jardim. Passou-se muito, muito tempo. O manto ficou velho e estragado. As pessoas, vendo-o tão mal vestido na rua, começaram a achar que ele não devia ser um bom profis­sional. E deixaram de fazer encomendas. E ele ficou pobre outra vez.
Certo dia, não tendo nada para fazer, o alfaiate ficou observando o manto e descobriu que ainda havia um pedaço do tecido que não estava estragado. Pôs o manto sobre a mesa, cortou as partes rasgadas, desmanchou as cos­turas, pensou um pouco e fez um lindo casaco, com uma gola enorme.
Quando saiu com o casaco, as pessoas queriam saber: 
- Onde foi que você comprou este casaco? Na Aus­trália, no pólo norte?
- Não, eu mesmo o fiz.
E foram tantas encomendas de casacos, que o alfaiate ficou rico outra vez.Mas continuava sendo aquele homem que não prestava atenção em algumas coisas. A qualquer tipo de comemo­ração - casamento, batizado, enterro, festa de aniversário -lá ia ele com o casaco. Passou-se muito, muito tempo. E o casaco ficou todo esburacado, cheio de manchas. Ninguém mais fazia en­comendas. Ele ficou pobre
Ele ficou pobre. Percebendo que o casaco ainda tinha um pedaço bom de tecido, o alfaiate o desmanchou e fez um colete tão lindo que todos na rua lhe perguntavam:
- Onde foi que você comprou este colete? No Afe­ganistão? Na Terra do Fogo?
- Não, eu mesmo o fiz.
E com tantas encomendas de coletes, o alfaiate ficou rico. Mas, não sei se já lhes contei, ele era uma pessoa que não prestava atenção em algumas coisas. Não tirava o colete para nada, nem mesmo para tomar banho.
Passou-se muito, muito tempo. E o colete ficou em petição de miséria. Pobre mais uma vez, o alfaiate aproveitou o pequeno pedaço de tecido do colete que ainda estava per­feito e sabem o que ele fez? Uma gravata-borboleta. Mas não era uma gravata qualquer. Era tão linda e brilhava tanto, que todos queriam gravatas como aquela.
Depois de muito trabalhar, ele acabou ficando rico. E não deixava de ser aquela pessoa que Não P... A... em A ... Coisas. Nem para dormir ele tirava a gravata.
Passou-se muito, muito tempo. E a gravata ficou torta, ensebada, irreconhecível. O alfaiate ficou pobre mais uma vez, já que ninguém mais lhe fez encomendas.
(Não se preocupem, o conto já está chegando ao fim.)
O alfaiate ainda descobriu na gravata um pedacinho de tecido que podia servir para alguma coisa. E então fez um superutrabelíssimo botão, bem redondo, que costurou na sua roupa velha, no meio do peito. Ninguém notava os farrapos que ele vestia; o botão era tão brilhante e magnífico que todos queriam botões como aquele. E tantos ele fez, que ficou rico.
Mas continuava sendo aquela pessoa que N  Prestava A em  A  C. Por muito, muito tempo. E ele foi pobre.
Desmanchou o botão e ainda sobrou um pedacinho de tecido bem pequenininho, que conservava intactos alguns padrões de fios dourados e prateados, entremeados com to­das as cores do arco-íris, que brilhavam intensamente.
O que o alfaiate fez com aquele pedaço minúsculo que sobrou do magnífico tecido?"

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Casei-me com um vulcano

Numa tarde distante de minha adolescência estava num grupo de jovens um tanto distraída...Um dos rapazes começou a escrever letras gregas num quadro negro. Fiquei encantada. Que caracteres seriam aqueles? Com seu eterno ar professoral, o jovem acertou seus óculos e me deu uma aula de grego. Como desde sempre amei mitologia queria aprender mais e mais.
Logo descobri que o tal rapaz tinha muitos outros talentos: pintava quadros maravilhosos, jogava xadrez como poucos, discorria maravilhosamente sobre qualquer assunto. Infelizmente, era meio retraído diante de estranhos e tinha muitas outras manias esquisitas. Declarou-se em algum momento um parente daquele ser de orelhas pontudas da série que então fazia sucesso na Tv, o Spock. Acreditava-se um vulcano.
Depois de um pedido desajeitado de namoro, onde enumerou todas as possíveis dificuldades que passaríamos juntos, começamos uma longa jornada. Erramos e acertamos , tivemos dois filhos incríveis, nos entendemos e nos desentendemos muitas vezes. Foram muitos os desencontros que por fim nos separamos e seguimos nossos caminhos.
Entretanto nossos destinos pareciam ter sido ligados pelos deuses, talvez os gregos mesmos, e depois de vários percalços resolvemos nos casar de novo. Numa cerimônia meio hindu refizemos nossos votos diante dos amigos e dos filhos. Ele continua disputando o armário com os gatos para se esconder quando chega alguma visita e adorando séries com extraterrestres na Tv. Hoje tenho plena certeza de que casei-me com um vulcano. Talvez também não seja tão terráquea assim...



Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...