domingo, 13 de março de 2011

Via dolorosa


Madrugada de domingo. Treze de março. O telefone toca. Uma voz desalentada anuncia a perda do filho de uma de minhas irmãs de alma. O choque é tamanho que sinto a realidade se partir ao meio. Existe um mundo em que isto poderia acontecer e outro em que ele continuava bem, belo e jovem como era.
Vou para a casa deles e lá presencio uma das cenas mais comoventes de minha vida: a mãe, com toda a ternura que cuidou de seu menino, nascido do coração, pede ajuda para escolher a melhor roupa para que com ela fosse sepultado. Segura nas mãos os óculos destruídos no acidente. Enxergasse ele um pouco melhor estaria ali...
Tive que rever minha fé naquele dia. Desde sempre acreditei que as mães pediam por seus filhos e deveriam ser obrigatoriamente atendidas . Ninguém mais do que minha irmã estava em constante oração por seus queridos. Entretanto nada pode salvá-lo. Compreensão pequena a minha. Fé inexistente. Uma certa revolta foi tomando conta de mim e medo, muito medo se estávamos desamparados neste mundo hostil onde todo o tipo de desgraças pode acontecer.
Conviver com a morte aprendi desde o ventre de minha mãe, mas de um filho tão querido?!
Alguém me lembrou da história hindu em que a mãe com o filho morto nos braços procura Vishnu para implorar que ele o traga de volta à vida. O deus disse que o fará se ela lhe trouxer uma tigela de arroz doada por algum dos moradores de sua aldeia. A mulher se anima. Qualquer de seus vizinhos lhe faria a gentileza com prazer. O deus acrescenta que tal tigela deveria vir de uma casa em que nunca ninguém da família deveria ter sido tocado por Yama, o deus enlaçador da morte. Depois de percorrer todas as casas, apesar da boa vontade de seus moradores, a mãe retorna com as mãos vazia e prostrando-se diante de Vishnu entrega-lhe seu amado menino , tendo entendido que não há como fugir do ciclo de vida e morte e que sua dor era mais uma entre tantas.
Minha irmã, mais sábia e mais forte do que eu, continua sua vida ainda mais amorosa do que antes, com a certeza de que seu querido continua em sua jornada na direção da luz, ainda que numa outra dimensão. Sua fé a sustenta ajudando outras pessoas a fazer e aceitar a travessia.

sábado, 12 de março de 2011

A Banda, o filme


Um de meus portais favoritos sempre foi o cinema. Quando digo portal é o que nos leva à uma nova dimensão interna, extensões desconhecidas que acessamos com uma imagem, um diálogo, uma história...
Nestes dias chuvosos de Matutu, com trilhas e cachoeiras um tanto complicadas, a saída foi nos voltarmos para a Sétima Arte. Criou-se o inegualável Festival Simba de Cinema. Numa sala improvisada, com tela e tudo o mais, fomos salvos da claustrofobia cinza por belas imagens de lugares longínquos.
O primeiro filme a ser exibido foi " A Banda", uma produção franco israelense de 2007, que retrata a visita de uma banda militar egípcia a Israel para tocar num Centro de Cultura Árabe. Como ninguém os recebe na chegada, com todas as dificuldades de comunicação tentam chegar ao local da apresentação por conta própria e acabam parando numa cidade perdida no meio do deserto.
Fugindo do lugar comum da animosidade entre árabes e israelenses, o filme passa a tratar dos encontros humanos, das diferenças e sobretudo, das semelhanças que nos unem. A língua usada para se comunicarem é um inglês que, por vezes, não dá conta daquilo que só se pode dizer na língua materna. Até por isso, o não dito é o que sobressai. Com uma sensibilidade ímpar o diretor passeia pelas possibilidades e impossibilidades dos personagens, trazendo à luz as pequenas transformações no percurso.
É ao mesmo tempo muito divertido, com cenas hilárias, e comoventemente dramatico por desvelar que a condição humana é perpassada por "toneladas de solidão".
Mereceu o prêmio do Festival. O osso de ouro.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Amor entre livros




Ele, quando pequeno, contava histórias de amor entre um elefante e uma borboleta. Talvez pelo apego que tinha a seu elefantinho de pelúcia amarelo.
Pequena ,ela se desejasse algo difícil de conseguir, logo tinha a solução: desenhava o objeto desejado, pintava com todo o cuidado, recortava e pronto. Sentia-se plenamente feliz ao possuir o desenho. Preenchia-se de imagens vivas.
Depois de aprenderem a ler, encontraram seu reino: os livros. Separados por vários bairros ganharam prêmios de suas perspectivas bibliotecas por mais terem lido no ano tal.
Cresceram, caminharam pela vida sempre achando mundos e consolo na leitura, Misteriosamente foram trabalhar na mesma livraria ainda que em locais diferentes da cidade.
Correio interno vai, correio interno vem...Telefonemas daqui e de lá. Um dia se encontraram. Ele encantou-se com aquele jeitinho distraído e divertido dela. Ainda mais que parecia seu amor dos contos de fada. Ela achou encantador que toda aquela tagarelice escondesse uma timidez cativante. Foram muitos os assuntos e pelo menos 3 cigarros para que ele tomasse enfim coragem e a beijasse.
Deste primeiro beijo, porém, começou a se formar no imenso papel da vida um palácio com paredes e paredes de estantes repletas de livros, muitas gravuras e quadros maravilhosos. Neste lugar mágico ouve-se Cartola e Johnny Cash o dia todo. Por lá passeiam felizes gatos variados e esperam, um dia, ter cachorros também.
Ele, elefante pela memória privilegiada e ela, borboleta, bela e um tantinho avoada, caminham de mãos dadas pelas histórias que continuam a criar.





quinta-feira, 10 de março de 2011

Na chuva também se vive...


Desde muito pequena amo fazer aniversário. Amo de forma muito peculiar. Gosto de celebrar este renascimento cíclico de forma solitária e recolhida...Nem sempre dá certo. Quando fiz 40 anos fui a Noronha conhecer os golfinhos. Foi maravilhoso, mas solidão e recolhimento que é bom naquele reino de Afrodite...
Agora fazer 50 anos...Meio século ,como insistem em me lembrar. Resolvi que iria sózinha para meu refúgio. Vale do Matutu.
Desta vez não fiz as honras necessárias aos deuses da chuva. Haja água caindo do céu e abrindo sulcos profundos na terra.
A grande árvore continuava satisfeita a eterna conversa com a cachoeira e começava a manifestar suas flores de um rosa forte. As borboletas azuis desviavam magicamente dos infindáveis pingos. Eu, que já sou meio avessa à chuva por aqui, comecei a me arrepender da jornada. Pedia e pedia que estiasse, que aparecesse uma nesguinha de azul. Nada. Chuva de diversas intensidades. Depois de alguma birra e muitos espirros pude perceber que as belezas da paisagem não haviam mudado. Por trás da cortina de água tudo estava lá.
A estrada que liga a cidade ao vale passou a ser um grande problema. As pessoas esperadas para o Carnaval teriam muita dificuldade para chegar. Paulo, o cuidador de todos, estava visivelmente preocupado. Mas de uma forma ou de outra todos chegaram. Cobertos de lama, mas felizes e ilesos.
Poucos se aventuraram nas trilhas e o programa passou a ser ler, assistir filmes no cinema improvisado. Inventamos até um festival de cinema com homenagem especial para meu cachorro emprestado, o Simba. O prêmio acabou sendo o Osso de Ouro... De resto era conversar muito. Contar "causos" e histórias. Eu me deleitei em ouvir e conhecer. Gentes tão surpreendentes...Com muita vida a narrar. Encontros de amor. Mortes na sala de cinema. Discussões teológicas, geográficas e gastronômicas.
Encontrei até um irmão gêmeo que nasceu 3 anos depois e de outra mãe. Foi um reconhecimento imediato. Parecenças piscianas, descobrimos ,encantados, que líamos os pensamentos do outro. Discutimos Tolkien, Neil Gaiman e afins... Bom demais da conta.
Chegou a hora de voltar e começa uma nova aventura... Enduro no Parque do Pico do Papagaio. Subimos seis numa velha Rural, um trator na frente e sacolejamos por duas horas e meia até Aiuruoca. Cantamos durante o caminho para dar forças ao bravo Gilson, o motorista que antes só havia atolado na Amazônia. Valeu cada sobressalto...
Não consegui tomar banho de cachoeira, nem descansar no colo de minha mãe , a velha paineira. Voltei, entretanto, repleta de tantas paisagens e encontros, que tenho certeza que recebi mais do que fui buscar.


As mulheres nos haréns

De volta da Pásargada, lembrei-me de uma pequena história que ouvi Regina Machado contar e que pode ser encontrada em seu livro "O violino cigano".
Eu a conto desta maneira muito pessoal:
As mulheres nos haréns, como todos os humanos, geralmente são acometidas por duas sortes de problemas, aqueles que em árabe são chamados muskil, que são aqueles cotidianos de ordem prática e externa. Coisas que se perdem, coisas que se quebram, coisas que são roubadas e muitas outras coisas... As mulheres nos haréns são espertas e sabem que tudo isto pode ser resolvido com conselhos, paciência ou com o próprio tempo.
Existem, porém, os chamados problemas hem. Como seria um problema hem? Aquela inquietação constante que não dá descanso em tempo algum. Um aperto no peito, um desassossego sem trégua. Quando uma das mulheres começa a ficar estranha e perde a serenidade, ela sabe o que fazer. Segue solitária até o mais alto de seu palácio, senta-se e muito silenciosa passa a contemplar o horizonte. Fica e fica tempos a olhar os pássaros, as nuvens, o Sol fazendo seu caminho no céu, a Lua surgindo, as estrelas...Quando seu coração se acalma ela retorna às suas companheiras, que por conhecerem todas aquela aflição, a cercam de cuidados e mimos.
São sábias mulheres, que sabem que os problemas hem só podem ser curados com silêncio, contemplação e gentileza.


quinta-feira, 3 de março de 2011

Fui-me embora para Pasárgada


Quando estudava no Caetano de Campos da Praça da República, uma destas companhias de teatro que visitam as escolas, apresentou uma peça toda de poemas de Manuel Bandeira. Fiquei tocada, apesar das distrações da adolescência. Um dos que mais mexeu comigo foi o célebre " Vou-me embora pra Pasárgada". A idéia de que existe um lugar mágico onde minha alma se sentiria acolhida me fisgou.
Muitos anos depois, já apresentando sinais de cansaço na jornada e perdido alguns sonhos e ilusões, fui convidada para fazer um Encontro no fim do mundo. Um lugar que nem constava dos mapas, como disse preocupado o pequeno sobrinho de uma das participantes. Fui meio que desavisada. O caminho é longo, cheio de curvas e dificuldades. Viajar em grupo é sempre um tanto complicado, invariavelmente alguém se desvia do caminho. Horas na estrada, enjôos na serra...Percebi que estava indo para Avalon e as brumas precisavam ser levantadas magicamente. Nunca é tranquilo lá chegar.
Entretanto, no momento em que passei a porteira e atravessei o riachinho que dá passagem para a pousada a beleza do lugar me enfeitiçou. Esqueci todas as complicações da viagem e passei a explorar, atenta, cada quadro da paisagem que chega a machucar os olhos de tanta grandiosidade. De longe avistei a Paineira, uma velha senhora de mais de trezentos anos, que conversa há séculos com a cachoeira ao longe. Meus olhos se encheram de lágrimas ao reconhecer um ser tão antigo e poderoso que, pela ganância dos homens, quase virou gamela.
Senti que havia encontrado o refúgio perdido dos meus anseios de adolescente. Meu lugar de comunhão e nutrição. A casa de minha Mãe.
Agora que vou terminar mais um ciclo, escolho partir só e celebrar meu aniversário longe de meus queridos daqui. Descontentamentos se deram. mas sinto que é necessário silenciar, contemplar, refazer as forças no colo da árvore, nas trilhas com o grande cão Simba, nas gentilezas do Paulo e do Cândido...
Vou-me embora pra minha Pasárgada
Lá sou rainha de mim mesma
Lá nada mais desejo
Do que a beleza em que nutrirei...
















quarta-feira, 2 de março de 2011

Perséfone e a romã


Ela acordara aquela manhã com a sensação de ter sonhado a noite inteira com flores estranhas que pareciam atraí-la. Logo algumas de suas amigas vieram vê-la e esqueceu-se dos sonhos. Gostaria de sair a passear sem rumo ,mas sabia que sua mãe sempre tão cuidadosa não gostava que perambulasse distraída. Já era quase uma mulher e Deméter, sua mãe gostava de mantê-la sempre por perto.
Entretanto naquele dia sentia uma necessidade incomum de se sentir livre e correr pelos campos. Decidiu desobedecer e convidou as amigas para com ela se embrenharem por novos caminhos. Estava viva e feliz. Do nada surgiram as flores de seus sonhos e ela lembrou-se. Lá estavam , com aqules olhinhos que pareciam chamá-la. Ao estender a mão para colher uma flor,o inesperado se deu: a terra se abriu debaixo de seus pés e dela surgiu uma magnífica carruagem com cavalos negros conduzida por um homem aterrorizador. Sentiu-se agarrada por braços de aço e tragada pela terra. Só consegui gritar pela mãe.
Ao chegar nas profundezas percebeu que estava no lugar de onde não se volta. Entretanto, depois de se acostumar com aquela luminosidade diferente, cheia de sombras, sentiu que não era tão perigoso assim. Olhou para aquele que a havia raptado cheia de curiosidade. Sabia de quem se tratava. Hades, o grande Deus dos mundos inferiores. O senhor dos mortos. Seu tio. Não sentiu mais medo.
Enquanto isto sua mãe, Deméter, movia céus e terra, deuses e mortais para encontrá-la sem sucesso algum. O tempo passava e ela se acostumando com a nova vida. Com este novo mundo.
Quando enfim a mãe devastou a terra deixando os mortais sem alimento e os deuses sem oferendas, Zeus, seu pai, resolveu interferir e pedir ao irmão que devolvesse a menina.
Mas Coré, havia sucumbido aos encantos de seu raptor e principalmente deste mundo subterrâneo onde era tratada como rainha. No momento da despedida Hades lhe ofereceu uma romã. Ora, todo mundo sabe que não se pode nem sentar, nem provar de alimento algum naquele lugar sob a pena de lá ficar preso pela eternidade. Ela tomou a romã nas mãos e fitando nos olhos aquele homem comeu algumas sementes.
Confusão no mundo dos deuses! Como resolver este impasse? Depois de muita discussão alguém sugeriu que ela passasse parte do tempo com a mãe na superfície e parte do tempo com Hades no mundo inferir. Assim se fez... Seis meses com um, sei com outro .
O certo é que de Coré ninguém mais ouviu nenhuma notícia, mas Perséfone, seu nome de rainha, ainda deu muito o que falar.
Até a Bela Adormecida sonhou com ela nos infindáveis anos em que dormiu...

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